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A Microaventura Que Cabe em Cada Manhã

Pequenas doses de novidade na rotina podem transformar passeios comuns em experiências de descoberta e bem-estar

3 min

Quando se fala em aventura, todo mundo imagina viagens épicas como as que fez recentemente a navegadora Tamara Klink ou as histórias daqueles heróis que desbravaram a Amazônia, os polos e os mares. Todas essas pessoas são aventureiros de verdade, mas e se eu lhe disser que um simples passeio matinal com os meus cachorros pode ser, à sua maneira, uma aventura e tanto?

A cada saída, eu me aventuro em trajetos novos, interajo e conheço pessoas e, quando dá, paro para tomar um cafezinho em uma cafeteria do bairro que não conhecia. O termo microaventura foi popularizado por um aventureiro britânico em 2011. Depois de dar uma volta ao mundo de bicicleta, ele passou a defender que uma cidadezinha e até um bairro comum do interior da Inglaterra podem estar cheios de aventura, natureza e surpresa, se a pessoa se der ao trabalho de sair e olhar.

É justamente isso o que faço a cada dia. Não há uma montanha para escalar. Há ruas em que nunca entrei e conversas gostosas e inesperadas com gente que sequer conhecia e, quando paro para beliscar algo em um lugar, sabores que nunca havia provado.

Essa ideia não é só divertida. Há pesquisas mostrando que introduzir alguma novidade e variedade em nossas experiências cotidianas pode estar relacionado a mais bem-estar, como mostrou um estudo publicado na Nature Neuroscience que acompanhou por GPS o deslocamento diário de voluntários.

Nos dias em que eles circulavam por uma variedade maior de lugares, também relatavam mais emoções positivas. A relação parecia funcionar nos dois sentidos: sentir-se bem favorecia a exploração, e explorar estava associado a sentir-se melhor.

Isso não significa que devamos transformar a busca por novidade em mais uma tarefa na agenda a ser cumprida. Rotina é necessária, e inclusive ajuda a organizar a cabeça. A graça das microaventuras é que elas não exigem que abandonemos nossa vida para vivê-las. Elas são encaixáveis na vida real.

Grandes aventuras produzem histórias extraordinárias, como foi a da Tamara. Mas mesmo ela, quando decidiu passar o inverno no Ártico em seu barquinho, tinha dias comuns, em muitos dos quais ela dava um jeito de introduzir doses de novidade.

O cotidiano da maior parte das pessoas é feito de dias banais. Penso ser possível encontrar uma maneira de fazer com que alguns deles deixem de se parecer tanto uns com os outros, como eu faço diariamente com a companhia dos meus pets. Amanhã de manhã, quando sair com eles, ainda não decidi para que lado vou. E isso é que é bacana.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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