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José Olympio e Andréa Pereira Abrem Sua Coleção de Arte ao Público

A coleção, um dos acervos privados mais consistentes de arte brasileira, está aberta ao público no Galpão da Lapa desde o início de abril

9 min

Ao lado de um galpão abarrotado de melancias, um estoque de doces e outro espaço tomado por pilhas e mais pilhas de caixas de papelão, fica um antigo armazém de café na região da Ceagesp. Ali, ao cruzar a segurança reforçada e uma cortina em veludo pesado, nos deparamos com um verdadeiro oásis para os amantes das artes.

Camila TuonColeção do casal José Olympio e Andréa Pereira possui mais de 2 mil peças e começou em 1990

Com 1.600 metros quadrados totalmente transformados e climatizados e um pé-direito de seis metros com mezanino, o lugar não deixa o olhar descansar. Logo na entrada, ele fixa nas facas de Carmela Gross milimetricamente organizadas. Em alguns passos, alcança o mundo fantástico de Gilvan Samico, esbarra em uma escultura de Iran Espírito Santo, nos azulejos rasgados de Adriana Varejão, espia um vermelho de Paulo Pasta de cantinho, aperta para observar os detalhes delicados de Sandra Cinto em Noites de Esperança, arregala diante das toneladas de mármore e vidro soprado deNuno Ramos e descansa em uma aquarela de Chiara Banfi. E isso é só o começo.

As obras poderiam estar encaixotadas sem perturbar olhar algum. Talvez nem mesmo o de seus donos. Mas a partir de 1º de abril, um dos acervos privados mais consistentes de arte brasileira deixou de ser um privilégio de poucos e passou a integrar o circuito cultural de São Paulo. Até então acessível apenas a convidados e especialistas, ele abriu suas portas ao público com visitas gratuitas e mediadas, marcando um novo momento na trajetória de seus idealizadores, José Olympio e Andréa Pereira.

Camila TuonObras de Solange Pessoa, Nuno Ramos, Amélia Toledo, José Resende, Leda Catunda e Anna Maria Maiolino

Ao longo de três décadas, o casal construiu uma coleção que se distingue menos pela abrangência e mais pela densidade: em vez de reunir uma obra de cada artista, optaram por acompanhar trajetórias formando núcleos robustos que permitem uma leitura mais complexa e contínua da produção contemporânea brasileira.

Andréa Pereira atua em iniciativas ligadas a causas sociais e à saúde feminina. José Olympio construiu uma carreira de destaque no mercado financeiro, com passagens pela presidência do Credit Suisse no Brasil, do Banco J. Safra e da Fundação Bienal de São Paulo. A coleção, no entanto, nunca surgiu como estratégia de investimento, mas como desdobramento de um interesse genuíno pela arte.

Camila TuonObras de Waltercio Caldas, Luciano Figueiredo, Carlos Bevilacqua e Cicero Dias

“Apesar de ser engenheiro, venho de uma família ligada às artes e o interesse pela estética sempre foi algo forte para mim”, lembra Olympio. “Minha avó paterna era crítica de arte, escrevia para O Globo. Meu avô era editor e muitos artistas ilustravam os livros da editora José Olympio. Meus pais e minha avó tinham obras em casa. Então, a arte sempre esteve presente.”

O início da coleção remonta aos anos 1990, quando o casal carioca se mudou para São Paulo após um período em Boston. “Frequentar galerias aos sábados era um programa que gostávamos de fazer. A gente aprendia com os galeristas, conversava, e depois continuava discutindo no almoço”, conta Andréa.

A virada de chave aconteceu em meados daquela década, quando Olympio se deu conta de que a lógica de compra baseada na decoração, o famoso “em qual parede vou colocar essa obra?”, era limitadora. A partir daí, a coleção passou a se estruturar desvinculada da função doméstica. “Quando a obra deixa de servir a um propósito decorativo, você começa a entrar no campo do colecionismo de fato”, afirma.

Camila TuonO engenheiro José Olympio interage com a obra de Carlos Bevilacqua, feita de aço-carbono em 2001

A partir dali, o casal mudou a relação com as obras que cruzaram seus caminhos. Em vez de dispersão, optaram por concentração e aprofundamento. Hoje, não é incomum que um mesmo artista esteja representado por 10 ou mais trabalhos, permitindo acompanhar sua evolução ao longo do tempo ou o desdobramento de uma pesquisa. É essa abordagem que confere ao Galpão da Lapa a possibilidade de observar processos, recorrências e rupturas dentro de uma mesma trajetória artística. Em um canto do espaço, por exemplo, estavam 11 obras do artista indígena Jaider Esbell, morto aos 42 anos em 2021. Uma chance rara de observar tantos de seus trabalhos.

Cerca de 95% do acervo é nacional. “A gente conhece a produção internacional, viaja, frequenta feiras. E justamente por isso sabe o quão potente é a arte brasileira”, diz Olympio. “Olha que emocionante esse trabalho que acabei de conhecer durante uma viagem para a Bahia. É coisa nossa”, acrescenta Andréa enquanto mostra no celular fotos de obras de José Eduardo Ferreira Santos, conhecido como Zé di Cabeça.

Camila TuonO casal sentado em área reservada às videoinstalações da exposição, curada por Luisa Duarte

Entre os nomes presentes por ali estão artistas fundamentais para a compreensão da arte no país, como Mira Schendel, Tunga, Waltercio Caldas e Leonilson, ao lado de outros que expandem esse repertório, como Erika Verzutti e Rivane Neuenschwander. Há também um diálogo consistente com gerações anteriores, incluindo nomes como Ione Saldanha e Claudia Andujar, além de presenças marcantes de artistas como Jac Leirner, Solange Pessoa e Alex Cerveny.

As paredes brancas do Galpão, porém, terão função camaleônica a cada dois anos. As mais de 2 mil peças adquiridas pelo casal não serão vistas de uma vez. Diferentemente de um museu tradicional, o Galpão da Lapa não apresenta uma narrativa fixa. As mostras são organizadas por curadorias que reinterpretam continuamente o acervo. A primeira foi sob o olhar de Paulo Miyada; a segunda, de Júlia Rebouças; a terceira, de Jocopo Crivelli. Agora, ele recebe seleção de Luísa Duarte com Constelação em Trânsito: uma escuta cartográfica que engloba 65 artistas.

Antes da abertura ao público, o espaço já desempenhava um papel relevante, ainda que restrito. Curadores, diretores de museus e pesquisadores frequentavam o Galpão em visitas pontuais, muitas vezes em busca de obras que não estavam acessíveis em instituições públicas. A decisão de ampliar esse acesso surgiu de uma provocação dentro de casa.

Camila TuonObras penduradas de Guga Szabzon e a obra Sonhando à Vontade, de Ernesto Neto e Carlos Bevilacqua

“A nossa filha perguntou: ‘o que vocês vão fazer com tudo isso?'”, conta Andréa. A pergunta ecoou. Com formação em arte e hoje à frente da direção do instituto, Anna Israel foi peça-chave na transição do espaço privado para uma instituição aberta. “Ela tinha razão. A gente percebeu que podia contribuir mais, compartilhar mais.”

Em um cenário em que o mercado de arte frequentemente se aproxima de dinâmicas especulativas, a postura do casal se mantém deliberadamente distante. “Nunca compramos pensando em investimento e, quando me perguntam nomes de artistas que estão bombando, eu acho triste”, diz Olympio. “A obra tem que te tocar. Imagine viver anos com algo que você não gosta pendurado na sua parede até valorizar, que tortura!”

A recusa dessa lógica se traduz também na forma como as obras são vividas. Ao longo dos anos, o casal desenvolveu uma relação íntima com o acervo, uma convivência que, segundo os dois, transforma o olhar. “Tem trabalhos que crescem com o tempo e outros que diminuem. Essa tela do Thiago Martins de Melo, por exemplo, já morou lá em casa e a cada vez que eu olho eu enxergo algo diferente. É incrível”, diz Olympio.

Algumas peças, porém, seguem privadas. “Nosso pintor moderno favorito é Alfredo Volpi. As telas dele vão seguir dormindo na nossa sala de jantar. Mas temos muita coisa boa por aqui pelo Galpão também”, brinca o casal.

A iniciativa é a afirmação de um novo modo de se relacionar com a arte. Ao transformar um acervo privado em espaço público, José Olympio e Andréa Pereira não apenas ampliam o acesso à arte brasileira, mas também reposicionam o papel do colecionador. De guardião a mediador, de proprietário a agente cultural.

E, nesse gesto, talvez revelem o sentido mais duradouro de uma coleção: não aquilo que ela acumula, mas aquilo que ela é capaz de compartilhar.

Destaques do galpão

Waltercio Caldas | Convite ao Raciocínio

Divulgação Obra de Waltercio Caldas

“É um casco de tartaruga atravessado por um tubo de ferro, uma obra icônica da produção do Waltercio. Ela é muito estranha, você começa a pensar no título e a obra te causa uma inquietude, uma perplexidade.”

Carmela Gross | Facas

“É uma instalação adquirida em 2001 e que sempre me encantou. Tem uma magia, é como se fosse um texto cuneiforme ou uma questão musical, toda a variedade de formas de cada família de facas, as cores, as queimas, a cerâmica. Um trabalho que ela realizou num centro de cerâmica na Holanda, em 1984.”

Anna Maria Maiolino | Mesa de Raku

Divulgação Obra de Anna Maiolino

“São 18 esculturas em raku, técnica de cerâmica japonesa, colocadas sobre a mesa. Tem a questão do 18, que é o meu número de sorte, e as formas e cores de cada elemento, que me fascinam muito.”

Paulo Monteiro | Quadro S/T

“É uma obra levada ao extremo: parece branca a princípio, mas à medida que você para diante dela as cores aparecem, os campos se revelam. Sempre achei incrível esse limite entre o desaparecimento e o aparecimento.”

Sérgio Camargo | Xadrez

“É uma obra que marca o início do trabalho dele com o mármore preto belga, que ele foi buscar especificamente para realizá-la. Até então só trabalhava com o mármore branco puríssimo de Carrara, e essa descoberta abriu toda uma produção de esculturas pretas.” Andréa e José Olympio falam sobre a seleção.

*Reportagem publicada na edição 140 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.

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