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Como o Mercado Passou a Avaliar a Ferrari Luce após a Reação Negativa Inicial dos Investidores

Analistas avaliam que o primeiro elétrico da Ferrari ainda pode preservar margens elevadas e encontrar espaço dentro da estratégia da marca

6 min

As ações da Ferrari se estabilizaram depois que o estilo surpreendente de seu primeiro veículo elétrico assustou os investidores. Os analistas estão, em sua maioria, positivos em relação ao impacto que o Luce terá na capacidade da fabricante italiana de supercarros de gerar lucros típicos de uma empresa de bens de luxo, em vez da luta típica das montadoras que lidam com metal para permanecer no azul.

O lançamento também foi visto como um importante indicativo de como marcas de luxo e performance como Lamborghini e Aston Martin vão lidar com a transição para os EVs.

Quando novas Ferraris são reveladas, as descrições costumam seguir a linha de como a máquina é irresistível, sexy e de beleza de tirar o fôlego. O Luce confrontou todos esses precedentes com seu visual suave e discreto, provocando uma queda de mais de 8% no preço das ações e gritos de angústia entre os tradicionalistas.

O ex-presidente da Ferrari Luca di Montezemolo disse que a Ferrari corre o risco de destruir uma lenda, mas pelo menos os chineses não vão copiá-lo. “Espero que ao menos retirem o cavalo empinado (logotipo) daquele carro”, disse ele. O ministro dos Transportes da Itália, Matteo Salvini, afirmou que o Luce era “qualquer coisa, menos um carro do Cavalo Empinado”. Um crítico disse que o Luce parecia mais um Nissan Leaf de mercado de massa, talvez a coisa mais gentil já dita sobre o carro que iniciou o movimento em direção aos EVs convencionais.

A coluna Lex, do Financial Times, disse que a negatividade em torno do novo Luce foi exagerada.

Risco limitado de queda

“Os comentaristas podem estar certos ou errados sobre o apelo comercial do Luce. Mas a reação dos investidores esteve muito fora de curso. A avaliação da Ferrari, que voltou à realidade com um baque ao longo do último ano, se sustenta mesmo que o Luce acabe sendo um beco sem saída, e mesmo que a fabricante de carros esportivos nunca descubra uma estratégia viável para veículos elétricos. Seu novo empreendimento é, portanto, uma opção com risco limitado de queda”, disse a Lex.

As ações da Ferrari caíram cerca de 30% no último ano, com a maior queda ocorrendo em outubro passado, quando a empresa forneceu estimativas de lucro que os investidores interpretaram, de forma equivocada, como um sinal de que a longa era de superlucros poderia estar chegando ao fim. Os investidores haviam se acostumado com a empresa fornecendo estimativas conservadoras que superava com facilidade. As ações se estabilizaram desde janeiro e vêm oscilando em torno de €330 na bolsa de Milão. Na terça-feira (2), os papéis na Europa fecharam em alta de quase 2%, a €304,30.

O banco alemão Berenberg disse que, embora o Luce represente uma aposta enorme, ele não precisa vender tantas unidades assim para dar certo.

Capturar um pequeno número de compradores de mente aberta

“Como a maioria dos analistas projeta menos de 1.000 unidades, a Ferrari só precisa capturar um pequeno número de compradores ricos e de mente aberta para atingir as estimativas”, disse o banco em relatório. A Ferrari vende cerca de 14.000 veículos por ano.

“Estamos inclinados a ignorar o barulho nas redes sociais e focar no retorno de concessionários e clientes nas próximas semanas; no momento, não vemos razão para mudar nossa visão sobre os fundamentos da tese de investimento (na Ferrari)”, disse o banco, que classifica a Ferrari como “Compra”. O banco não tinha certeza sobre sua projeção para o Luce em 2027.

“Antes da apresentação, projetávamos 25 embarques do Luce no quarto trimestre de 2026 e 1.000 em 2027, em comparação com 2,5 a 3 mil do próximo modelo da gama com menor volume. Ainda é cedo demais para determinar, mas o retorno imediato após o lançamento sugere maior risco de queda para nossa projeção de embarques em 2027”, disse o banco.

O banco de investimento UBS também considerou que a controvérsia inicial em torno do lançamento era um falso sinal. O UBS acredita que os EVs serão uma extensão complementar da gama, e não uma mudança fundamental.

Estratégia disciplinada, guiada pela escassez

“Acreditamos que uma evolução mais gradual da marca pode ser preferível a uma transformação brusca, particularmente dado o risco de reações menos favoráveis dos clientes a lançamentos futuros. Com um pipeline mais amplo pela frente (três novos lançamentos em 2026), esperamos que a Ferrari continue equilibrando a aquisição de novos clientes com sua estratégia disciplinada, guiada pela escassez”, disse o UBS em relatório.

“Importante destacar que, do ponto de vista de margem, o Ferrari Luce parece alinhado com os outros modelos de linha. Embora a Ferrari não tenha divulgado metas específicas de volume, esperamos que o ciclo de vida do produto seja consistente com o de um modelo típico de linha, em torno de 4 a 5 anos”, disse o UBS. O UBS também classifica a Ferrari como “Compra”.

O professor David Bailey, da Birmingham Business School, não tem certeza se o Luce será um sucesso e diz que ele tem alguns obstáculos a superar.

Marcas de luxo e performance enfrentam a mesma questão

“A verdadeira questão aqui é se a Ferrari consegue preservar seu apelo emocional em uma era elétrica. A empresa precisa convencer os compradores de que a emoção não depende inteiramente do ruído do motor. Em vez disso, ela precisará criar novas formas de engajamento por meio de design, desempenho, tecnologia e dinâmica de condução. Esse desafio não é exclusivo da Ferrari. Toda fabricante de luxo e performance enfrenta a mesma questão à medida que a indústria automotiva evolui”, disse Bailey.

“O que é certo é que o primeiro EV da Ferrari marca um dos momentos mais importantes da história da empresa. O sucesso ou fracasso desse modelo pode influenciar não apenas o futuro da Ferrari, mas também a forma como outras marcas de luxo e performance abordarão a transição para os veículos elétricos”, disse Bailey.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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