Em 25 anos acompanhando o mercado, observei uma constante: funcionários, executivos e fundadores de startups amam as ações da própria empresa e confiam no seu potencial. É um vínculo emocional. Porém, quando se recebe remuneração em papéis — como stock options ou unidades de ações restritas (RSUs, na sigla em inglês) — é fácil e quase automático concentrar boa parte do patrimônio naquela única ação.
A lealdade aos papéis de uma companhia pode levar alguém a manter uma grande posição, mesmo quando isso não é o melhor para sua vida financeira. Embora posições concentradas possam, sim, criar riquezas que mudam vidas, elas também podem ir contra seus objetivos, caso o preço do papel despenque de repente.
Em um webinar recente, a consultora financeira experiente, Ally Jane (AJ) Ayers, cofundadora da Brooklyn FI em Nova York, compartilhou dicas valiosas sobre como o investidor pode lidar melhor com a “montanha-russa” da remuneração em ações, garantindo espaço para diversificar, reduzir riscos e proteger seus objetivos de vida. É claro que cada um tem suas especificidades, por isso, sempre conte com o auxílio de um consultor financeiro.
As cinco dias
1. Busque um “cenário de menor arrependimento”
Um dos principais métodos usados por Ayers para suavizar os altos e baixos emocionais ao tomar decisões sobre ações é o “cenário de menor arrependimento”. Essa abordagem gradual ajuda a equilibrar ambição e ansiedade.
Com opções de papéis, a grande questão é quando exercer e em que quantidade. Observar o sobe e desce do preço pode ser hipnotizante. E se você comprar ou vender cedo demais? Ou tarde demais? Ou em excesso?
Segundo Ayers, quando existe a chance de ganhos que mudam a vida, a ansiedade muitas vezes paralisa o investidor. Parece mais seguro adiar. Embora, em alguns casos, não agir seja realmente a melhor saída, ela recomenda dar pelo menos um pequeno passo. “Você não precisa exercer tudo”, ela costuma dizer, “mas também não deve deixar de fazer nada.”
Ela sugere, por exemplo, comprar ou vender 5% das opções agora, mesmo que você acredite que a ação “vai decolar”. Assim, se o preço cair para próximo ou até abaixo do valor de exercício, você ao menos terá conseguido algum ganho. Essa é a lógica do “menor arrependimento”: tomar uma pequena ação para não perder tudo e nem comprometer seu patrimônio de longo prazo.
2. Lidando com medo de ficar de fora (Fomo)
Muitos mantêm posições concentradas por medo de perder uma grande valorização futura. Nesses casos, Ayers recomenda vender aos poucos, como 5% a cada trimestre ou 20% a cada semestre, o que deixar o investidor mais confortável.
Esse processo é uma forma de vender o mesmo número de papéis ou o mesmo valor em dinheiro em intervalos regulares, independentemente do preço. Segundo ela, vender em partes não significa desistir da ação. “Vender uma fatia não é sair do jogo, é apenas espalhar suas fichas em uma mesa maior. Você continua investido, só não depende de uma única empresa.”
3. Atenção ao excesso de confiança
Outro ponto comum, segundo Ayers, é a confiança excessiva. Funcionários podem acreditar que sabem algo especial sobre a empresa e que o papel está subvalorizado, o que os leva a “apostar tudo” nele.
A recomendação dela é mudar o foco: em vez de olhar apenas para o preço da ação, pense nos seus objetivos. “E se o preço cair 50%? Como isso afetaria seus planos?”
Essa reflexão ajuda a sair da visão limitada de preço e lembrar o que realmente importa: comprar uma casa, pagar os estudos dos filhos ou se aposentar mais cedo. Se o papel cair muito ou até se tornar inútil, esses objetivos podem se tornar mais distantes ou até impossíveis.
Ayers costuma dizer: “ao diversificar, você não está abandonando a empresa. Na verdade, está garantindo que vai se beneficiar em qualquer cenário. Se a ação dobrar, ótimo, mas não seria ainda melhor se o seu portfólio inteiro dobrasse sem tanto risco?”
4. Superando a inércia
Planejar com stock options e papéis da empresa é complicado e pode parecer avassalador. É fácil adiar decisões ou se convencer de que não é necessário agir. “Esse é o problema mais comum que vejo”, diz Ayers.
Sua recomendação é simplificar: definir apenas um pequeno passo por vez, junto com o consultor. “Não precisa ser a lista inteira de ações. Pode ser só o que você fará neste trimestre.” Muitas vezes, o consultor executa esses papéis para você.
“Não estamos pedindo para vender tudo”, ela costuma dizer. “Vamos só dar um passo e reinvestir parte em algo estável que cresça com o mercado. Pense nisso como plantar novas sementes. Você continua cultivando, mas em mais de um campo.”
5. Estabeleça percentuais por empresas
Outra estratégia que Ayers defende é escolher uma porcentagem de ações da empresa que você quer manter — por exemplo, entre 5% e 20% das suas participações originais. Essa seria sua “posição-âncora de legado”.
A partir disso, ela ajuda o cliente a montar um plano de diversificação em torno desse percentual. Dessa forma, você continua ligado à empresa e participa do potencial de valorização, mas sem colocar em risco seus objetivos financeiros e de vida.