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Importações para Construir Barcos de Luxo Crescem 23% no Brasil e Chegam a US$ 75,6 Milhões

Avanço reflete a demanda por motores, sistemas eletrônicos, resinas e acabamentos importados para atender projetos cada vez mais sofisticados

6 min

A construção de um iate de luxo no Brasil começa muito antes de o casco tocar a água. Ela passa por motores que vêm de fora, sistemas elétricos importados, radares, estabilizadores, resinas, móveis, conexões, bússolas, relógios e até uma madeira específica da Indonésia usada em mesas e painéis de embarcações de alto padrão. Esse fluxo ajuda a explicar um número que mostra o novo momento da indústria náutica brasileira: as importações ligadas à construção de barcos de lazer e esporte cresceram 23% no primeiro semestre de 2026 e chegaram a US$ 75,6 milhões.

O dado, levantado no Comex Stat, plataforma do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foi compilado pela Cronos Logistics com exclusividade para a Forbes Brasil. No mesmo período do ano passado, o valor havia sido de US$ 61,5 milhões.

A alta acompanha a expansão de um setor que já produz cerca de 5 mil embarcações de lazer por ano no país e mobiliza aproximadamente 150 mil trabalhadores diretos e indiretos, segundo a Acobar, associação que reúne construtores de barcos e implementos náuticos. Mas também revela um ponto central dessa cadeia: mesmo com estaleiros relevantes e produção local em crescimento, a fabricação de barcos de luxo ainda depende de uma engrenagem internacional para funcionar.

“A construção de um iate de grande porte no Brasil, em projetos que podem superar R$ 50 milhões, exige integrar fornecedores de diferentes países ao cronograma do estaleiro. Motores, estabilizadores, radares e sistemas eletrônicos têm prazos e exigências próprias. O agente de carga precisa antecipar documentos, definir rotas e programar cada entrega para garantir a eficiência na fabricação”, afirma Fábio Rengel, COO da Cronos Logistics.

O luxo também viaja de contêiner

A Cronos movimentou, apenas no primeiro semestre, 80 toneladas e 30 TEUs em importações voltadas à indústria náutica. Cada TEU equivale a um contêiner de 6 metros. O número é considerado relevante no segmento porque a companhia atende alguns dos principais fabricantes de iates de luxo do país.

Nas cargas que chegam ao Brasil, há componentes técnicos e itens de acabamento. A lista inclui motores, tubos, conexões, sistemas elétricos específicos, bússolas, relógios, móveis e madeira importada usada em projetos de alto padrão. Entre as principais origens estão Indonésia, Grécia, Portugal e Estados Unidos.

Esse movimento mostra que o iate brasileiro é resultado de uma cadeia mais ampla do que o estaleiro. O casco pode ser construído no país, mas parte dos materiais que definem desempenho, acabamento e tecnologia vem de fornecedores globais. Para que a produção não pare, cada entrega precisa entrar no calendário da obra no momento certo.

“Uma embarcação produzida no Brasil pode ter fornecedores em vários países e comprador em outro mercado. Por isso, as exigências documentais e regulatórias precisam ser consideradas desde a entrada dos componentes até a exportação do barco concluído”, diz Matheus F. Bernardes, CEO da Cronos Logistics.

Itajaí concentra a economia dos iates

O epicentro dessa cadeia fica em Itajaí, em Santa Catarina. O município concentra cerca de 35% da produção nacional de barcos e reúne estaleiros, fornecedores e prestadores de serviços especializados. Também lidera as exportações brasileiras de iates e embarcações esportivas.

Entre janeiro e junho de 2026, empresas domiciliadas na cidade exportaram US$ 8,7 milhões em iates e outras embarcações de recreio e esporte. O valor representa avanço de 93% sobre os US$ 4,5 milhões registrados no mesmo período de 2025.

Esse desempenho reforça o papel da cidade dentro da chamada economia do mar. Levantamento da Secretaria de Estado do Planejamento de Santa Catarina mostra que atividades ligadas ao uso produtivo do mar empregam cerca de 250 mil pessoas no estado, o equivalente a 8,5% da força formal de trabalho catarinense.

O levantamento considera pesca, aquicultura, fabricação de barcos e navios, transporte marítimo, turismo, logística, serviços e indústria de apoio. Itajaí aparece entre os municípios com maior contingente de trabalhadores formais ligados a essa economia, ao lado de Florianópolis e Joinville.

O maior iate de lazer já construído no Brasil

É em Itajaí que começou a sair do papel um dos projetos que melhor explicam a mudança de escala da indústria náutica nacional. A Azimut iniciou em junho a construção do Grande 30 Metri, modelo que será o maior iate de lazer já feito no Brasil.

Avaliada a partir de R$ 90 milhões, a embarcação terá 28,69 metros de comprimento e 7,3 metros de largura. A configuração prevê cinco cabines para hóspedes e três para tripulação, com capacidade para 10 pessoas e mais 5 tripulantes. O processo é essencialmente artesanal, e a conclusão está prevista para o fim de 2028.

A construção ocorre na fábrica da Azimut Yachts em Itajaí, única unidade própria da marca italiana fora da Itália. O projeto faz parte de um ciclo de investimentos de R$ 120 milhões até 2028, que inclui a ampliação do estaleiro para 65 mil metros quadrados e a introdução de novas tecnologias.

Para a operação brasileira, o Grande 30 Metri representa uma mudança de categoria. A empresa passa a atuar em uma faixa acima de 24 metros, considerada mais exigente em produto, serviço e acabamento.

“Quando você entra no segmento acima de 24 metros é outra liga. O cliente muda, o serviço muda e o nível de qualidade exigido aumenta”, afirmou Giovanna Vitelli, presidente global do Grupo Azimut-Benetti, em entrevista à Forbes Brasil.

O iate terá construção em fibra de carbono, design externo assinado por Alberto Mancini e interiores do estúdio milanês m2atelier. Na parte técnica, serão dois motores, velocidade máxima de até 25 nós e velocidade de cruzeiro de até 20 nós. Entre as soluções de convivência está o Infinity Skydeck, terraço superior voltado à integração entre áreas internas e externas.

Mais do que ampliar o tamanho dos barcos produzidos no país, o projeto mostra uma mudança no consumo de luxo náutico. A demanda passa por ambientes menos formais, privacidade, bem-estar e convivência. Não por acaso, a Azimut afirma que o objetivo da expansão brasileira não é apenas aumentar volume.

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