Em diferentes ocasiões, o pintor Salvador Dalí dizia que sua esposa Gala era a “coluna vertebral” e “o sangue” com o qual pintava suas telas”. Muito mais do que uma musa inspiradora, Gala Dalí foi conselheira, co-autora e administradora da carreira do marido, levando-o de um jovem inseguro a um dos maiores nomes do surrealismo.
Foi a história dessa mulher que inspirou Mara Carvalho a desenvolver uma peça biográfica. A atriz também é empreendedora e criou o restaurante espanhol Mientras e o Mi Teatro, anexados ao mesmo ambiente. Sua ideia era trazer uma peça que conectasse os espaços, e o fio condutor seria a Espanha. Com o país em mente, foi muito fácil encontrar um de seus maiores ícones, Salvador Dalí. Mas o que chamou atenção mesmo foi a figura aparentemente secundária na vida do artista: sua companheira.
Mara quis compreender o papel de Gala no meio artístico. Mas toda vez que buscava por seu nome, encontrava Salvador. Ela precisou pesquisar todo o seu entorno: leu todos os livros possíveis de Salvador Dalí e o que ele dizia sobre ela em entrevistas; o que os surrealistas enxergavam em Gala e até a relação dela com o motorista, Machado, com quem teve um envolvimento.
Ao imergir na história, Mara se surpreendeu com o quanto encontrava ali reflexos de sua própria trajetória. “Embora contextos diferentes, ela traz muitas conexões comigo: questões como etarismo, sua determinação, gosto por desafios e a trajetória artística”, explica a atriz, que por anos atuou em novelas da Rede Globo, incluindo A Viagem (1994) e Rei do Gado (1996).
Ao longo dos anos suas prioridades foram mudando das telas para os palcos, com produções como Vida Privada, Baixa Terapia, e Susi. O sonho de Mara ganhou então nova forma: ela queria um espaço próprio para ser artista sem rédeas. “A maioria dos teatros não está na mão dos artistas, mas de empreendedores, que focam no retorno financeiro e não na arte. Eu queria ter um teatro para ter autonomia e mobilidade em meus projetos, sem a obrigação de sair de cena se o espetáculo estivesse indo bem”, conta.

Foi então que encontrou uma casa antiga na Rua Pamplona, próximo a Avenida Paulista. No fundo do espaço, construiu seu sonhado teatro, intimista, com 60 lugares; na frente, incorporado à estrutura original da casa, fez o restaurante espanhol, já que “não dá pra viver só de arte”.
“O desafio é algo que me estimula e não consigo abandonar meus objetivos”, conta. Dizem que, depois dos 60 ou 70 anos, ninguém muda, mas isso não é verdade. Muda sim, você só precisa se abrir para essa transformação“.
Mara conta que quanto mais se aprofundava na história de Gala, mais se identificava com a russa. Apesar das dificuldades das mulheres na época, ela encontrou satisfação da forma que pôde – através de seus parceiros. “Ela alcançou seu objetivo: transformar a vida em uma obra de arte. Ela se realizou por meio de Dalí e de outros artistas que trouxe à tona.”

Gala começou a frequentar o mundo artístico após seu casamento com Paul Éluard, poeta francês. Movida pela sua inteligência, criatividade e intelectualidade, ela acabou por se tornar uma peça icônica no movimento surrealista. Foi por sua influência que Éluard retomou a escrita e, mais tarde, abriu a Dalí as portas para o mundo da arte e para o seleto grupo de surrealistas.
“Ela dizia que conseguiu trazer Salvador ao mundo porque nunca desistiu. O posicionou no mundo artístico, trouxe luz e o levou para Nova York, onde sua carreira decolou. Ela era a força motora que fazia as coisas acontecerem”, conta.
Uma cadeira e nada de Dalí
Com um cenário inteiramente branco, composto por uma mesa e uma cadeira, Mara dá vida à Gala Dalí. Ulysses Cruz, diretor, foi quem ajudou a construir esse cenário. “Ele trouxe dinâmica e modernidade, me guiou muito também. Em escolhas específicas, como não querer Dalí em cena, ele respeitou. Todo mundo fala dele, eu não quero ele. Fomos construindo a Gala em uma comunhão muito positiva”, explica.

Uma vez imersa, não tem como voltar atrás. Mara já afirmou ter grandes ambições para Gala. No mundo, quer levar o espetáculo para Portugal, Espanha e para o Festival de Avignon. Em São Paulo, quer transformar a artista em um rótulo de vinho brasileiro, e levá-la para um momento de interação com o público em um jantar surrealista no Mientras. A expectativa é transformar o andar superior do ambiente em uma sala temática, com novos pratos e projeções imersivas.
Apagada pela história, Mara quer dar voz à essa mulher. “Hoje lutamos por nosso espaço feminino, por nossa voz e pela própria existência. Sem escrever ou atuar, não consigo existir. Sou uma artista que se projeta através da arte. Talvez tenha esse privilégio que Gala não teve; hoje tenho a voz de jovens que me levarão adiante, como estou fazendo com Gala”.