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Es Devlin: “O Mundo Precisa Aprender Muito com os Brasileiros”

Conhecida por criar cenários para Beyoncé e Adele, a artista britânica apresenta em São Paulo exposição inédita na Casa Bradesco

4 min

Conhecida por transformar palcos, museus e grandes eventos em experiências imersivas, a artista e cenógrafa britânica Es Devlin apresenta em São Paulo sua nova exposição “Sou o Outro do Outro”, aberta no último domingo (15) na Casa Bradesco, projeto que convida o público a refletir sobre identidade, alteridade e conexão humana.

Devlin é considerada uma das mentes criativas mais influentes do design contemporâneo. Ao longo da carreira, assinou cenários para turnês de artistas como Beyoncé, Adele e Kanye West, além de criar instalações para museus e eventos globais como os Jogos Olímpicos e a Bienal de Veneza. Seu trabalho combina arte, arquitetura, tecnologia e narrativa para criar ambientes que envolvem o espectador física e emocionalmente.

A relação da artista com o Brasil começou há mais de uma década. A artista esteve no país durante a preparação das cerimônias dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, quando trabalhou com criadores brasileiros como Daniela Thomas e Fernando Meirelles. “Lembro de ter pensado que tinha morrido e ido para o paraíso”, disse, relembrando os primeiros meses de trabalho no Rio e em São Paulo. “Foi um momento muito especial da minha vida.”

Durante esse período, ela também se aproximou de figuras centrais da cultura brasileira, como o fotógrafo Sebastião Salgado e seu filho, Juliano Ribeiro Salgado, com quem passou a colaborar em iniciativas ligadas ao reflorestamento do Instituto Terra.

No centro da nova exposição está um labirinto de espelhos, instalação que sintetiza a pesquisa recente da artista sobre percepção e identidade. Ao caminhar pelo espaço, o visitante busca seu próprio reflexo, mas frequentemente encontra o rosto de outra pessoa.

“Quando olhamos para um espelho, estamos preparados para ver a nós mesmos”, explica. “Mas no labirinto você procura sua imagem e encontra o outro.”

Essa experiência, segundo ela, é o coração conceitual da obra: projetar no desconhecido a mesma empatia que naturalmente temos por nossa própria imagem. “A ideia é olhar para o outro com a mesma familiaridade e afeto com que olhamos para nós mesmos.”

A reflexão dialoga com uma fase mais espiritual de sua trajetória. Desde 2016, Devlin tem aprofundado estudos ligados ao pensamento budista e à filosofia da interconexão, inspirada nos ensinamentos do monge vietnamita Thich Nhat Hanh. Muitas de suas obras recentes investigam exatamente essa fronteira difusa entre indivíduo, natureza e planeta.

Outro elemento fundamental da exposição é o próprio edifício da Casa Bradesco, um espaço carregado de história. Antes de se tornar centro cultural, o prédio foi sede de um hospital e maternidade. Para Devlin, trabalhar em um lugar com tantas camadas de memória transforma o processo criativo. “As pessoas nasceram aqui, morreram aqui, vieram buscar cura. É impossível ignorar essa energia”, afirma.

Ao mesmo tempo, ela destaca a relação entre arquitetura e narrativa. Em suas exposições, o espaço nunca é apenas cenário, mas parte ativa da obra. “O prédio é sempre um personagem da história.”

Nesta instalação, o percurso do visitante foi desenhado justamente para revelar o edifício de uma nova forma. O público começa a experiência nos andares superiores e só gradualmente encontra a luz natural e a arquitetura original do prédio — permitindo que o espaço se revele pouco a pouco.

Entre as referências que marcaram a artista durante sua temporada no país está um traço cultural que ela observou repetidamente: a capacidade brasileira de improvisar e criar soluções com os recursos disponíveis. Ela lembrou de um episódio recente durante a montagem da exposição. Sem ferramentas de limpeza disponíveis, os próprios técnicos improvisaram vassouras com pedaços de papelão para terminar o trabalho antes da chegada da imprensa.

“Eles não disseram que não tinham o equipamento certo. Apenas olharam ao redor e pensaram: o que podemos usar agora?”, disse. “Acho que o mundo precisa aprender muito com os brasileiros.”

Com sua nova exposição na Casa Bradesco, Es reafirma o que tornou seu trabalho tão singular: a capacidade de transformar espaços em experiências sensoriais que cruzam arte, arquitetura e filosofia.

No fim, o visitante sai do labirinto de espelhos com uma pergunta simples — e poderosa: onde termina o “eu” e começa o “outro”?

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