A BYD já aprendeu a disputar volume no Brasil. Agora, prepara uma operação para brigar pelo outro extremo do mercado. Em 2027, o grupo chinês vai trazer ao país a Yangwang, marca criada para ocupar o topo de sua pirâmide e disputar um consumidor acostumado a automóveis que ultrapassam facilmente a barreira de R$ 1 milhão. Ela ficará acima da Denza e terá identidade própria, modelos específicos e até uma rede de concessionárias separada.
“O Yangwang faz parte do grupo BYD como a marca de ultraluxo, da parte absolutamente mais premium que existe. Ele está acima da Denza”, explica Werner Schaal, diretor comercial da Denza.
A escolha é significativa. Enquanto a Denza avança sobre o mercado premium, a Yangwang será posicionada em uma faixa frequentada por nomes como McLaren, Aston Martin, Bentley e Rolls-Royce. Os pontos de venda não serão compartilhados entre as duas marcas.
Até o nome será preservado. Em vez de adotar uma denominação ocidentalizada para facilitar a pronúncia, a operação brasileira deverá manter Yangwang, como na China.
Acima da Denza
A separação entre as marcas ajuda a entender a estratégia do grupo. A Denza já ocupa uma posição superior à BYD tradicional e prepara produtos de preço elevado — o esportivo elétrico Denza Z, por exemplo, tem valor estimado em cerca de R$ 1,5 milhão no Brasil, conforme antecipado pela Forbes Brasil.
Mesmo assim, a Yangwang ficará acima dela. “Vai coexistir com as outras marcas do grupo, mas não terá interferência entre elas”, diz Schaal.
A estratégia exige mais do que simplesmente aumentar potência e preço. No ultraluxo, a BYD precisará disputar também design, exclusividade, atendimento e percepção de marca — territórios nos quais fabricantes europeias construíram reputação durante décadas.
Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, mostrou à Forbes Brasil, durante o Goodwood Festival of Speed, em julho, que o grupo está olhando justamente para esse universo.
Ela contou que equipes de design foram enviadas para observar empresas como Gucci e Prada, fornecedores italianos de couro premium e a joalheria Chopard.
A intenção, segundo a executiva, é fazer engenheiros e designers entrarem em contato com referências que não vêm necessariamente da indústria automobilística.
Tecnologia como argumento de luxo
Se marcas tradicionais construíram parte de seu valor sobre história e artesanato, a Yangwang usa a tecnologia como um dos pilares para justificar sua entrada nesse território. Para Stella Li, essa é justamente a razão pela qual a BYD acredita ser capaz de criar uma marca premium.
“Por que a BYD pode ter confiança para construir uma marca premium? Por causa da tecnologia”, afirmou. A executiva destacou a estrutura de mais de 120 mil profissionais de pesquisa e desenvolvimento do grupo como uma das bases dessa estratégia.
Essa lógica aparece de forma clara nos dois modelos que já dão corpo à Yangwang. Um deles aposta naquilo que tradicionalmente define um grande SUV de luxo. O outro tenta redefinir o que se espera de um superesportivo elétrico.

U8: um SUV de 1.200 cv que pode flutuar
O Yangwang U8 é um SUV de grandes dimensões que utiliza quatro motores com controle independente das rodas.
O conjunto entrega 1.200 cv e permite acelerar de zero a 100 km/h em 3,6 segundos. O controle individual de torque também foi desenvolvido para ajudar a manter o veículo estável mesmo em situações como a perda de pressão de um pneu.
Mas é outra capacidade que transformou o U8 em vitrine tecnológica. Em situações extremas, como enchentes ou travessias fora de estrada, o SUV pode permanecer flutuando por até 30 minutos. O recurso é tratado como uma solução emergencial, não como uma função destinada ao uso recreativo.
A bateria aceita carregamento rápido em corrente contínua de até 110 kW, suficiente para levar a carga de 30% a 80% em 18 minutos. O sistema V2L também permite usar até 6 kW da energia do automóvel para alimentar equipamentos externos.
Por dentro, o U8 segue a lógica de excesso tecnológico. Há uma tela OLED central curva de 12,8 polegadas, duas telas de 23,6 polegadas para motorista e passageiro, bancos revestidos em couro Nappa, madeira Sapele e sistema de áudio Dynaudio com 22 alto-falantes.
U9: o superesportivo que virou vitrine da engenharia
No outro extremo está o U9, superesportivo elétrico que também utiliza quatro motores. Schaal confirma o modelo entre os produtos destinados à nova marca, ao lado do U8. A versão mais extrema mostra até onde a engenharia pode chegar.
O U9 Xtreme utiliza uma plataforma elétrica de 1.200 volts, quatro motores capazes de girar a até 30 mil rpm e entrega mais de 3.000 cv.
Em testes realizados na Alemanha, o modelo atingiu 496,22 km/h, recorde mundial para um carro de produção. Antes disso, havia alcançado 472,41 km/h em outra tentativa e completado uma volta no icônico circuito Nürburgring Nordschleife em 6min59,157s, rompendo a barreira dos sete minutos.
A produção do U9 Xtreme será limitada a 30 unidades. Um dos compradores confirmados é brasileiro: Leo Sanchez, piloto e proprietário da farmacêutica EMS.
Loja em São Paulo
A futura operação brasileira deverá começar com uma flagship em São Paulo e apresentar inicialmente os dois produtos: U8 e U9. O grupo não está tratando a nova marca simplesmente como uma divisão de elétricos mais caros, mas como uma operação independente voltada para o topo do luxo automotivo.
Criada em 2023, a Yangwang ocupa o ponto mais alto da estrutura de marcas da BYD. Seu nome pode ser traduzido do mandarim como algo próximo de “olhar para cima” ou “admirar”, o que ajuda a explicar onde quer chegar.