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Após Queda das Ações, CEO da Ferrari Diz Que Primeiro Elétrico Já Tem Pedidos

Benedetto Vigna disse que o Luce recebeu pedidos e transferências bancárias

6 min

A Ferrari passou os últimos dias tentando mudar o eixo da conversa sobre o Luce, seu primeiro carro 100% elétrico. Depois de uma estreia cercada por críticas ao desenho, queda das ações e resistência de parte do ecossistema histórico da marca, o presidente-executivo Benedetto Vigna afirmou que o modelo já desperta “forte interesse” de clientes antigos e novos – e que a empresa já recebeu transferências bancárias de compradores.

A fala é relevante porque tenta reposicionar a narrativa de um lançamento que, no primeiro momento, foi lido mais como choque estético e simbólico do que como avanço industrial. O Luce, revelado em Roma por 550 mil euros, representa a entrada da Ferrari em uma nova etapa tecnológica, mas a reação inicial expôs um desconforto que foi além do mercado financeiro. Algumas críticas nas redes sociais apontaram que o carro não parecia uma Ferrari. Vigna reagiu dizendo que quem vir e experimentar o modelo entenderá que ele não foi copiado e que não tem nada em comum, em interior, exterior e desempenho, com outros elétricos já vistos no mercado.

O contexto ajuda a explicar por que a fala do CEO ganhou peso. Na terça-feira (26), logo depois da apresentação, as ações da Ferrari em Milão caíram 8,37%. Nos Estados Unidos, os papéis recuaram 5,3%. No pregão seguinte, em Milão, ainda houve leve baixa de 0,3%. Em doze meses, as ações negociadas na bolsa italiana acumulavam queda superior a 32%.

Por que o mercado reagiu mal

A leitura dominante para a queda das ações combinou dois elementos. O primeiro foi a recepção negativa ao design. O segundo foi um movimento clássico de bolsa: depois de um período de valorização antes do lançamento, parte do mercado aproveitou a estreia para realizar lucros. Analistas associaram a reação a essa mistura entre crítica estética e perda de fôlego de um papel que já havia subido de forma relevante antes do evento.

A repercussão piorou porque ganhou vozes simbólicas. O ex-presidente Luca di Montezemolo, uma das figuras mais associadas à história moderna da Ferrari, chamou o carro de vergonha para a marca e disse esperar que retirassem o cavalo empinado da dianteira do modelo. A Ferrari se recusou a comentar a declaração.

Na avaliação do consultor automotivo Milad Kalume Neto, o maior problema não foi exatamente o fato de o carro ser elétrico. “O que eu vi das pessoas falando muito não que não tanto elétrico, mas mais o design”, afirmou. Para ele, o modelo tem “um design polêmico”, que “se aproxima muito do mercado chinês e não é um design típico de uma Ferrari”.

Milad vê sentido no raciocínio de a Ferrari mirar a China, hoje o maior mercado automotivo do mundo, com mais de 30 milhões de vendas anuais, mas considera delicado o equilíbrio entre essa estratégia e a imagem global da marca.

“A apresentação de uma Ferrari, focando no mercado chinês, faz todo sentido”, disse. Ao mesmo tempo, ele pondera que as críticas públicas de nomes como Montezemolo têm peso real sobre a percepção do mercado. “Ele querendo ou não representa a marca de uma forma bem importante. Acho que tudo isso tem que ser ponderado.”

O que Vigna disse agora

Foi nesse ambiente que Vigna apareceu para defender o carro. Segundo ele, o Luce tem despertado interesse forte de clientes que já compram Ferrari e também de compradores novos. A marca mostrou o modelo a 1.600 clientes durante o lançamento em Roma, na segunda (25) e na terça-feira, e abriu a carteira de pedidos na quarta (27). “Já recebemos transferências bancárias, os clientes que estavam lá o querem”, afirmou. Os números exatos de encomendas, segundo ele, serão divulgados em julho, junto com os resultados do segundo trimestre.

O executivo também procurou enquadrar o Luce não como ruptura, mas como ampliação de gama. Disse que o carro é um acréscimo à linha da Ferrari e que a empresa seguirá oferecendo modelos a gasolina e híbridos. Ao comentar o preço, defendeu que a inovação justifica o valor cobrado.

O carro em si

Se a reação inicial foi dura, a ficha técnica do Luce foi construída para mostrar que a Ferrari não entrou na eletrificação de forma tímida. O modelo usa uma plataforma própria, acomoda quatro portas e cinco lugares e foi desenvolvido em parceria com a LoveFrom, coletivo criativo de Jony Ive e Marc Newson. A proposta combina nova linguagem visual, mais espaço interno e um nível de integração tecnológica incomum mesmo para padrões elevados da indústria.

O carro tem 5.026 mm de comprimento, 1.999 mm de largura, 1.544 mm de altura e 2.961 mm de entre-eixos. Pesa 2.260 kg, traz porta-malas de 597 litros e distribuição de peso de 47% na dianteira e 53% na traseira. As rodas são de 23 polegadas na frente e 24 polegadas atrás, as maiores já aplicadas em um Ferrari de produção em série.

Por dentro, o Luce combina comandos mecânicos, telas OLED desenvolvidas com a Samsung Display, alumínio reciclado anodizado, Corning Gorilla Glass e couro premium. O sistema de som tem 21 alto-falantes, 24 canais e 3.000 W de amplificação.

A parte mais extrema do projeto está na engenharia. O Luce usa quatro motores elétricos, um em cada roda, e uma bateria de 122 kWh em arquitetura de 800 V. A potência máxima chega a 1.050 cv, com torque máximo de 11.500 Nm nas rodas. A Ferrari informa aceleração de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, de 0 a 200 km/h em 6,8 segundos, velocidade máxima de 310 km/h e autonomia estimada superior a 530 km. A recarga rápida pode atingir 350 kW.

A marca afirma ainda que o projeto gerou mais de 60 novas patentes e que o Luce integra sua estratégia multi-energy, sem substituir os motores híbridos ou a combustão.

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