1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Concorrência À Vista: Novas Bolsas Desafiam Hegemonia da B3
Forbes Money

Concorrência À Vista: Novas Bolsas Desafiam Hegemonia da B3

Saiba como estão se estruturando cada uma das plataformas que pretendem fazer frente à bolsa oficial

10 min

Durante décadas, o mercado de capitais brasileiro foi sinônimo de B3. Da fusão da BM&F, Bovespa e Cetip nasceu um gigante verticalizado, que passou a controlar praticamente todas as etapas da negociação de ativos — da listagem de ações à compensação, liquidação e registro de dívidas. Atualmente são 357 as empresas listadas, que, juntas, somam um valor de mercado de R$ 4,49 trilhões.

O número parece grande, porém, esse bolo está bem aquém dos R$ 23,7 trilhões do valor de mercado da Nvidia, a empresa mais valiosa do mundo. Apesar disso, vários competidores se apresentaram para, em breve, disputar fatias desse bolo e, assim, romper com um dos últimos monopólios da economia brasileira: o da infraestrutura de negociação do mercado de capitais. 

Atualmente o país vive o surgimento quase simultâneo de quatro novas plataformas que prometem redesenhar essa dinâmica: Base Exchange, A5X, CSD BR e BEE4. Cada uma delas chega com um foco distinto, mas com o mesmo objetivo: quebrar a hegemonia da B3. Ainda que algumas não queiram, por ora, disputar o mercado com os mesmos serviços da bolsa oficial do Brasil, elas propagam a ideia de que o mercado de capitais em breve deverá ser mais plural, acessível e competitivo.

Se conseguirão dividir liquidez e relevância com uma infraestrutura consolidada e centenária é uma incógnita. Mas uma coisa é certa: o jogo mudou e isso já pode começar na prática já em 2026, prazo em que elas acreditam já terem vencido as barreiras da burocracia para iniciarem as operações. Fato é que a B3 já observou esse movimento no retrovisor. Tanto é que turbinou o lançamento de índices e produtos já neste ano de 2025, segundo revelou a Forbes

As candidatas a se servirem de um pedaço desse bolo trazem na bagagem investidores de peso, que incluem, entre outros, grifes como Citi, Morgan Stanley e UBS (caso da CSD); Mubadala Capital (Base); e Ideal (Itaú) e ABN Amro (A5X). A BEE4, que se coloca como uma espécie de B3 das pequenas empresas, é a irmã caçula das demais bolsas, mas nem por isso deixa de mirar alto. 

Para Alexandre Albuquerque, analista sênior da Moody’s, os novos entrantes têm diferenciais claros, sobretudo pelas parcerias internacionais. “Esse know-how global pode acelerar o amadurecimento do mercado brasileiro”, avalia o analista.

Mas o desafio é enorme. “A B3 tem um portfólio diversificado, experiência acumulada e uma operação consolidada. Não será simples deslocar essa liderança”, diz Albuquerque.

Ele também vê os reguladores como peça-chave. O tempo prolongado para aprovar licenças não é um entrave, mas um sinal de prudência. “O Banco Central e a CVM estão zelando pela solidez do sistema”, diz.

Albuquerque  prevê que os novos players disputarão espaço em segmentos de maior liquidez, mas precisarão criar produtos alternativos para substituir contratos de futuros que pertencem à B3.

Os concorrentes

Base Exchange, a “Bolsa do Rio”

A Base Exchange, também conhecida como a “Bolsa do Rio”, já que a sua sede está na Cidade Maravilhosa, diz que não quer apenas disputar espaço com a B3, mas aumentar o tamanho do mercado. “Nosso plano não é dividir o bolo, mas fazê-lo crescer”, afirma Claudio Pracownik, CEO da companhia. 

Diferentemente de concorrentes que importam infraestrutura estrangeira, todo o sistema da Base está sendo desenvolvido internamente. Isso, segundo Pracownik, garante velocidade e flexibilidade para criar novos produtos.

A operação começará pelo mercado à vista, permitindo a negociação das mesmas ações listadas na B3. IPOs não estão no radar imediato, já que o ambiente macroeconômico não é nada favorável para isso. O plano é que, em seis a oito meses após a estreia, prevista para o primeiro semestre de 2026, venham derivativos, e, em etapas futuras, renda fixa e balcão.

“O conceito aqui é de trabalhar pela felicidade dos nossos clientes. Ser centrado no cliente é a grande mudança”, diz o CEO. Segundo ele, a Base mira especialmente investidores de alta frequência, que exigem respostas rápidas e comportamento previsível e consistente, atributos que eles prometem entregar desde o primeiro dia.

A5X quer ser global 

Se a Base olha para dentro, a A5X olha para fora. Sua estratégia é baseada em parcerias internacionais e em uma infraestrutura sob medida para a nova companhia. O motor de risco da bolsa será fornecido pela London Clearing House (LCH), referência mundial em clearing (compensação) de derivativos.

“A ideia vem sendo discutida há mais de dez anos. Não foi oportunismo, mas uma visão estruturada de como o mercado brasileiro poderia evoluir”, afirma Karel Luketic, CFO da A5X.

Segundo o executivo, a empresa tem como plano começar pelo segmento de derivativos, responsável por até 40% da receita da B3. O objetivo é ampliar o leque de contratos futuros e opções, incluindo ativos ligados a juros, moedas e criptoativos.

A filosofia da A5X é de cooperação, não confronto, aponta Karel. Tanto que já firmou um contrato de fornecimento de dados com a própria B3. “Não se trata de dependência. É cooperação para acelerar o mercado”, explica Karel.

Com R$ 385 milhões captados e cerca de 95 profissionais, a empresa adota um modelo asset light (menor quantidade possível de ativos) e prevê atingir o ponto de equilíbrio em 2027.

A BEE4 mira o mercado de acesso para PMEs 

Se Base e A5X miram na liquidez dos grandes, a BEE4 tem uma missão diferente: democratizar o mercado para pequenas e médias empresas (PMEs). Até o momento, a companhia conta com quatro IPOs sob o seu chapéu. O objetivo é acrescentar outros 10 em 2026. 

Com licenças definitivas da CVM, a BEE4 lançou o programa Rota Fácil, alinhado ao novo Regime Fácil, que simplifica o processo de abertura de capital para companhias com faturamento entre R$ 10 milhões e R$ 500 milhões.

“O mercado de acesso estava negligenciado há quase duas décadas. Nossa missão é desenvolvê-lo”, diz a CEO Patricia Stille.

O programa oferece registro automático na CVM (categorias A ou B) para empresas que se listarem na BEE4, permitindo a emissão de dívidas e ações. Além disso, cobre custos jurídicos e de auditoria para as dez vencedoras de um processo seletivo que combina entrevistas, bancas técnicas e até um pitch ao vivo em formato de “reality show”.

“O Rota Fácil é nosso primeiro passo. Uma empresa que passa por esse processo está pronta para qualquer operação, seja emissão de dívida ou M&A”, reforça o cofundador Rodrigo Fiszman.

A CSD BR traz infraestrutura paralela

Menos visível ao investidor final, mas igualmente estratégica, está a CSD BR, fundada em 2018. A empresa já tem licenças do Banco Central e da CVM para operar como registradora, central depositária e sistema de liquidação.

Recentemente, anunciou a entrada de Citi, Morgan Stanley e UBS como investidores estratégicos, somando-se a sócios como Santander, BTG Pactual e a bolsa de Chicago (CBOE).

Segundo reportagens recentes, a CSD BR já movimenta trilhões em registros de renda fixa e lançou o índice Easy BZ 15, com 15 empresas brasileiras listadas no exterior, o que se posta como um concorrente direto ao Ibovespa. Na prática, está montando uma infraestrutura paralela que pode reduzir a dependência dos players locais da B3. Procurado diversas vezes,  o CEO Edivar Queiroz Filho declinou dar entrevista. 

Como fica a B3?

A B3, acostumada a operar sozinha, não demonstra nervosismo. Para André Milanez, vice-presidente financeiro, a entrada de concorrentes é bem-vinda. “Competição é sempre saudável. O fato de haver gente com projetos aqui mostra o potencial do nosso mercado”, afirma o executivo.

Ele reconhece que pode haver fragmentação de liquidez, mas acredita que o mercado tende a se concentrar em poucos operadores dominantes, como ocorre no Canadá e na Austrália.

Milanez rejeita a ideia de que os recentes lançamentos da B3 sejam resposta direta à pressão. Segundo ele, a companhia já vinha em um ciclo robusto de inovação, incluindo produtos ligados a criptoativos e commodities. Até 2025, prevê lançar contratos futuros de volatilidade (VIX) e opções de Bitcoin.

O caminho até aqui

Segundo os candidatos a concorrentes da B3, a pluralidade de bolsas é a regra no exterior. O discurso deles é o de que os Estados Unidos contam com dezenas de plataformas, como a NYSE, Nasdaq, CBOE e CME. Na Europa, Londres, Frankfurt e Paris convivem com competidores locais e regionais. Até mercados menores, como o Canadá e a Austrália, operam com duas ou mais bolsas relevantes.

O Brasil, apesar de já ter vivenciado num passado distante uma pluralidade de bolsas, nos últimos 20 anos se firma como exceção, com uma infraestrutura única e altamente concentrada. A chegada de novos players pode mudar isso, oferecendo aos investidores alternativas de preço, tecnologia e governança, segundo os porta-vozes entrevistados. Para eles é um ganha-ganha, já que, para empresas, abre-se a possibilidade de acesso a capital em condições mais competitivas — especialmente para PMEs, tradicionalmente excluídas do radar da B3.

Todos reconhecem que a transformação não será imediata. Conectar corretoras, educar investidores e garantir liquidez são desafios enormes. O próprio Milanez reconhece: “A B3 já existe há mais de 100 anos. Não estamos aqui para um sprint, mas para correr a maratona”, diz o executivo da B3.

Ainda assim, o simbolismo é poderoso. Pela primeira vez em décadas, a B3 terá concorrência real direta na negociação, indireta na infraestrutura e adjacente no mercado de acesso.

Para os investidores, isso pode significar taxas mais baixas, produtos inovadores e mais liberdade de escolha. Para as empresas, novas portas de financiamento. Para o país, um mercado de capitais mais moderno, competitivo e alinhado ao padrão internacional.

No fim, como resumiu Pracownik, trata-se da essência do capitalismo: “A entrada da concorrência muda tudo. É liberdade de escolha”, diz.

Essa mudança que se vê agora no mercado se deve muito à agenda regulatória da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que estimula ações voltadas à simplificação da burocracia e à democratização do mercado de capitais, com atenção especial a empresas de menor porte. Esse processo foi gestado a partir de 2022, com a revisão da resolução 135, que dispõe sobre o funcionamento dos mercados regulamentados de valores mobiliários, e terá continuidade, segundo a CVM.

 Na essência, segundo o órgão, o objetivo é o de tornar o mercado de capitais mais acessível, ágil e competitivo.

Se isso realmente vai ocorrer, apenas o tempo é capaz de responder. 

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.