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Mara Carvalho Dá Voz À História Invisível de Gala Dalí

Atriz e empreendedora encontrou na trajetória da mulher do pintor surrealista ecos da própria trajetória

5 min

Em diferentes ocasiões, o pintor Salvador Dalí dizia que sua esposa Gala era a “coluna vertebral” e “o sangue” com o qual pintava suas telas”. Muito mais do que uma musa inspiradora, Gala Dalí foi conselheira, co-autora e administradora da carreira do marido, levando-o de um jovem inseguro a um dos maiores nomes do surrealismo.

Foi a história dessa mulher que inspirou Mara Carvalho a desenvolver uma peça biográfica. A atriz também é empreendedora e criou o restaurante espanhol Mientras e o Mi Teatro, anexados ao mesmo ambiente. Sua ideia era trazer uma peça que conectasse os espaços, e o fio condutor seria a Espanha. Com o país em mente, foi muito fácil encontrar um de seus maiores ícones, Salvador Dalí. Mas o que chamou atenção mesmo foi a figura aparentemente secundária na vida do artista: sua companheira.

Mara quis compreender o papel de Gala no meio artístico. Mas toda vez que buscava por seu nome, encontrava Salvador. Ela precisou pesquisar todo o seu entorno: leu todos os livros possíveis de Salvador Dalí e o que ele dizia sobre ela em entrevistas; o que os surrealistas enxergavam em Gala e até a relação dela com o motorista, Machado, com quem teve um envolvimento.

Ao imergir na história, Mara se surpreendeu com o quanto encontrava ali reflexos de sua própria trajetória. “Embora contextos diferentes, ela traz muitas conexões comigo: questões como etarismo, sua determinação, gosto por desafios e a trajetória artística”, explica a atriz, que por anos atuou em novelas da Rede Globo, incluindo A Viagem (1994) e Rei do Gado (1996).

Ao longo dos anos suas prioridades foram mudando das telas para os palcos, com produções como Vida Privada, Baixa Terapia, e Susi. O sonho de Mara ganhou então nova forma: ela queria um espaço próprio para ser artista sem rédeas. “A maioria dos teatros não está na mão dos artistas, mas de empreendedores, que focam no retorno financeiro e não na arte. Eu queria ter um teatro para ter autonomia e mobilidade em meus projetos, sem a obrigação de sair de cena se o espetáculo estivesse indo bem”, conta.

DivulgaçãoMara Carvalho interpretando Gala Dalí em espetáculo no Mi Teatro

Foi então que encontrou uma casa antiga na Rua Pamplona, próximo a Avenida Paulista. No fundo do espaço, construiu seu sonhado teatro, intimista, com 60 lugares; na frente, incorporado à estrutura original da casa, fez o restaurante espanhol, já que “não dá pra viver só de arte”.

“O desafio é algo que me estimula e não consigo abandonar meus objetivos”, conta. Dizem que, depois dos 60 ou 70 anos, ninguém muda, mas isso não é verdade. Muda sim, você só precisa se abrir para essa transformação“.

Mara conta que quanto mais se aprofundava na história de Gala, mais se identificava com a russa. Apesar das dificuldades das mulheres na época, ela encontrou satisfação da forma que pôde – através de seus parceiros. “Ela alcançou seu objetivo: transformar a vida em uma obra de arte. Ela se realizou por meio de Dalí e de outros artistas que trouxe à tona.”

CordonpressGala e Salvador Dalí, em 1957

Gala começou a frequentar o mundo artístico após seu casamento com Paul Éluard, poeta francês. Movida pela sua inteligência, criatividade e intelectualidade, ela acabou por se tornar uma peça icônica no movimento surrealista. Foi por sua influência que Éluard retomou a escrita e, mais tarde, abriu a Dalí as portas para o mundo da arte e para o seleto grupo de surrealistas.

“Ela dizia que conseguiu trazer Salvador ao mundo porque nunca desistiu. O posicionou no mundo artístico, trouxe luz e o levou para Nova York, onde sua carreira decolou. Ela era a força motora que fazia as coisas acontecerem”, conta.

Uma cadeira e nada de Dalí

Com um cenário inteiramente branco, composto por uma mesa e uma cadeira, Mara dá vida à Gala Dalí. Ulysses Cruz, diretor, foi quem ajudou a construir esse cenário. “Ele trouxe dinâmica e modernidade, me guiou muito também. Em escolhas específicas, como não querer Dalí em cena, ele respeitou. Todo mundo fala dele, eu não quero ele. Fomos construindo a Gala em uma comunhão muito positiva”, explica.

Martinie/Roger Viollet via Getty ImagesElena Diakonova (Gala Dalí) por volta de 1930

Uma vez imersa, não tem como voltar atrás. Mara já afirmou ter grandes ambições para Gala. No mundo, quer levar o espetáculo para Portugal, Espanha e para o Festival de Avignon. Em São Paulo, quer transformar a artista em um rótulo de vinho brasileiro, e levá-la para um momento de interação com o público em um jantar surrealista no Mientras. A expectativa é transformar o andar superior do ambiente em uma sala temática, com novos pratos e projeções imersivas.

Apagada pela história, Mara quer dar voz à essa mulher. “Hoje lutamos por nosso espaço feminino, por nossa voz e pela própria existência. Sem escrever ou atuar, não consigo existir. Sou uma artista que se projeta através da arte. Talvez tenha esse privilégio que Gala não teve; hoje tenho a voz de jovens que me levarão adiante, como estou fazendo com Gala”.

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