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A Importância do Medo nas Expedições de Tamara Klink

Da invernagem solitária no Ártico à travessia da passagem noroeste, a velejadora transforma medo em método e silêncio em narrativa

9 min

Ela enfrentou o gelo, o silêncio e o desconhecido sozinha. Tamara Klink voltou ao Brasil depois de cruzar a Passagem Noroeste — rota lendária no Ártico e um dos maiores desafios da navegação mundial. Aos 29 anos, a Forbes Under 30 é a mulher mais jovem do mundo e a primeira latino-americana a realizar esse feito.

Entre 2023 e 2024, a velejadora e escritora concluiu outra aventura histórica: navegou em solitário da França até a Groenlândia e ficou presa por oito meses no mar congelado do Ártico, tornando-se a primeira mulher registrada a invernar nos polos. Seus únicos companheiros eram o pequeno veleiro Sardinha II, seu diário pessoal e uma câmera. Os registros íntimos e exclusivos dessa travessia deram origem a um documentário produzido pela Maria Farinha Filmes em parceria com a Netflix, com direção de Estela Renner, sócia-fundadora da produtora. O longa foi inteiramente filmado por Tamara e convida o público a navegar por seu mundo interno — entre sonhos e pesadelos; belezas e perigos do gelo. A data de estreia na plataforma de streaming ainda não foi divulgada.

Formada em arquitetura naval pela École d’Architecture de Nantes, na França, ela começou a velejar ainda criança, com o pai, o pioneiro das navegações oceânicas, Amyr Klink, mas foi na juventude que transformou o mar em destino e ofício. É autora de cinco livros: Bom dia, Inverno (Companhia das Letras, 2026), Nós, o Atlântico em Solitário (Companhia das Letras, 2023), Mil Milhas (Peirólopis, 2021), Um Mundo em Poucas Linhas (Peirópolis, 2021) e Férias na Antártica (Peirópolis, 2011), escrito em coautoria com as irmãs Laura e Marina Helena Klink,

Antes da invernagem no Ártico e da conclusão da Passagem Noroeste, Tamara atravessou o Atlântico em solitário da Noruega ao Brasil (2020-2021) e fez uma segunda travessia, entre a França e a Groenlândia (2023). Quatro expedições, um mesmo norte: desafiar os limites humanos com serenidade, poesia e propósito. Com sua escrita sensível e coragem serena, ela se tornou um símbolo contemporâneo de liberdade e independência feminina — e uma das vozes mais inspiradoras da nova geração brasileira.

O medo como ferramenta

Realizar a travessia da Passagem Noroeste significa vencer uma região que, durante a maior parte do ano, permanece coberta por gelo. Por séculos, foi considerada uma área impossível de ser cruzada. “Hoje, por causa do aquecimento global, existe uma breve janela no verão em que o mar se abre. É um paradoxo: o mesmo fenômeno que ameaça o planeta torna possível a viagem que antes era mito”, reflete. Tamara sabia dos riscos: naufrágios, desaparecimentos e ataques de ursos-polares. “Eles podiam aparecer do nada. Não são exatamente agressivos, mas curiosos — e a curiosidade de um urso pode ser fatal”, conta. Mesmo assim, partiu.

O medo não foi inimigo: tornou-se ferramenta. “Ele me desperta antes do despertador, percebe variações de vento, me faz distinguir o que é emergência e o que é urgência. Foi por nunca ter deixado de sentir medo que voltei inteira.”

Victor Affaro

Alucinações em Alto Mar

Foram dois meses dormindo em ciclos de 20 minutos. Acordar, ajustar o leme, checar radar, revisar velas, comer algo rápido. “É um pouco como ser mãe de um recém-nascido: você está sempre em alerta, responsável por uma vida que depende só de você.”

O corpo cansa, mas a mente encontra refúgio na rotina. Ela segue protocolos imutáveis — acordar ao primeiro alarme, conferir cabos, usar cinto de segurança, comer mesmo sem fome. “O sono polifásico causa lapsos de memória e até alucinações. Já vi árvores no meio do mar e ouvi vozes. A disciplina é o que mantém a sanidade.”

“Ainda dá tempo de agir”

“Esperava ver muito mais gelo no caminho”, confessa Tamara. “Quando meu pai navegou no Ártico, há uns 30 e poucos anos, ele não conseguia chegar ao norte de algumas ilhas porque havia gelo demais. Nos mesmos lugares de onde ele precisou recuar, hoje é muito difícil encontrar gelo.” Onde antes existiam muralhas brancas, agora há água líquida e, em alguns momentos, até calor. “Vi crianças nadando ao longo do percurso, algo que era praticamente impossível nos relatos antigos dessa rota.” O Ártico, diz ela, é o ar-condicionado natural do planeta: quando o branco reflete a luz, o mundo esfria; quando o escuro do mar absorve calor, o ciclo acelera o derretimento.

“O impacto é global. No Brasil, as chuvas mudam, as secas se intensificam, os incêndios se multiplicam. E a nossa infraestrutura ainda não está pronta para isso. Ainda dá tempo de agir, mas cada ano que passa torna o custo maior.”

Grata pelos “nãos” que recebeu

Tamara poderia estar em um escritório francês de arquitetura, mas escolheu o mar. “Acho que foi justamente o desconforto que me moveu.” Estudou na USP, depois em Paris, onde se formou em arquitetura naval — mas o que a motivava não era desenhar barcos para outros: era estar dentro deles.

As recusas em estágios, na época frustrantes, viraram um empurrão extra. “Se tudo tivesse dado certo, talvez eu nunca tivesse deixado um emprego prestigiado. Sou grata aos nãos, abriram o caminho para o primeiro sim verdadeiro.”

A escola do faça-você-mesma

O sonho ganhou forma quando conheceu Henrique, professor de arquitetura naval. Foi ele quem sugeriu: “Vem para a Noruega, compra um barco antigo — aqui tem barco que custa 1 euro”.

E foi o que ela fez. Comprou um casco pequeno e cheio de defeitos, o famoso Sardinha. “Descobri mais problemas do que imaginava, mas foi o barco certo.” Nas docas norueguesas, todo mundo pinta o próprio casco, costura as próprias velas e conserta o motor. “A mão de obra é valorizada, então as pessoas aprendem. No Brasil, isso é raro — estamos acostumados a pagar alguém para fazer.”

Durante a pandemia, sem recursos, aprendeu a improvisar: viu tutoriais, leu manuais, costurou velas, soldou o painel solar que Henrique emprestou 100 euros para comprar. “Foi ele quem me ensinou a olhar o mar com frieza e paciência. Eu o chamava de meu Mago Merlin.”

Victor Affaro

Amyr ajudou, sem ajudar

Tamara diz que o “não” foi sua maior liberdade. “No Brasil, o não vem disfarçado de ‘vamos ver’. Perdemos tempo esperando respostas que não virão.” O maior “não” veio do pai. “Quando pedi ajuda, ele respondeu: ‘Não vou te ajudar, e é assim que te ajudo’. Foi libertador. Ele me tirou da sombra dele e me deu o direito de errar.”

Esse gesto mudou tudo. Partiu com o barco imperfeito, enfrentou ondas gigantes logo de saída e aprendeu a distinguir quem estava no projeto por afeto e quem buscava prestígio. “Sem condições ideais, só fica quem acredita.”

Heranças de pai e mãe

Do pai, herdou o faro do mar e o senso de aventura. Da mãe, a palavra. “Ela me incentivava a escrever diários quando criança — hoje é o que me ancora.”

O pai expressa orgulho à sua maneira. Quando ela ancorou ao lado do Time Bandit, barco famoso da série Pesca Mortal, ele vibrou: “Tira uma foto pro grupo dos meus amigos!”.

A mãe prefere acreditar que o mar está sempre calmo — um tipo de negação que, no fundo, é afeto. “É o jeito dela de me proteger. E funciona.”

Victor AffaroAcima, os essenciais de Tamara: o canivete com a ilustração de uma sardinha, a faca da marca Opinel, o HD externo com backup de vídeos e fotos produzidos durante a invernagem na Groenlândia, o binóculo e o gravador,

Solidão acompanhada

No isolamento, Tamara aprendeu a distinguir solidão de presença. “Mesmo sozinha, estou cercada pelas pessoas que me ajudaram: penso na nutricionista, na equipe da velaria, nos amigos que apoiaram a travessia.”

Pelas redes, conversa com seguidores e responde mensagens curtas via satélite. “Eles ampliam a viagem. Quando chego, as histórias continuam reverberando. Eu só sou uma desculpa para que outros façam as suas próprias travessias.”

Inspirar sem romantizar

Antes dos 30, Tamara tornou-se referência de resiliência e coragem, mas evita o romantismo. “Navegar é caro, lento, perigoso. E ainda assim é uma fonte de prazer.”

Reconhece que só existe como navegadora porque foi inspirada por outros. “Se minhas histórias abrirem uma fresta pra alguém – no mar ou em terra –, já valeu.”

Victor Affaro

Impressionada com a pressa coletiva

O retorno à terra é outra travessia. Em São Paulo, ela reencontra amigos na Faria Lima e se impressiona com a pressa coletiva. “É sempre o próximo carro, a próxima festa, o próximo plano. Falta tempo para celebrar o que já se conquistou.”

Ela observa que a insatisfação constante apaga o presente. “Vivemos como se estivéssemos sempre atrasados — para o novo celular, o novo cargo, a nova tendência. Perdemos o tempo e, com ele, a vida.”

“O tempo de estar vivo”

O maior desafio, diz, é não deixar que a viagem termine nela mesma. Quer transformar suas experiências em aprendizado coletivo. Continua estudando, aprendendo idiomas — até um groenlandês básico de pescador — e cultivando o prazer de olhar pela janela antes da tela.

“O mar me ensinou que o tempo não é algo que se corre atrás. É algo que se vive. Cada vento, cada silêncio, cada medo. E talvez seja isso o que mais falte em terra: o tempo de estar vivo.”

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