A pergunta é: “posso ter um?” A resposta: seria uma “Trivial Pursuit” — ou melhor, “Pointless” — até mesmo para boa parte do 1% Club perguntar. O Rolls-Royce Phantom Centenary, uma coleção privada de apenas 25 unidades, está esgotado há muito tempo.
Mais do que um carro, é um convite à curiosidade e ao enigma. Cada detalhe desperta perguntas sobre design, recursos e propósito — justificando o jogo de palavras com “quiz”. Durante anos, a marca enviou convites discretos a clientes selecionados, oferecendo a chance de encomendar um Phantom Centenary Private Collection. Cada exemplar, feito sob medida, levou meses para ser concluído.
Em uma era em que todas as marcas tentam exibir o ápice de seu talento em design e engenharia, a Rolls-Royce, em uma prévia confidencial e exclusiva em setembro, apresentou quase seis metros de mistérios fascinantes — e eu queria respostas.
A primeira pergunta, “quanto custa?”, foi desviada como sempre, com a diplomacia habitual da Rolls-Royce: um elegante “prefiro não responder”.
A coleção privada mais ambiciosa da Rolls-Royce
De ponta a ponta, o Phantom Centenary narra os marcos e momentos vividos pelos Phantoms desde 1925. Os artesãos da Rolls-Royce combinaram técnicas tradicionais e modernas para recriar essa jornada, resultando na coleção privada mais complexa e tecnologicamente ambiciosa já feita pela marca.
Foram necessárias várias voltas ao redor do carro para absorver sua grandiosidade — seria preciso um livro para contar sua história completa. No interior, entre imagens que contam a trajetória do Phantom, perguntei por que os bancos traseiros — feitos em tecido estampado de alta resolução, desenvolvido com um ateliê de moda e costurado com 160 mil pontos — eram de tecido, enquanto os dianteiros, inclusive o do motorista, eram de couro.
A resposta: nos tempos antigos, milionários jamais entravam no compartimento do motorista; tecido era mais confortável, couro era mais resistente.
Nos bancos dianteiros há imagens de um coelho e uma gaivota. O coelho faz referência ao codinome “Roger Rabbit”, usado no relançamento da marca em 2003. A gaivota remete ao codinome do protótipo Phantom I de 1923.
História do Phantom Centenary
Ainda na dianteira, por que o painel feito sob medida — o “Gallery” — parece as páginas de um livro com palavras abstratas em alumínio? Cada “página” traz termos usados por jornalistas ao descrever o Phantom ao longo das décadas.
“Então, eu apareço ali?”, perguntei a um executivo da marca, enquanto ele observava atentamente meu copo perto do carro já vendido. Com um sorriso: “Ah, não…” respondeu ele, bem-humorado.
Perguntei também sobre as imagens e mapas nas portas. A Rolls-Royce explica que são os trabalhos em madeira mais detalhados já feitos para um de seus modelos — com marchetaria 3D, camadas de tinta tridimensionais e folhas de ouro 24 quilates.
As portas retratam as jornadas mais marcantes do Phantom: mapas, rotas sinuosas, paisagens e carros experimentais que compõem uma narrativa visual da história do modelo. As portas traseiras mostram o litoral de Le Rayol-Canadel-sur-Mer, onde Sir Henry Royce passava o inverno; a dianteira, a paisagem da casa dele em West Wittering.

Spirit of Ecstasy volta ao design de 1925
O exterior pede uma pausa para observação: preto e branco, inspirado na era dos filmes monocromáticos de Hollywood — mas nada simples. Em referência à fluidez dos Phantoms dos anos 1930, as laterais têm o tom “Super Champagne Crystal sobre Arctic White”, e a parte superior, “Super Champagne Crystal sobre Black”.
O brilho metálico vem da mistura de partículas de vidro moído na camada de verniz — o dobro da quantidade usual.
“Notou algo na Spirit of Ecstasy?”, me perguntaram. “Está dourada?”, respondi. “Ouro maciço”, explicaram.
Fundida em ouro 18 quilates e banhada em ouro 24 quilates, recebe um selo especial da Hallmarking & Assay Office de Londres, criado exclusivamente para o Phantom Centenary. A base é de esmalte branco com o nome da coleção, e o tradicional emblema RR aparece, pela primeira vez, em ouro 24 quilates.
E como se os enigmas não bastassem, vem o jogo dos números: cada disco de roda tem 25 linhas gravadas — uma para cada carro da coleção — somando 100 linhas por veículo, em homenagem ao centenário do Phantom.
Nomes, números e detalhes no interior
De volta ao interior, com o copo agora sob guarda de um funcionário da Rolls-Royce. O teto exibe árvores de copa quadrada inspiradas no pátio da sede em Goodwood, e abelhas — referência às 250 mil residentes do apiário da Rolls-Royce — em pleno voo em direção à Phantom Rose, flor cultivada exclusivamente nos jardins da fábrica.
Entre as constelações do “Starlight Headliner”, há referências aos Phantoms históricos, incluindo o pássaro que simboliza o Phantom II “Bluebird”, de Sir Malcolm Campbell.
Outro desafio matemático: quantos pontos de costura há no forro iluminado do teto, que representa momentos da história do Phantom, como a cena em que Henry Royce aparece sob uma amoreira debatendo o design do carro com seus colegas? “Não tenho ideia”, admiti. “São 440 mil pontos”, responderam.
É uma cena que nos leva de volta ao início — duas vezes: à gênese do “melhor carro do mundo” e ao estúdio secreto dos anos 1990, chamado The Bank, onde o primeiro design da era Goodwood foi criado.
O enigma agora é: como os designers da divisão Bespoke conseguirão se superar? A sensação é de que eles já têm a resposta.