Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector (1920-1977), sobe aos palcos de Nova York no dia 29 de outubro.
O Miller Theatre da Universidade de Columbia recebe a estreia internacional da ópera “Macabéa”, inspirada no best-seller. Em sessão única, o espetáculo retrata de forma lírica a trajetória e tragédia da protagonista do livro, uma jovem alagoana que migra sozinha para o Rio de Janeiro.
A história propõe contar uma história que ninguém parece querer ouvir: de uma menina sem raízes que vive nas favelas cariocas, ganhando a vida com um salário miserável e na companhia de um namorado machista. É na vida insignificante de Macabéa que aspectos como pobreza, marginalização e indivisibilidade são retratadas por Clairice – um reflexo da própria autora que, ainda criança, saiu da Ucrânia rumo ao Brasil, “sem sapatos suficientes para todos os pés”.
Suzanne Farrin, compositora da ópera, conta que é justamente a simplicidade da realidade de Macabéa o que mais a encantou. “[A personagem] conseguia se perder em coisas bobas e banais e ter pensamentos profundos em lugares que não eram uma aula de filosofia, um sermão ou um museu. Nem mesmo um passeio na natureza. Era na cozinha”, diz em nota publicada pelo Miller Theatre.
Durante a maior parte da peça, Farrin mantém Macabéa (Charlotte Mundy) contida e praticamente sem o apoio da orquestra, até que toda sua potência vocal é liberada na interpretação de “Furtiva”. “A magia da ópera é que eu posso dar a ela a possibilidade de cantá-la. Ela se imagina uma estrela da ópera… ela quase tem sua própria máquina de karaokê. A orquestra está totalmente com ela, apoiando sua fantasia. Ela consegue vivenciar essa fantasia plenamente antes que ela desapareça”, diz Farrin.

Outro detalhe é a participação do narrador do livro Rodrigo S.M., interpretado pelo barítono Christopher Dylan Herbert. A história contada por meio deste homem egocêntrico se mostrou um desafio dramático para Farrin: adaptar o texto ao pé da letra significaria um homem sozinho no palco contando a história de uma mulher.
“A questão sempre foi: o que faremos com Rodrigo?”. Sergio Chejfec, que assina o livreto da ópera, foi quem encontrou a resposta: dar a Rodrigo um papel de causa na história de Macabéa, como justificativa para contá-la. “Apenas uma pequena mudança, de uma reviravolta total do destino para colocar a mão na balança. Ele está tentando se sentir vivo, sentir algum tipo de poder”. Assim como no livro, o narrador exercerá um papel metalinguístico, desta vez como um diretor de cinema.
Com duração de 90 minutos, a obra terá uma dinâmica multilíngue, com trechos em português (língua predominante), espanhol, italiano e diálogos em inglês. A regência do Conjunto de Câmara fica sob o comando do maestro Eduardo Leandro, que lidera o Talea Ensemble.
A apresentação é uma prévia exclusiva antes da estreia completa da ópera no Brasil, prevista para 2027.
Serviço:
Macabéa
Onde? Miller Theatre na Universidade de Columbia (Nova York)
Quando? 29 de outubro, as 19h30
Ingressos: a partir de US$ 20