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O Jeito Brasileiro de Viver o Mar Inspira Novo Iate da Ferretti

Ao transformar os hábitos do consumidor brasileiro em soluções de design, a marca italiana escolheu o país para desenvolver e fabricar a nova Ferretti 850R

5 min

Durante anos, o comprador brasileiro de um iate de luxo aprendeu a navegar de uma forma diferente dos europeus. Em vez de priorizar longas travessias ou garagens fechadas para embarcações auxiliares, passou a transformar o barco em uma extensão da casa de praia: um espaço para reunir amigos, passar fins de semana inteiros a bordo e viver quase sempre nas áreas externas.

Foi observando esse comportamento que a italiana Ferretti Yachts decidiu fazer algo incomum para uma marca centenária. Em vez de simplesmente importar um projeto concebido na Itália, desenvolveu, em parceria com sua operação brasileira, uma nova versão de um de seus modelos mais bem-sucedidos, adaptada aos hábitos desse consumidor. O resultado é a Ferretti Yachts 850R, apresentada durante o Marina Itajaí Boat Show 2026 e produzida integralmente em Santa Catarina.

Segundo Roberto Paião, CEO do Grupo OKEAN, a embarcação nasceu justamente desse processo de observação do cliente. “A FY 850R nasce exatamente desse processo, reunindo melhorias que tornam a experiência a bordo ainda mais completa, sem perder a essência do projeto original italiano.”

Mais do que o lançamento de um novo iate, a iniciativa representa uma mudança de patamar para o Brasil dentro da estratégia global da marca. A operação local deixa de ser apenas uma linha de montagem para participar do desenvolvimento de produto, algo raro na indústria náutica de luxo. Hoje, o Grupo OKEAN é o único estaleiro autorizado pela Ferretti a fabricar embarcações da marca fora da Itália.

Luxo pensado para o consumidor brasileiro

Embora mantenha a assinatura estética criada pelo designer italiano Filippo Salvetti, a 850R incorpora uma série de mudanças sugeridas pela própria experiência dos proprietários brasileiros.

A principal delas está na popa. Em vez da configuração tradicional encontrada em modelos europeus, os sofás passaram a ser posicionados de frente para o mar, favorecendo a convivência durante a navegação. Um portal de vidro amplia a vista para o horizonte, enquanto a plataforma de banho foi estendida para facilitar o embarque de jet skis, tenders e equipamentos de lazer.

Outra novidade é o beach club integrado, configurável com mobiliário solto, eletrodomésticos, sistema de som, iluminação indireta e acabamentos em teca. A ideia foi a de dar mais protagonismo às áreas externas da embarcação, já que é lá que o brasileiro passa a maior parte do tempo.

As dimensões ajudam a entender o posicionamento da embarcação. São 27 metros de comprimento, quatro suítes, capacidade para acomodar até 12 hóspedes durante a noite e um flybridge (o deck superior) de 44 metros quadrados. A motorização fica a cargo de dois motores MAN V12 de 1.900 HP, enquanto soluções como o posicionamento do tanque de combustível reduzem vibração e ruído, elevando o conforto durante longas permanências a bordo.

A decisão de produzir a 850R no Brasil também reflete a evolução do mercado nacional de embarcações acima de 70 pés. Segundo a empresa, o comprador brasileiro tornou-se mais sofisticado. Hoje, normalmente ele já possui experiência com grandes iates, acompanha os lançamentos internacionais, participa da configuração da embarcação e busca menos ostentação e mais qualidade de uso. Conforto, personalização, integração entre os ambientes e tecnologia embarcada passaram a pesar mais do que simplesmente adquirir um barco maior.

Paião afirma que esse amadurecimento mudou a forma como a indústria desenvolve seus produtos. “Hoje o cliente brasileiro viaja, visita salões internacionais, conhece os lançamentos e sabe exatamente o que procura. Isso eleva o nível de exigência e nos desafia a evoluir continuamente para entregar embarcações que acompanhem esse novo perfil.”

Essa maturidade explica por que o Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor para assumir um papel estratégico dentro da operação da Ferretti. Depois da produção da FY 1000, apresentada como o maior iate em fibra de vidro fabricado em série no país, e do anúncio da FY 940, a 850R torna-se o primeiro modelo cuja evolução foi concebida a partir da experiência acumulada pela engenharia brasileira.

Mão de obra especializada

Produzir um iate dessa categoria exige uma cadeia industrial altamente especializada. A montagem acontece integralmente no Brasil, com marcenaria produzida em Rio Negrinho, peças em fibra de vidro fabricadas em Porto Belo e integração final na planta de Itajaí, que ocupa 26 mil metros quadrados.

Ao todo, cerca de 500 profissionais participam da operação, que também movimenta fornecedores de marcenaria, laminação, elétrica, hidráulica, acabamento e tecnologia. Para a empresa, o maior desafio continua sendo a mão de obra.

“Construir um iate dessa categoria exige mão de obra altamente especializada. Grande parte do acabamento ainda é artesanal, e formar profissionais preparados para esse segmento continua sendo um dos nossos maiores desafios”, afirma Paião.

Apesar da expansão, a Ferretti não pretende transformar a produção em uma operação de grande escala. A expectativa é fabricar entre quatro e cinco unidades da 850R por ano, preservando o alto nível de personalização exigido pelo segmento.

O interesse do mercado, porém, já aparece nos números. A linha FY 850 acumula 20 embarcações vendidas, com dez unidades já entregues aos proprietários brasileiros. Segundo o Grupo OKEAN, a receptividade à nova versão durante o Marina Itajaí Boat Show confirmou que as mudanças seguiram exatamente a direção desejada por um consumidor que, cada vez mais, influencia não apenas o mercado nacional, mas também a evolução de uma das mais tradicionais fabricantes de iates do mundo.

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