A indústria automobilística europeia enfrenta uma transformação que vai muito além do carro elétrico. Enquanto as fabricantes revisam seus custos, ajustam seus quadros de funcionários e estudam o que fazer com suas fábricas menos rentáveis, o aumento das necessidades militares na Europa abre uma oportunidade de negócio inesperada: aproveitar a capacidade industrial do setor automotivo para fabricar veículos, equipamentos e tecnologias destinados à defesa.
Volkswagen, Renault e Mercedes-Benz estão entre os grupos que exploram diferentes alternativas para se aproximar desse mercado, desde a conversão de instalações até a adaptação de plataformas civis para aplicações militares. O movimento conecta duas indústrias que compartilham uma exigência fundamental: produzir tecnologias complexas em larga escala, com processos eficientes e capacidade para atender a uma demanda crescente.
Fábricas em crise, uma segunda vida ligada à defesa
O caso mais significativo é o da Volkswagen, que chegou a um acordo preliminar para vender sua fábrica de Osnabrück ao fundo de investimentos israelense Aurelius Capital, com a intenção de transformar as instalações em um centro de produção de armamentos.
A operação faz parte da profunda reestruturação da fabricante alemã, que estuda oferecer aos trabalhadores afetados pelos ajustes postos de trabalho, por um período máximo de dois anos, em empresas dos setores de defesa e aeroespacial.
A iniciativa é atribuída, em particular, à Audi, no âmbito da gestão da capacidade de seu quadro de funcionários. O pano de fundo é uma crise industrial que obrigou o grupo a repensar o tamanho de sua estrutura produtiva e o futuro de algumas de suas instalações históricas.
A dimensão dos cortes ajuda a entender por que o setor de defesa surge como alternativa. A Volkswagen anunciou planos para eliminar cerca de 100 mil empregos em todo o mundo, dos quais 50 mil seriam na Alemanha.
Além disso, a empresa estuda o futuro de quatro fábricas alemãs: Hannover, Zwickau, Emden e Neckarsulm, esta última ligada à produção da Audi.
Ainda não foi tomada uma decisão definitiva sobre o destino dessas fábricas, mas a possibilidade de redirecionar parte de suas atividades reflete a pressão enfrentada pelo setor.
A queda das vendas nos Estados Unidos e na China, a concorrência de novas fabricantes na Europa, com modelos mais modernos e preços agressivos, e as exigências regulatórias relacionadas às emissões reduziram a margem de manobra dos grupos tradicionais.
Nesse contexto, a indústria militar pode oferecer uma alternativa para parte da capacidade produtiva de que o setor automotivo já não necessita.
Renault e Mercedes também exploram o mercado militar
A aproximação com o setor de defesa não se limita à conversão de fábricas. A Renault avançou na colaboração tecnológica com a empresa francesa Thales, com o objetivo de integrar à arquitetura eletrônica dos veículos da fabricante tecnologias desenvolvidas pelo grupo especializado em defesa.
A parceria ilustra como o conhecimento acumulado na indústria automobilística pode encontrar aplicações em sistemas militares, especialmente em áreas nas quais a eletrônica, a conectividade e a integração de componentes desempenham um papel cada vez mais importante.
Em vez de transferir diretamente a produção de automóveis para a fabricação de armamentos, esse modelo permite aproximar capacidades industriais e tecnológicas que podem ser úteis para atender às necessidades de defesa.
A Mercedes-Benz, por sua vez, está intensificando suas atividades nesse segmento por meio de uma colaboração com a empresa alemã de tecnologia Tytan Technologies.
O projeto busca adaptar dois veículos conhecidos de seu portfólio, o SUV Classe G e a van Sprinter, para transformá-los em plataformas móveis destinadas à interceptação de drones hostis.
A iniciativa evidencia outra possibilidade de entrada no mercado militar: utilizar veículos concebidos para aplicações civis como base para desenvolver soluções específicas.
A robustez de determinadas plataformas, a experiência em fabricação e a capacidade de produzir unidades de maneira eficiente podem se tornar ativos valiosos quando as Forças Armadas precisam incorporar novos equipamentos em prazos reduzidos.
A vantagem industrial do setor automotivo
O interesse das fabricantes ocorre em um momento em que a Europa busca fortalecer sua autonomia em defesa e reduzir sua dependência de fornecedores externos.
A estratégia comunitária consiste em acelerar o desenvolvimento das capacidades militares do continente e ampliar a possibilidade de fabricar equipamentos próprios, além de adquiri-los nos mercados internacionais.
Não se trata apenas de dispor de mais armamentos, mas também de contar com cadeias de fornecimento capazes de produzir, manter e renovar sistemas rapidamente.
Nesse cenário, a indústria automobilística oferece uma experiência difícil de reproduzir no curto prazo: produção em série, organização de grandes fábricas, gestão de fornecedores e processos industriais voltados à redução de custos e prazos.
Para os grupos automotivos, a diversificação também pode se tornar uma ferramenta para enfrentar a transformação de seu negócio principal.
A transição para os veículos elétricos, a pressão competitiva das fabricantes chinesas e a necessidade de ajustar as estruturas produtivas obrigam as empresas a buscar alternativas para aproveitar melhor os ativos existentes.
Redirecionar uma fábrica ou aproveitar tecnologias desenvolvidas para veículos civis não garante, por si só, a rentabilidade, já que os contratos de defesa possuem exigências específicas e demandam adaptações técnicas, certificações e novos clientes.
No entanto, essa possibilidade abre caminho para preservar parte das atividades e dos empregos quando as linhas tradicionais perdem volume de trabalho.
A fronteira entre a indústria automobilística e a de defesa começa, assim, a se tornar mais permeável, embora as iniciativas da Volkswagen, Renault e Mercedes sigam modelos diferentes e não representem uma conversão generalizada do setor.
Em alguns casos, a oportunidade está em dar uma nova utilização a instalações subutilizadas; em outros, em transferir tecnologias ou adaptar plataformas já existentes.
O denominador comum é a busca por novas aplicações para capacidades industriais que exigiram décadas de investimentos e desenvolvimento.
As fábricas que, durante gerações, se dedicaram a colocar milhões de motoristas nas estradas europeias poderão agora desempenhar um papel na segurança do continente.
Para uma indústria obrigada a se reinventar, o setor de defesa surge como uma alternativa que combina necessidade estratégica e oportunidade empresarial.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.es