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A Trajetória de Nafisa Tosh, a Alfaiate Que Conquistou as Maiores Maisons de Luxo

Conheça a alfaiate inglesa favorita das grandes marcas de luxo e das celebridades que desfilam pelo tapete vermelho

6 min

Seja em um ateliê de alta joalheria na Itália, seja na cozinha do restaurante mais disputado de Monte Carlo, existe uma regra básica nos bastidores do quartel-general de qualquer representante da indústria do luxo: nenhuma das pessoas que por ali trabalha, e que produz com as próprias mãos algumas das maiores maravilhas do mundo, está autorizada a revelar detalhes sobre seu ofício. É assim há décadas, em um setor que movimenta desejos, enormes cifras e em que apenas o produto final deve virar notícia. Uma pena. Justamente atrás dessa vitrine se escondem histórias e talentos singulares. Nafisa Tosh, a alfaiate londrina que finaliza com perfeição alguns dos looks mais comentados das semanas de moda e dos tapetes vermelhos, é um desses exemplos.

Filha de imigrantes indianos, Nafisa, 56, nasceu em Londres. Conta que passou as últimas décadas se dedicando à arte do caimento perfeito. Seu trabalho é, em essência, encaixar as criações das maiores grifes do planeta no corpo das estrelas do show business. Às vezes, ressuscitando looks vintage Prada que dormiam em acervos preciosos. Outras, remodelando algo já considerado absolutamente perfeito, recém-saído de um desfile de alta-costura da Chanel.

É uma das poucas profissionais do mundo autorizada, por essas e outras grandes labels, a cortar metros de uma barra ou intervir em pontos estratégicos que sustentam, de forma invisível, peças com status de obra de arte. Ela consegue desenhar, criar a base de modelagem, graduar, buscar tecidos usando seus contatos, cortar e costurar o protótipo para a primeira prova.

“Na maioria das casas de luxo, cada fase de um look é feita por um expert em algo específico. Eu acabo sendo a pessoa capaz de realizar todas as etapas do processo. De certa forma, uma solução completa”, define.

Com uma lista de clientes semelhante à primeira fila da cerimônia do Oscar – inclua nela celebridades como Zendaya, Pedro Pascal, Harry Styles e Amal Clooney -, Nafisa vem também de uma escola estrelada. Com Alexander McQueen, a quem chama carinhosamente de Lee, aprendeu uma religião chamada perfeccionismo. “Ele valorizava, obsessivamente, a técnica. E eu acredito que nunca teria trabalhado com ele se não pensasse o mesmo”, conta. Já com Karl Lagerfeld descobriu a importância do empenho absoluto.

“O senso de brincadeira e leveza de Karl era muito diferente do Lee, mas sua dedicação à moda era suprema.” As lições mais valiosas, entretanto, surgiram ainda na infância. Nafisa cresceu fascinada pelo trabalho do pai, Hafeez, um discreto alfaiate indiano que emigrou para Londres nos anos 1960. Foi com ele que entendeu a construção de um corpo através da roupa, algo definitivo em sua carreira.

“Lembro de um de seus clientes que tinha os ombros desalinhados, o peito largo e um pouco de barriga. Meu pai pegou a entretela, os enchimentos e construiu um paletó perfeitamente equilibrado. Quando o tal homem vestiu a peça, era outra pessoa”, diz.

Nafisa aprendeu também, desde muito cedo, que o mundo da moda era fascinante, mas não entregava prêmios de forma igualitária. “Não entendia como alguém tão talentoso quanto meu pai podia ser excluído das casas da Savile Row [a mais famosa rua da alfaiataria mundial, em Londres]. Tudo por causa da cor de sua pele. Ele tinha habilidades que poucas pessoas possuíam e possuem até hoje.”

Dona de habilidades bastante semelhantes, talvez por pura questão genética, talvez pelo desejo incondicional de fazer diferente, ela conseguiu seu primeiro emprego no setor na década de 1990, junto a um fornecedor de tecidos baratos da Oxford Circus. “Quando você consegue fazer peças incríveis com materiais duvidosos, depois de alguns anos evoluindo na hierarquia da moda, você arrasa”, diverte-se. “Fico triste ao ouvir de muitos jovens que começar ‘de baixo’ para ganhar experiência é perda de tempo”, completa.

DivulgaçãoNafisa Tosh é das poucas profissionais autorizadas pelas grandes marcas de luxo a modificar uma roupa em ultracelebs

Se a alfaiate das estrelas enche o peito para falar do seu passado e das reviravoltas que a vida pode dar, é reservada quando o assunto são seus clientes famosos. Mesmo assim, não deixa de se orgulhar dos muitos atores com quem tem o prazer de trabalhar.

“Tilda Swinton, por exemplo, é incrível. Fez tantos filmes extraordinários que me inspira a buscar a mesma diversidade no meu ofício. Adoro trabalhar com Jerry Stafford, seu stylist. Juntos, criamos imagens lindas”, diz. Tom Holland é outro de seus queridinhos. “Em 2017 fiz uma prova com ele, ajustando um terno verde da Prada. Recentemente o encontrei e ele me disse que, até hoje, este segue sendo seu traje favorito. Quando está com ele, se sente confiante, elegante. Como se vestisse uma armadura e pudesse enfrentar o mundo. E essa é mesmo a magia que posso criar. Dar a alguém essa sensação incrível.”

Assim como abrir uma caixa de alfinetes, lidar com a pressão e as exigências do mais alto calibre é algo comum em seu dia a dia. Nafisa aprendeu a driblá-las, ao longo dos anos, com exercícios de observação.

“Às vezes, minhas provas de roupa com alguns VIPs duram cinco minutos. Mas otimizo o tempo resolvendo tudo antes, mentalmente, e notando se a pessoa realmente está confortável com o que veste. Quando você olha para alguém de verdade, consegue entender como ajustar e modelar a roupa.” Um tipo de confiança que, certamente, não se conquista com um diploma.

Com quatro décadas de carreira, Nafisa fala sobre a indústria com a clareza de quem não tem mais nada a provar. Apenas dar os devidos créditos a pessoas que tanto trabalham e raramente aparecem. “Por que não destacar as pessoas que fazem o trabalho de verdade? Onde estariam os estilistas sem pessoas como eu e meu pai?”, diz.

O Instagram, felizmente, tem sido uma ferramenta excelente para garantir visibilidade a ela e ao seu nobre ofício. Posta, com frequência, cada um dos looks que arremata com o seu talento inconfundível. Todos apresentados pela Chanel, no último Bafta, por exemplo, passaram por suas mãos. “Cabe a mim trazer meu trabalho para os holofotes. Fiquei trabalhando em silêncio, por décadas. E agora, felizmente, fazendo um pouco mais de barulho”, brinca.

Se o espetáculo chamado alta-costura só pode nascer de um ateliê de Paris, a verdadeira magia em torno da moda pode acontecer a qualquer instante. Basta alguém vestir uma peça e pensar: eu posso conquistar o mundo.

Com os clientes de Nafisa tem sido assim. É a filha do indiano sem cartão de visitas. Discreta, obsessiva, insubstituível. Ocupando, finalmente, o espaço que sempre foi seu. E de seu pai também.

*Reportagem publicada na edição 10 da Forbes Life Fashion, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.

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