Imaginar que bolos esculturais não existiam em casamentos – ou, pior, que saíam intactos no fim da festa, sem ao menos serem cortados – parece impossível nos dias de hoje, em que eles viraram estrelas das comemorações. Mas foi esse o cenário que Isabella Suplicy encontrou quando começou a trabalhar com confeitaria, em 1995.
“Antigamente, ninguém queria bolo. Quando comecei, era unânime: as pessoas falavam que bolo era ruim, que ninguém comia, que iam só ter uma pilha de bem-casados. O mercado era super básico”, lembra ela, em entrevista à Forbes Brasil, em seu ateliê, em São Paulo.
Foi a paulista quem assumiu, meio sem querer querendo, o papel de mudar a cultura do bolo no Brasil. Desistiu da advocacia para seguir a confeitaria. Com bolos elaborados (mas, mais ainda, gostosos) e uma boa dose de persistência, Isabella liderou a transformação que levou o doce de coadjuvante à peça central das festas.
Entrar em sua casa-ateliê no Morumbi ajuda a entender o peso dos 31 anos de carreira de Isabella. Em meio às cores saídas de um conto de fadas, cada canto guarda um pedaço da história do negócio: das prateleiras recheadas de álbuns físicos com fotos de seus bolos à coleção de noivinhos e todo tipo de confeitos, louças e forminhas de bombons.
Dali, os mais de 20 funcionários da equipe dão vida a uma linha de produção impressionante. Durante a alta temporada, a operação consome mensalmente cerca de 9.000 ovos, 300 quilos de leite condensado e 700 quilos de chocolate. Por semana, são processados aproximadamente 66,6 quilos de pasta americana – receita que é 100% feita na casa. Mantendo um ritmo de 30 bolos semanais ao longo de três décadas, Isabella chuta já ter criado entre 40 e 50 mil bolos na vida.

Entre eles, criações endereçadas a nomes do calibre de Hebe Camargo, Xuxa, Faustão e Bruna Marquezine. No público de aficionados por seus docinhos, também estão boa parte da elite paulistana e figurões internacionais dos negócios, como a bilionária Aerin Lauder (neta de Estée Lauder e atual diretora de estilo da gigante da beleza).
No currículo, Isabella já teve bolos despachados para Paris, Marrocos e até Hong Kong. Mas a mais complexa e desafiadora encomenda aconteceu perto de casa: uma estrutura giratória de 109 bolos para a festa de 60 anos da empresária Ana Eliza Setubal. “No fim, o bolo ficou com 1,2 metro de altura. Levou quatro meses para ficar pronto”, conta a confeiteira. A fundadora do Oportunidade do Bem gostou tanto do resultado final que o quis eternizar. “Depois fiz uma versão cenográfica do bolo, com isopor, açúcar e acrílico, que está exposta na casa de Ana, como uma obra de arte”.

A missão de fazer o bolo ser comido
Chegar nesse patamar no mercado, porém, não aconteceu sem resistência. No início da carreira, Isabella chegava a oferecer o bolo como presente para clientes que encomendavam salgados, na tentativa de convencê-las a incluir a sobremesa na festa. Também precisava lidar com decoradores dos casamentos, que se recusavam a dar destaque às suas criações, por vezes escondidas atrás de árvores ou debaixo de escadas.
Outro obstáculo: mesmo quando os bolos eram encomendados, muitas vezes não eram cortados. Os convidados tinham receio de estragar a decoração, e as noivas frequentemente esqueciam o momento do corte. Isabella, então, encontrou uma solução que ajudou a mudar a relação do público com o bolo: criou a figura da “copeira do bolo”.
Incluído no preço da encomenda, o serviço tinha uma missão específica. No meio da festa, a funcionária desmontava a estrutura e servia do jeito que Isabella acha ideal: fatias regadas com calda quente. A ideia era mostrar que, além de bonito, o bolo também merecia ser comido.

Funcionou. “Engoli muito sapo por pelo menos uns cinco anos… até o dia que o bolo por si só explodiu. Porque as noivas queriam, entendeu? E aí elas querem, e, elas mandam.”
Se hoje vemos o bolo assumir o status de joia da festa, uma peça de design, “instagramável” e dona do espaço mais nobre da decoração, a “culpa” é da insistência de Isabella.
A confeiteira que virou referência
30 anos depois, ela não precisa mais dar bolos de presente para conquistar clientes ou disputar espaço com os decoradores. Suas criações ajudaram a estabelecer referências que ultrapassaram o próprio ateliê. As formas de pompom que desenvolveu para reproduzir a flor gipsófila, por exemplo, ganharam versões por todo lugar. Os sabores e a arquitetura de seus bolos também passaram a ser reproduzidos por outros confeiteiros.

A princípio, a cópia era vista como um incômodo. Isabella, porém, preferiu mudar o ângulo e se apoiar no conselho de sua maior inspiração, a lendária confeiteira nova-iorquina Sylvia Weinstock: “É de se ficar lisonjeada. Você tem que se preocupar no dia que não estiverem te copiando”.
Se a estética dos bolos ajudou a consolidar seu nome, o paladar também conta a história de como as preferências das noivas mudaram ao longo das décadas. O tradicional bolo de nozes com baba de moça, escolha que muitas mães decidiam pelas filhas, perdeu espaço para a febre do brigadeiro. Agora, quem domina os pedidos é o três leites, sabor que, segundo Isabella, representa mais de 90% das encomendas das noivas.
Na decoração, a tendência também mudou. Depois de anos em que as grandes torres e as estruturas monumentais dominavam as festas, designs de inspiração vintage e propostas mais minimalistas ganharam espaço. Os bolos aparecem mais largos e baixos, com atenção à composição e aos detalhes, sem necessariamente depender de uma altura impressionante para chamar a atenção.

A mudança de estilo, no entanto, não altera a convicção que acompanha Isabella desde o início da carreira: o bolo precisa ser lembrado pelo sabor, não apenas pela aparência. Em um mercado no qual esculturas cada vez mais elaboradas disputam a atenção dos convidados, ela prefere não perder de vista a função original da sobremesa.
“A gente não pode esquecer que estamos falando de bolo. Eu prefiro não ter aquela perfeição estética, mas prefiro que a pessoa fale que o bolo era maravilhoso. Nosso maior elogio é quando não sobra nenhum pedaço”