Quando Jim Farley fala em futuro, ele não está olhando apenas para o próximo lançamento, mas para um redesenho completo da indústria. “Nossa indústria está começando a se regionalizar. Antes era um negócio global. Esses dias acabaram”, afirmou o CEO global da Ford à Forbes Brasil durante conversa com jornalistas em um pré-evento do Detroit Auto Show, nos Estados Unidos, um dos mais históricos salões do automóvel no mundo. O evento começa oficialmente nesta quarta-feira, 14. A frase ajuda a explicar por que uma picape como a Ranger Tremor, com motor flex desenvolvido no Brasil e produção na Argentina para atender a América do Sul, virou símbolo de estratégia — e não só de produto.
Segundo Farley, a Ford já vive esse movimento em diferentes frentes. “Temos uma parceria com a Renault na Europa. Estamos focando em veículos comerciais e nosso parceiro lá é a Volkswagen”, disse. Em seguida, ele trouxe o foco para o coração do negócio: “No mundo todo, a Ranger é o núcleo do nosso negócio. É nosso segundo veículo mais vendido globalmente. Superamos a Hilux na Austrália e na Nova Zelândia.”
Ao descrever mercados como América do Norte, México, América do Sul e Oriente Médio, Farley destacou o avanço das marcas chinesas e reforçou a necessidade de adaptação local. Em alguns mercados, como o Brasil, as montadoras da China já abocanharam cerca de 15% do mercado em poucos anos. “Você continuará a ver cada vez mais regionalização. Acho que o que veremos é mais consolidação, mais parcerias entre nós.”
Ranger Tremor: a resposta sul-americana à estratégia global
É nesse contexto que a Ranger Tremor entra em cena. A Ford prometeu fazer 20 lançamentos até o final do próximo ano e, aos poucos, começa a mostrar suas cartas. Depois de confirmar a chegada da Ranger com cabine simples e da versão híbrida plug-in, a marca anunciou que a linha ganhará também a configuração Tremor, dotada de um pacote off-road exclusivo. A versão também é vendida em outros mercados com o mesmo foco.
A nova picape será produzida na fábrica de Pacheco, na Argentina, a partir do final de 2026, com foco nos mercados da América do Sul. A família Tremor é conhecida por entregar capacidade fora de estrada sem sacrificar conforto e dirigibilidade no uso diário. No caso da Ranger, o pacote inclui altura de solo maior, suspensão e amortecedores específicos, ângulos de ataque e saída ampliados, pneus todo-terreno, diferencial blocante e protetores inferiores, além de elementos visuais alinhados à proposta aventureira.
“A família Tremor chegou ao Brasil no segundo trimestre do ano passado, com a F-150 e a Maverick, e foi muito bem recebida pelo mercado. Tanto que tornou-se a versão mais vendida de ambas as linhas”, disse Martín Galdeano, presidente da Ford América do Sul, durante do Detroit Auto Show. “Acreditamos que ela terá o mesmo sucesso na Ranger, com atributos inéditos que ampliam ainda mais a sua esportividade e conhecida capacidade off-road.”
Outro diferencial será o novo motor 2.3 GTDi EcoBoost flex, desenvolvido pela engenharia da Ford no Brasil especialmente para o mercado local — a mesma lógica de regionalização que Farley projeta globalmente. O propulsor também será base da Ranger Hybrid Plug-in. Mais detalhes da versão Tremor serão divulgados próximo ao lançamento.
Investimentos, fábrica e o papel do Brasil
A aposta na Ranger não é apenas de marketing. Ela vem acompanhada de uma infraestrutura renovada. A fábrica de Pacheco passou por uma modernização total, com investimento de US$ 870 milhões e capacidade anual ampliada para 80 mil unidades. É dessa planta que sairá a Ranger Tremor, além das demais versões destinadas à região.
A gama atual da picape no Brasil já é ampla: versões XL, XLS e Black com motor 2.0 turbodiesel de 170 cv; XLS, XLT e Limited com V6 3.0 turbodiesel de 250 cv; e a Ranger Raptor com motor V6 de 397 cv. Todas com cabine dupla e tração 4×4, exceto a urbana Black, 4×2. A chegada da Hybrid Plug-in, da Tremor e da cabine simples amplia o leque para diferentes perfis — do trabalho pesado ao uso urbano e recreativo.
Os números de 2025 mostram que o plano começa a dar resultado. No ano em que comemorou 30 anos de presença da Ranger no Brasil, a Ford emplacou mais de 34 mil unidades da picape, alcançando 23% de participação no segmento e registrando o melhor resultado de sua história na categoria.
Em um cenário em que a Ford redesenha o mapa global com parcerias e desenvolvimento local, a mensagem é clara: a Ranger Tremor não é apenas mais uma versão. Ela é o exemplo concreto de como a regionalização citada por Jim Farley ganha forma no Brasil e na América do Sul — combinando engenharia local, fábrica modernizada e um produto pensado sob medida para o gosto e o uso dos clientes da região.