Influenciadores ou criadores? Atualmente, referir-se a um profissional que produz conteúdo em plataformas digitais gera dúvidas. Qual é a nomenclatura correta? E quais são as regras estabelecidas para considerar esse trabalho ético? Uma pesquisa desenvolvida pelo centro de pesquisas Reglab, em parceria com a organização Redes Cordiais, buscou compreender não apenas o desafio das nomenclaturas, mas também as complexidades por trás dessa dualidade.
O estudo Vozes da Influência ouviu 24 criadores digitais que, em conjunto, somam mais de 90 milhões de seguidores em suas redes sociais. Por trás da falta de regulamentação ou de formalidades da profissão, os entrevistados apontam problemas como a saúde mental e a exposição ao ambiente tóxico da internet. Segundo Isabela Afonso Portas, pesquisadora do Reglab, o recorte permitiu um olhar mais completo sobre a identidade profissional desse público e uma desconstrução de estigmas sobre como os criadores percebem questões como riscos reputacionais e relações com outros agentes do meio, a exemplo de agências e plataformas.
Os criadores entrevistados, em sua maioria profissionais consolidados e com longa trajetória, admitem que há uma percepção do público de que a profissão se tornou um símbolo de ascensão social. Ao mesmo tempo, o estudo aponta que a rotina profissional é marcada por uma pressão constante por resultados e visibilidade. A exigência por engajamento e a exposição a ambientes digitais hostis foram citadas como fatores que impactam diretamente a saúde mental, levando muitos criadores a buscar redes de apoio ou acompanhamento psicológico.
Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab, afirma que o estudo traz um retrato sobre o pensamento dos criadores de conteúdo digital e destaca que ouvir esses profissionais é uma forma relevante de somar ao debate público sobre uma profissão que cresce anualmente no país, exercendo um papel cada vez maior na formação cultural e na opinião pública brasileira.
“Os criadores compreenderam que ocupam o posto de novos formadores de opinião e que suas vozes possuem peso social relevante. O estudo demonstra que esses profissionais buscam parâmetros contratuais mínimos e segurança digital para que a profissão seja sustentável a longo prazo”, conforme destaca Clara Becker, diretora-executiva do Redes Cordiais.
Dados da Nielsen reforçam a importância desse mercado no Brasil, que conta com cerca de 500 mil influenciadores com mais de 10 mil seguidores, superando o número de profissionais em áreas tradicionais como a medicina e a engenharia civil. Essa densidade profissional exige, como aponta o relatório, uma transição da informalidade para uma estrutura que garanta a integridade física e mental de quem opera as engrenagens da economia da atenção.
Lei do Profissional Multimídia
Em janeiro deste ano, foi sancionada a Lei nº 15.325 que, segundo especialistas, marca a transição definitiva da criação de conteúdo digital de um fenômeno cultural para uma categoria econômica formalizada sob a designação de profissional de multimídia. Esta legislação reconhece juridicamente as atividades de produção, edição, roteirização e gestão de conteúdo em plataformas digitais. Outros países como França, Espanha e China possuem regulações para o ofício, porém, todas elas acabam sendo abrangentes como a brasileira e deixando pontos essenciais de fora.
De acordo com Marina Garrote, diretora de pesquisa do Reglab, “a Lei não atende integralmente às necessidades práticas dos influenciadores porque, embora estabeleça a figura jurídica do Profissional Multimídia para modernizar nomenclaturas na carteira de trabalho, ela ignora o ecossistema operacional e tributário onde esses criadores de fato habitam. O principal gargalo reside na ausência de um CNAE (Código Nacional de Atividade Econômica) específico, o que condena o setor a um limbo administrativo: sem um código próprio, o influenciador não consegue emitir notas fiscais que reflitam fielmente sua atividade, perde acesso a regimes tributários favorecidos e fica excluído de políticas de fomento voltadas ao microempreendedorismo.”
Essa imprecisão técnica alimenta um “apagão” estatístico que impede o Estado de mensurar um mercado que já movimenta bilhões de reais, impossibilitando a criação de políticas públicas eficazes, como programas de capacitação e segurança social, que só poderiam ser estruturados a partir de dados oficiais e de uma classificação fiscal que acompanhe a realidade da economia digital.
“A Lei do Profissional Multimídia, ainda que opaca, é um marco legal que abre espaço para que regulamentações específicas sejam apresentadas e praticadas. O debate deveria se aprofundar para além da criação de um CNAE especial, visto que o dilema real reside na capilaridade desse grupo de profissionais tão heterogêneo que nenhuma classificação única seria capaz de capturar a complexidade e a profundidade do que os criadores e influenciadores fazem. Enquanto não priorizarmos uma organização de classe que entenda as nuances entre quem produz, roteiriza e gere comunidades, continuaremos a ver o abismo entre o amadorismo e a profissionalização”, completa Ana Paula Passarelli, CEO da Brunch.