Um paletó alongado, combinado a calça palazzo, blusa fechada, cinto e bolsa de couro com impressão de textura croco, tudo de cor verde bem escuro, abre o desfile da coleção Giorgio Armani Privé, a linha couture da maison italiana, exibida na Semana de Alta-Costura de Paris na terça-feira (07/07). Nessa escolha aparentemente trivial de peças há algo que capta o olhar e pede uma segunda vista, e depois outra.
Ainda que monocromático, o look verde tem texturas e nuances; o paletó leva bordados em degradê, que cintilam conforme a luz incide sobre eles; a blusa tem uma textura animalier sugerida sob a seda; a proporção é impecável e o tecido balança com o andar. Entre tantas camadas de informação e de delicadeza, há uma mulher elegante e segura, cujo estilo pode ser descrito como discreto, mas nunca “básico”, e que curte cada detalhe do processo de se vestir.
Nas variações que seguem, a blusa vai ficando transparente e a pele começa a aparecer pelos ombros de fora. Num outro look, por exemplo, as costas ficam de fora, no melhor estilo do que, nos anos 1970 e 1980, chamou-se de “engana-mamãe”: a frente fechada esconde a surpresa na parte de trás da roupa.
Talvez essa progressão suave seja a imagem que Silvana Armani, à frente da etiqueta, queira comunicar: mantém-se a atenção irrepreensível aos detalhes, como pede a construção das roupas de alta-costura, e as bases limpas, legado de Giorgio Armani (1934-2025), enquanto se introduz sutis declarações de sensualidade.
O animal print, outro símbolo do sexy, aparece sussurrado na forma de bordados inacreditáveis, como os que reproduzem o croco, a cobra ou o clássico leopard print. As cores são noturnas e aparecem em tons complementares – além do verde, há azuis profundos, vinhos, marrons e pretos, sempre iridescentes. Há vestidos de noite dignos de tapete vermelho, para gostos distintos, e ali Silvana também imprime seu olhar, com uma série em que volumes geométricos e esculturais emergem das peças.
Boudoir, nome da coleção, representa o “espaço íntimo e profundamente pessoal onde uma mulher pode refletir, reservar um tempo para si mesma”. Mais do que um cômodo funcional da casa (ou melhor, castelo), esse “quarto de vestir” é um ambiente de preparo, por isso as camadas de texturas e transparências, além das rendas que sugerem a lingerie bem de leve, podem ser lidas como uma referência direta ao ritual privado do vestir-se, que é quando a gente, afinal, pensa na melhor forma de se expressar para o mundo. Bravo, Silvana!
*Com Milene Chaves
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