Diz a história que em 1949, durante a pré-produção do filme “Pavor nos Bastidores”, de Alfred Hitchcock, os executivos da Warner Bros articulavam a contratação de uma das estrelas que mais brilharam em Hollywood: Marlene Dietrich.
A atriz insistia que seus figurinos deveriam ser glamourosos como a moda feita por Christian Dior, já que isso ajudaria na construção da personagem Charlotte Inwood. Teria sido dentro desse contexto em que a estrela declarou: “Sem Dior, sem Dietrich!”.
A frase foi escolhida por Jonathan Anderson para estampar suéteres na coleção de Primavera-Verão 2006, que marcou sua estreia à frente da moda feminina da maison. E por quê eu trago esse flashback se é da coleção Cruise apresentada pela Dior em Los Angeles que vamos falar? Pois a escolha do diretor criativo em seu début já fazia um aceno para o que se viu na passarela armada dentro do LACMA: uma celebração da relação histórica entre o fundador da grife e o cinema.
CHRISTIAN DIOR AMOU O CINEMA. Quatro anos antes de fundar a grife que leva seu nome, desenhou figurinos para o filme francês “Le Lit à Colonnes”, e chegou a ser indicado para o Oscar de Melhor Figurino por seu trabalho em “Terminal Station” em 1955. Jonathan Anderson também ama a sétima arte, e já assinou figurinos de longa-metragens do diretor italiano Luca Guadagnino. Parece perfeito, portanto, que tenha sido Los Angeles o destino escolhido pela grife para apresentar seu Cruise, conectando o passado ao presente.
DO FILM NOIR, O EFEITO NOIR. Repare em um casaco de flanela de lã cinza. Ele não é simplesmente listrado, mas imita o efeito da luz atravessando persianas de janelas. Uma imagem clássica, eternizada em dezenas de filmes do gênero noir!
AS BOLSAS DO DESFILE SÃO HOMENAGENS. Ou, como se diz no jargão da indústria cinematográfica, remakes. Os carros espalhados pelo cenário do desfile eram modelos antigos do Cadillac, mesmo automóvel que inspirou uma das mais icônicas criações de John Galliano no início dos anos 2000: a Cadillac Bag. Sua famosa estampa de jornal também reveste modelos-desejo na nova coleção. Mas você notou também uma bolsa bege, ampla e maleável, na passarela? É uma citação à outro ex-diretor criativo da maison; um design criado por Marc Bohan, que Anderson reinterpretou para um novo modelo cujo nome ainda não foi decidido (segundo o estilista, o nome provisório é “CD”).
EM UMA COLEÇÃO RESORT, “FLUIDEZ” É PALAVRA-CHAVE, o que ficou claro na escolha de tecidos de caimento leve, que deixam a silhueta solta e o corpo livre. Anderson também cria novas possibilidades para que a mulher vista uma Bar Jacket em 2026. No Cruise, a criação emblemática de 1947 surge mais longa, às vezes quase como casaca, arrematada por franjas, ou então com a barra propositalmente desfiada. O efeito final? Um lindo movimento, que mantém o shape e a identidade do design original.
ED RUSCHA COLABOROU COM O ESTILISTA. Radicado na Califórnia desde o fim dos anos 1950, o artista pop norte-americano emprestou palavras e tipografias para estampas e intervenções em camisas e na alfaiataria da ala masculina do desfile. “Quando penso em Los Angeles, penso no trabalho de Ruscha, que tem esse fascinante senso do mundano e de como isso se relaciona com a grandiosidade da cidade”, disse Anderson. O britânico Philip Treacy também colaborou com a coleção, assinando adereços de cabeça dramáticos, onde penas esculpidas formam letras (uma referência ao seu famoso chapéu “Blow”, criado para a editora de moda Isabella Blow, há quase duas décadas).
COMO TUDO O QUE JONATHAN ANDERSON FAZ, É PRECISO OLHAR DE PERTO. E, nos primeiros looks, isso fica claro: os vestidos a com cintura desabada da silhueta à moda twenties revelam um savoir-faire técnico na criação de plissados, com volume e texturas especialíssimos. A tridimensionalidade das rosetas de tecido que enfeitam esses looks também contém um trabalho manual precioso! Esse cuidado criativo, que alcança os detalhes, está em tudo. Até na calça jeans, que é rasgada e depois bordada com correntes de prata bem fininhas, imitando os fios de algodão do denim. Eu, que amo um jeans, quero já!
Com Antonia Petta e Milene Chaves