Alix Earle tem 25 anos, é loira, olhos azuis, cintura finíssima, pin-up vibes e aquela estética de garota americana que parece ter sido gerada por IA para o Instagram. Virou fenômeno no TikTok, já foi apontada pelos tabloides como possível affair de Tom Brady e acaba de ganhar seu próprio reality, “Earle Meets World”.
Quando a Interview perguntou qual tinha sido o último livro que ela leu, Alix respondeu que nunca havia lido nenhum. Talvez uma exceção: “Tipo, quem sabe Dr. Seuss.”
Para os haters que sempre a enxergaram pelo velho estereótipo da loira burra, fazia todo sentido. Outros acharam difícil acreditar que uma menina formada em Administração pela University of Miami pudesse ter atravessado escola e faculdade sem jamais ler um livro. Teve ainda quem achasse tudo uma estratégia estranha para gerar engajamento.
A essa altura, ela certamente já recebeu uma enxurrada de recomendações literárias não solicitadas, então vou poupá-la das minhas.
Prefiro dizer obrigada, Alix.
Você colocou livros e leitura no centro de algoritmos aos quais, muito provavelmente, eles jamais teriam chegado sozinhos.
Em 2014, Alix devia ter uns 13 anos. Foi justamente naquele ano que eu estava grávida da minha filha, Eduarda, guardando meus saltos altos para transformar o closet em quarto de bebê e entrando em pânico. O mundo inteiro parecia falar em tweets e hashtags. Como minha filha um dia teria vontade de ler um livro se nunca visse os próprios pais virando páginas?
Doze anos depois, Alix, que muito provavelmente cresceu como boa parte de sua geração, vendo os pais cada um hipnotizado pela própria tela, foi massacrada na televisão e nas redes sociais por não ler.
Mas há uma ironia aí: os influenciadores que fazem questão de mostrar o quanto leem também estão sendo criticados, acusados de performative reading, uma espécie de leitura performática para as redes.
Enquanto isso, as livrarias estão vivendo um renascimento. Nos Estados Unidos, o número de empresas do setor cresceu 70% entre 2021 e 2025, e quase três em cada quatro livreiros disseram ter vendido mais no ano passado. Ao mesmo tempo, apenas cerca de 16% dos americanos leem por prazer em um dia qualquer, contra 27% em 2005.
Ao que tudo indica, estamos comprando muito mais livros do que efetivamente lendo.
Curiosamente, na semana passada, o Brasil teve seu próprio momento literário viral. Gustavo Scarpa, meio-campista do Atlético Mineiro, apareceu em um Reel no Instagram segurando “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói. Bastou. Um clássico russo do século XIX entrou no algoritmo do futebol brasileiro e virou o livro mais vendido da Amazon Brasil. Edições se esgotaram.
Carolina Marques, torcedora do Galo de 22 anos que sonha em ser professora, criou então o Galeitura, um clube do livro para atleticanos. Foram 400 membros nas primeiras 24 horas. Hoje, a página já tem mais de 100 mil seguidores.
De um lado, um momento que desdenhou da leitura. Do outro, um gesto que a celebrou. Os dois foram espontâneos, os dois viralizaram e os dois fizeram a mesma coisa: colocaram livros no centro de conversas onde, até então, eles dificilmente estariam.
E, na economia da atenção de três segundos, numa sociedade viciada em doomscrolling, não seria esse um belo ponto de partida?
Talvez, quando o assunto é leitura, realmente valha o velho “falem mal, mas falem de mim”. Falar sobre ler, ou até sobre não ler, já é uma maneira de mudar o algoritmo.
E isso me leva a outra questão: qual é exatamente o problema de colecionar livros?
As pessoas colecionam relógios e bolsas. Colecionam também figurinhas de futebol, discos, selos. Celebridades abrem seus closets gigantescos para câmeras. De alguma forma, acumular bolsas de luxo ou álbuns inteiros de figurinhas é perfeitamente aceitável. Por que uma estante cheia de livros que ainda não lemos deveria ser diferente?
Aí entra o desfile da Valentino, hoje em Paris.
Muitas casas de moda já vêm flertando com a literatura. A Saint Laurent abriu uma livraria. A Miu Miu criou um clube literário. As leitoras da Vogue americana estão lendo Jane Austen. Mas talvez a Valentino esteja fazendo o comentário mais interessante de todos.
O convite pedia aos convidados que levassem um livro, novo ou retirado da própria estante, para ser doado a bibliotecas públicas de Paris e de outras cidades por meio da Bibliothèques Sans Frontières.
Confesso que, num primeiro momento, me pareceu um pouco bookwashing. Mas, como estou justamente tentando argumentar aqui, talvez isso nem importe.
Conhecendo a maison e tendo tido a honra de conhecer o lendário Valentino Garavani, eu torcia para que houvesse algo a mais ali.
Então, hoje de manhã, encontrei um post da Valentino no Instagram e me arrepiei.
O desfile, realizado na Bibliothèque Sainte-Geneviève, chama-se Antibiblioteca e parte de uma ideia de Nassim Nicholas Taleb. Em “A Lógica do Cisne Negro”, ele conta a história da biblioteca pessoal de Umberto Eco, formada por cerca de 30 mil livros.

Segundo Taleb, Eco dividia seus visitantes em dois grupos. A maioria entrava, olhava maravilhada e perguntava: “Uau, professor Eco, que biblioteca! Quantos desses livros o senhor já leu?”
Uma minoria muito pequena entendia que uma biblioteca não era um acessório para alimentar o ego, mas uma ferramenta de pesquisa.
Para Taleb, os livros já lidos têm muito menos valor do que aqueles que ainda não lemos. Ao conjunto desses livros à nossa espera, ele deu o nome de antilibrary, a antibiblioteca.
A Valentino então olha para o Japão, que talvez tenha uma das relações mais fascinantes com a leitura.
Tsundoku é o hábito de comprar livros e deixá-los se acumularem sem serem lidos. O que parece procrastinação, diz a maison Valentino, pode ser outra coisa: “uma promessa de felicidade guardada na expectativa”.
E vem, então, a confissão da própria moda.
Algumas das roupas que vemos numa passarela jamais serão usadas, da mesma forma que alguns dos livros em nossas estantes talvez nunca sejam abertos. Ainda assim, diz a Valentino, ambos “nos falam das vidas que poderíamos ter vivido. Não como arrependimentos, mas como promessas”.
Quando li isso, pensei em Alix.
Todo mundo perguntando quantos livros ela já leu estava, no fundo, fazendo a pergunta que faziam a Umberto Eco.
Talvez a pergunta mais interessante seja outra: quais são os livros que ainda estão esperando por ela?
Também duvido que Karl Lagerfeld tenha lido todos os cerca de 300 mil livros que chegou a reunir em sua biblioteca. Mas tenho a sensação de que viver cercado por eles o inspirou mesmo assim.
Por isso, em vez de julgar uma jovem linda, extremamente bem-sucedida e, pelo pouco que conheci dela socialmente algumas vezes, genuinamente doce, prefiro observar o quanto este momento é curioso.
Ser associado a livros ficou tão pop que parece quase ter se tornado indispensável para uma marca pessoal. Ótimo. Que seja.
Portanto, compre livros. Dê livros. Leia livros. Colecione livros. Deixe alguns esperando na mesa de cabeceira e outros intocados na estante. Aumente a sua antibiblioteca.