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“Nosso Foco É Valor, Não Volume”, Diz CEO da Renault do Brasil Ao Lançar Carro Mais Premium da Marca

O Renault Koleos full hybrid E-Tech é um SUV de grandes dimensões que estreia a motorização híbrida da marca no Brasil

9 min

“Nosso foco é valor, não volume.” A frase de Ariel Montenegro, CEO da Renault Geely do Brasil, ajuda a resumir a guinada da montadora francesa no país. Em um mercado que cresceu cerca de 2,5% em 2025 — para 2,54 milhões de veículos vendidos, segundo dados da Fenabrave — e em que o “bolo” segue praticamente do mesmo tamanho, a estratégia agora passa menos por disputar participação a qualquer preço e mais por elevar margens com produtos de maior valor agregado.

É nesse contexto que chega o Renault Koleos full hybrid E-Tech, SUV de grandes dimensões que estreia a motorização híbrida da montadora no Brasil. Em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, Montenegro deixa claro o reposicionamento: “É realmente a conquista de novos clientes. É um reposicionamento de marca, sair fortalecido e não abandonar nosso plano de longo prazo.”

A Renault, que já chegou perto de 10% de participação no mercado brasileiro há cinco anos e fechou 2025 com cerca de 5%, aceita jogar um jogo diferente em um ambiente com mais de 40 marcas disputando o mesmo consumidor. “O bolo é quase o mesmo”, resume o executivo.

O preço do Koleos ainda não foi revelado oficialmente, mas a expectativa é que o modelo fique na casa dos R$ 300 mil, reforçando o movimento da marca rumo a patamares mais altos de valor percebido e rentabilidade.

Trinca estratégica: Kardian, Boreal e Koleos

O Koleos é o terceiro pilar do que a marca chama de International Game Plan — o plano global para mercados internacionais que começou com o Kardian e o Boreal. “O Koleos é o terceiro veículo do plano estratégico da Renault para os mercados internacionais. É um veículo de grande sucesso onde já foi lançado, e é mais um importante marco no novo posicionamento no Brasil”, afirma Montenegro.

Segundo Aldo Costa, diretor comercial da Renault do Brasil, o modelo consolida esse novo momento: “Com o Koleos full hybrid E-Tech, a Renault dá continuidade ao novo posicionamento iniciado com Kardian e Boreal, ampliando sua gama de produtos e reforçando a sua presença no mercado brasileiro.”

Koleos: primeiro híbrido full da Renault no Brasil

O Koleos chega ao país em versão única, a esprit Alpine full hybrid E-Tech, combinando um motor turbo 1,5 litro a gasolina, com injeção direta, a dois motores elétricos acoplados à transmissão automática DHT (Dual Hybrid Transmission) e a uma bateria de íons de lítio de 1,64 kWh. O conjunto entrega 245 cv, somando 144 cv (230 Nm) do motor a combustão e 136 cv (320 Nm) dos motores elétricos, com aceleração de 0 a 100 km/h em 8,3 segundos e velocidade máxima limitada a 180 km/h. O carro não precisa ser carregado na tomada.

“Hoje nem todos os clientes estão dispostos a comprar um carro 100% elétrico, por causa da infraestrutura”, explica Montenegro. Ele destaca que o híbrido completo funciona como um “ponto intermediário” entre o motor a combustão tradicional e as soluções plug-in e 100% elétricas, já que não depende de infraestrutura externa de recarga.

Graças à gestão otimizada de energia, o Koleos pode rodar até 75% do tempo em modo elétrico na cidade, segundo dados da marca, sem necessidade de plugue na tomada. O consumo urbano é de 13,1 km/l e, em rodovias, 12,1 km/l, de acordo com o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV) do Inmetro.

Design esprit Alpine e cabine “de primeira classe”

Visualmente, o Koleos foi pensado para disputar espaço na faixa premium do segmento D. Com 4,78 m de comprimento, 2,82 m de entre-eixos e um dos maiores espaços para joelhos da categoria na segunda fileira (320 mm), o SUV aposta em presença e conforto. O porta-malas oferece 431 litros (padrão VDA), podendo chegar a 1.623 litros com os bancos rebatidos.

“O Koleos representa a expressão do DNA global de design da Renault, combinando linhas modernas, proporções elegantes e uma assinatura visual marcante. Inspirado pelo esprit Alpine [equipe de Fórmula 1 do Grupo Renault], ele traduz um design esportivo e sofisticado que reforça nossa identidade de marca”, afirma Daniel Nozaki, diretor de design da Renault.

Na versão esprit Alpine, o modelo traz teto em dois tons, pintura com acabamento acetinado, rodas diamantadas de 20 polegadas e detalhes em azul gravados a laser na grade, para-choques e portas. Os faróis de LED Pure Vision se integram à nova grade em padrão de diamante na cor da carroceria.

Por dentro, o acabamento mistura tecido alcantara e materiais macios ao toque em bancos, portas e painel. O ambiente é majoritariamente preto, com detalhes da Alpine: costuras em azul, branco e vermelho no volante e no apoio de braço central, detalhes em azul nos estofados e cintos de segurança e a letra “A” em relevo nos bancos, acompanhada de uma bandeira tricolor da França no assento do motorista.

Três telas

O Koleos inaugura um ambiente digital mais avançado na gama brasileira da Renault. A combinação de três painéis de 12,3” forma a tela panorâmica Open’R, que exibe informações do veículo, navegação e aplicativos, com compatibilidade com Apple CarPlay e Android Auto. O sistema inclui controle por gestos, visualização em tempo real das câmeras e atualizações remotas de software.

O sistema de som Bose, com 10 alto-falantes e cancelamento ativo de ruídos, reforça a proposta de cabine silenciosa, apoiada também pelo isolamento acústico da carroceria. No pacote de segurança e assistência, o modelo tem 29 sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS) e 7 airbags.

Por trás do Koleos está a plataforma CMA (Compact Modular Architecture), desenvolvida pela Volvo Cars e Geely, capaz de acomodar motores a combustão, sistemas híbridos e elétricos. A arquitetura é amplamente utilizada por marcas do grupo Geely (Volvo, Polestar, Lynk & Co e Geely Auto) e chegou à gama Renault em 2022, a partir da parceria firmada na Coreia do Sul entre o Renault Group e a Geely.

O modelo também simboliza a nova fase da operação brasileira após o anúncio conjunto de R$ 3,8 bilhões em investimentos para instalação de novas plataformas de veículos no Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais, no Paraná. A parceria foi oficializada depois que a Geely assumiu 26,4% da Renault do Brasil, consolidando o movimento global de cooperação entre os dois grupos.

Segundo Montenegro, o novo ciclo de R$ 3,8 bilhões “é para introdução de uma nova plataforma da Geely, para fabricação de dois carros da montadora chinesa e a renovação de um modelo da Renault, tudo isso para esse ano 2026”.

O montante se soma a um ciclo anterior de R$ 5,1 bilhões, que sustenta o International Game Plan e a chegada de Kardian, Boreal e agora Koleos. “O bom de nossa parceria [com a Geely é que] temos todas as tecnologias, ainda mais porque agora localizamos aqui. Isso permite flexibilidade para atender a demanda do consumidor brasileiro. E esse é o foco na estratégia”, afirma.

Sem abandonar a combustão

A nova ofensiva eletrificada da Renault não significa abandonar completamente os motores a combustão. Montenegro insiste em uma visão abrangente da transição energética.

“A Renault tem uma visão bem abrangente sobre a eletrificação. Continuamos investindo também em motores a combustão tradicional, a etanol aqui no Brasil, e em tecnologias de transição: híbridos não recarregáveis, micro-híbridos, plug-in e 100% elétricos.”

Na divisão entre as marcas do grupo no país, o executivo enxerga papéis complementares. A Renault continua como marca de maior abrangência, com diferentes faixas de preço e tecnologias, enquanto a Geely chega posicionada pela inovação e eletrificação desde o primeiro momento.

“O consumidor brasileiro está aberto para todas as tecnologias, mesmo que a eletrificação esteja seguindo uma curva de crescimento acelerado”, diz.

Fórmula 1 como laboratório

A estratégia tecnológica também passa pelas pistas. Para Montenegro, a Fórmula 1 segue como um laboratório fundamental de desenvolvimento. “Em geral, o motorsport tem sido um laboratório para as montadoras para desenvolver tecnologia, testar durabilidade, testar novos designs, novas tecnologias. A Fórmula 1 é a Champions League do motorsport”, afirma.

Ele lembra que a Renault tem “uma longa história dentro da Fórmula 1” e que a mudança de nome da equipe para Alpine teve justamente o objetivo de projetar a marca esportiva para além da França.

Na prática, essa proximidade se traduz em transferência de tecnologia. “Nós temos uma frase na Renault que é win on Sunday, sell on Monday. Como levar a tecnologia da Fórmula 1 para as ruas em produtos comerciais. Aí nasceu, por exemplo, a tecnologia híbrida, que é muito mais eficiente”, diz.

Segundo ele, a discussão sobre combustíveis sintéticos também passa pelo campeonato: “O questão da descarbonização permanece para encontrar um caminho de descarbonização que não seja apenas com o carro elétrico. Aí faz sentido o combustível sintético. E a Fórmula 1 um laboratório para testar isso.”

Um mercado estável, mas mais disputado

O cenário para 2026, na avaliação de Montenegro, é de leve crescimento em volume, porém com competição mais intensa. “Acho que o mercado pode ter um leve crescimento no mercado doméstico do Brasil. Nós acreditamos bastante que tem espaço para crescer ainda nos segmentos inferiores, mas isso depende muito hoje da financiamento”, afirma, citando a taxa de juros ainda elevada como freio para veículos na faixa de R$ 100 mil.

Ao mesmo tempo, ele lembra que 2026 deve ter mais de 80 lançamentos e a chegada de novas marcas, o que comprime margens e força escolhas estratégicas mais claras. “Nós sabemos que a luta pela fatia esse ano vai ser muito difícil”, diz.

Nesse tabuleiro, a aposta da Renault é clara: carregar o Koleos como cartão de visitas de uma nova fase, menos obcecada por volume e mais interessada em valor — para o cliente, para a marca e para o balanço.

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