Quando a Ferrari revelou o Purosangue em 2022, o discurso inicial tentou apresentar o novo modelo como qualquer coisa, menos um SUV. Ainda assim, o primeiro quatro-lugares e quatro-portas — e o veículo mais alto da história da marca — soou como uma capitulação à demanda dos clientes diante do sucesso do Lamborghini Urus, Aston Martin DBX, Rolls-Royce Cullinan e Bentley Bentayga.
O ethos do Purosangue, porém, se afasta totalmente desses SUVs mais tradicionais, com um V12 aspirado para satisfazer os puristas e uma suspensão avançada derivada de tecnologia de chassis de competição. Recentemente, peguei um Purosangue emprestado para uma viagem de cerca de 1.100 quilômetros pela Califórnia para descobrir se o “SUV que não é SUV” dá conta de um fim de semana de diversão — ou se o espírito superesportivo de Maranello pesa demais no conforto.
A resposta? Sim e não… A viagem começou na 405, em West Los Angeles, um teste brutal para a complacência da suspensão. Ali, os amortecedores Multimatic True Active Spool Valve (TASV) “dançaram” sobre ondulações, valas e trincas. A tecnologia TASV elimina a necessidade de barras estabilizadoras e, em vez disso, usa fluido hidráulico e fusos mecânicos para conter o balanço da carroceria.
Mas, com 62,6 polegadas de altura — mais de oito a mais que o GTC4Lusso, seu antecessor de duas portas — e passando das 5.000 libras quando carregado, calçando rodas de 22” na frente e 23” atrás, o Purosangue sofre para aplanar pisos ruins. Mais supercarro do que SUV, talvez — ou exatamente o que a Ferrari quer que o mundo perceba.
Supercarro, SUV ou algo no meio
Um V12 aspirado montado sob o capô interminável mantém o tema: são 725 cavalos. A força vai para um sistema de tração integral engenhoso que usa uma caixa de duas marchas à frente do motor, entre as rodas dianteiras, além de um transaxle de dupla embreagem e oito marchas no eixo traseiro. Pise no acelerador em praticamente qualquer rotação e o Purosangue avança furioso. Perto do corte a 8.250 rpm, surge a magia de Maranello: o canto mecânico do V12 em equilíbrio com um escapamento estridente.
Esse powertrain, claro, resulta em consumo nada ideal para uma road trip. Na 101, passando por Santa Barbara e subindo a costa central rumo a Monterey, o ponteiro parecia cair em tempo real. Ao fim, minhas contas deram cerca de 5 km/L — embora, naturalmente, eficiência não esteja no topo das preocupações de um ferrarista, ao contrário do engajamento emocional a cada saída.
Os destaques de guiar uma Ferrari por tanta distância apareceram nas serras acima de Santa Barbara ou perto de Carmel e Monterey, quando girei o manettino no volante para o modo Sport. Aí, tudo se solta: suspensão mais firme, caráter mais “supercarro” e, sem exagero, a melhor resposta de direção que já experimentei em um SUV.
Sempre que parei — para abastecer, comer, no valet do hotel ou até numa plantação de abóboras — o Purosangue atraiu olhares, curiosidade, quase perplexidade, enquanto as pessoas debatiam o que exatamente estavam vendo. Mas essa “ferrarice” vem com ressalvas que às vezes ofuscam outras virtudes.
Frustrações de um Ferrari temperamental
Superar a suspensão firme demora pouco. Já a irritação com a eletrônica interna demora bem mais, sobretudo porque o Purosangue não tem tela central. O motorista praticamente tem de abrir mão do navegador a bordo ou de mapas via Apple CarPlay. Em vez disso, a tela no painel do passageiro funciona bem melhor.
Vale para todo o infotainment: volume, estações de rádio. Até o ar-condicionado incomoda, já que o seletor retrai para o painel antes de a mudança de velocidade do ventilador surtir efeito. Tudo isso enquanto avisos sonoros tocam o tempo todo, parado, em movimento, trancando ou destrancando portas.
Para mim — 1,85 m e 77 kg — os bancos ficaram num meio-termo aceitável entre firme e de suporte. Mas dá para imaginar que, depois de seis horas no retorno ao sul, outros biotipos precisem de ioga, pilates, até quiropraxia. Sem falar no banco traseiro apertado e no porta-malas modesto, pequeno até comparado a crossovers compactos.
Aprendi, então, a viajar leve, planejar paradas divertidas e, claro, caçar estradas sinuosas em vez de retas intermináveis. Se isso vale como conselho para qualquer viagem longa, o Purosangue cumpre bem seu papel de “stormer” de estrada — verdadeiramente “super” de um jeito que nenhum outro SUV no mercado é.