Quando Luis de la Fuente assumiu a seleção principal da Espanha, em dezembro de 2022, encontrou um grupo frustrado pela eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo daquele ano. Também ocupava o lugar de Luis Enrique, um treinador já reconhecido internacionalmente e que se tornaria bicampeão da Champions League com o Paris Saint-Germain.
De la Fuente, por outro lado, ainda era desconhecido para boa parte do público internacional. Não tinha uma extensa trajetória no comando de grandes clubes nem chegava ao cargo cercado pelo mesmo prestígio de seu antecessor. Seu principal patrimônio estava dentro da própria Federação Espanhola de Futebol.
O treinador já conhecia a instituição, o modelo de formação do país e, principalmente, muitos dos jogadores que encontraria na equipe principal. Antes de dirigir estrelas, ele havia ajudado a formá-las.
Quatro anos depois, o trabalho terminou com o título da Copa do Mundo de 2026. No último domingo (19), a Espanha venceu a Argentina por 1 a 0, em Nova Jersey, e conquistou o segundo Mundial de sua história.
A taça encerrou um ciclo no qual a seleção também conquistou a Eurocopa. Mas a história de De la Fuente com os campeões começou muito antes.
Um treinador formado dentro da seleção
Luis de la Fuente chegou à Federação Espanhola em 2013 para comandar a seleção sub-19. Depois, passou pelas equipes sub-21 e olímpica até assumir o time principal, em 2022.
Ao longo desse caminho, acompanhou o desenvolvimento de jogadores que mais tarde se tornariam parte da espinha dorsal da Espanha, como Unai Simón, Marc Cucurella, Rodri, Fabián Ruiz, Dani Olmo, Pedri e Mikel Merino.
Alguns passaram por suas mãos ainda adolescentes. O zagueiro Jesús Vallejo, capitão de equipes campeãs dirigidas pelo treinador nas categorias de base, já afirmou que uma das razões do sucesso de De la Fuente é conhecer vários desses atletas desde os 15 anos.
O tempo de convivência permitiu ao técnico entender não apenas as características esportivas de cada jogador, mas também suas personalidades e particularidades fora do campo. A relação construída durante a formação continuou presente na seleção principal.
Em 2026, aos 65 anos, De la Fuente passou a exercer uma espécie de papel de ‘pai’ para os 26 jogadores convocados para o Mundial. Uma postura que ficou evidente durante a competição, especialmente no tratamento dado a Lamine Yamal.
Antes da goleada por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita, pela segunda rodada, o treinador foi questionado sobre as comparações entre o jovem espanhol e nomes como Lionel Messi e Diego Maradona. A resposta de De la Fuente foi de proteção.
“O maior erro seria compará-lo a Messi e Maradona. Ele está em processo de formação e ainda tem muito caminho de maturidade pela frente. Para nós e para ele próprio, é um a mais, e essa é uma grande virtude”, afirmou.
“Temos de ajudá-lo se queremos desfrutar dele. O jeito de ajudar é acompanhar o processo de formação, e nós, que somos pais, sabemos disso. Sem invadir o espaço dele, mas acompanhando.”
Yamal havia disputado seus primeiros minutos em uma Copa do Mundo no empate sem gols contra Cabo Verde. Na partida seguinte, foi titular pressionado pela expectativa de assumir o protagonismo e ajudar a Espanha a conseguir sua primeira vitória.
Dentro da seleção, porém, encontrava a paciência de De la Fuente. Apoiado pelo treinador, o jogador abriu o placar contra os sauditas e iniciou a goleada espanhola.
Das categorias de base ao título mundial
A proximidade com a geração espanhola não foi construída apenas por meio da convivência. Ela também foi acompanhada por resultados.
De la Fuente foi campeão europeu com as seleções sub-19 e sub-21. Também comandou a equipe olímpica nos Jogos de Tóquio, em 2021, quando a Espanha perdeu a final para o Brasil.
Durante a campanha até o Mundial, a Espanha também alcançou 38 partidas sem perder, igualando a maior invencibilidade de uma seleção na história.
A última derrota espanhola aconteceu em março de 2024, quando a equipe perdeu por 1 a 0 para a Colômbia em um amistoso disputado em Londres. Desde então, foram 29 vitórias e nove empates, com 95 gols marcados e 28 sofridos.
Uma final dominada pela Espanha
Na decisão contra a Argentina, a Espanha finalizou 20 vezes e pressionou durante praticamente toda a partida. A seleção argentina teve apenas duas finalizações e não acertou nenhuma no alvo.
Apesar do domínio, a equipe espanhola encontrou dificuldades para superar o goleiro Emiliano “Dibu” Martínez. O gol do título só saiu no início do segundo tempo da prorrogação, marcado por Ferran Torres.
“Acho que a partida deveria ter sido decidida bem antes. As intervenções do Dibu nos impediram de vencer mais cedo. É uma final de Copa do Mundo e você precisa sofrer, mesmo contra um adversário com 10 homens. Estávamos preparados para tudo”, declarou De la Fuente.
Depois da conquista, o treinador voltou a destacar a geração que acompanhou durante parte de sua formação.
“Sinto muito orgulho desta geração de jogadores, que cresceu fiel a uma visão e deu forma a ela. São atletas de talento excepcional, e é uma honra trabalhar com eles. É uma geração que serve de exemplo para o esporte e para a juventude da Espanha”, afirmou.
Uma carreira construída longe dos holofotes
Como jogador, De la Fuente atuou como lateral-esquerdo por Athletic Bilbao, Sevilla e Alavés entre 1978 e 1994. Iniciou a carreira de treinador em 1997, no Portugalete, e depois comandou equipes de base do Athletic Bilbao.
Em 2011, teve uma curta passagem pela equipe principal do Alavés. Dois anos mais tarde, iniciou o trabalho que definiria sua trajetória ao assumir a seleção espanhola sub-19.
Foram quase dez anos entre as categorias de base, a equipe sub-21 e a seleção olímpica antes da chegada ao principal cargo do futebol espanhol. Em vez de construir sua reputação em grandes clubes, De la Fuente cresceu dentro da estrutura da seleção.
A experiência permitiu que chegasse ao comando da equipe principal já conhecendo boa parte dos atletas, o ambiente da federação e o projeto esportivo do país.
Por isso, a conquista de 2026 é também o resultado de uma história iniciada 13 anos antes. De la Fuente não encontrou uma geração pronta. Ele acompanhou seu crescimento, participou de sua formação e, por fim, conduziu seus antigos jovens jogadores ao título mais importante do futebol.