A maior gestora de ativos alternativos do mundo, a Blackstone, planeja expandir sua equipe global de private wealth para mais de 450 profissionais até o fim de 2026 — ante 325 atualmente. Isso acontece à medida que a empresa acelera o lançamento de produtos, cria novos polos nos Estados Unidos e amplia sua presença entre consultores de investimento registrados, corretoras e planos de aposentadoria.
Essa escala colocaria a Blackstone, que hoje administra US$ 1,27 trilhão (R$ 6,6 trilhões) em ativos totais, entre as maiores operações dedicadas a private wealth no universo dos investimentos alternativos.
Concorrentes como a Apollo, com US$ 938 bilhões (R$ 4,9 trilhões) sob gestão, e a KKR, com quase US$ 750 bilhões (R$ 3,9 trilhões) em ativos, também disputam investidores individuais, mas ainda não anunciaram expansões nessa magnitude.
A meta da Blackstone é ambiciosa: alcançar US$ 1 trilhão (R$ 5,2 trilhões) apenas em ativos de private wealth nos próximos anos. Atualmente, o braço de varejo da gestora administra US$ 302 bilhões (R$ 1,6 trilhão) — alta de 27% em relação ao fim de 2023 e mais de cinco vezes os US$ 58 bilhões (R$ 300,4 bilhões) informados em seu Investor Day de 2017, quando estabeleceu a meta de atingir US$ 250 bilhões (R$ 1,3 trilhão).
“Estamos em um ponto de inflexão”, afirma Farhad Karim, diretor de operações de private wealth global da Blackstone e ex-presidente e COO da Blackstone Europa. “O acesso aos mercados públicos foi democratizado décadas atrás. Acreditamos que este é o momento dos mercados privados.”
Acelerando o Private Wealth
Os resultados mais recentes reforçam essa confiança. A empresa encerrou 2025 com US$ 1,27 trilhão (R$ 6,6 trilhões) em ativos sob gestão e registrou US$ 239 bilhões (R$ 1,2 trilhão) em captações no ano. Seus veículos de capital perpétuo — fundos estruturados para oferecer acesso contínuo a investidores individuais — já somam mais de US$ 523 bilhões (R$ 2,7 trilhões), quase metade dos ativos sob gestão que geram taxas.
Internamente, segundo Karim, a companhia define essa nova fase como a “Versão 3.0” do private wealth. A Versão 1.0 consistiu em oferecer a investidores de alta renda acesso a fundos tradicionais por meio de bancos privados.
Já a Versão 2.0 marcou a ascensão dos veículos perpétuos — como fundos imobiliários e de crédito privado com liquidez periódica. Agora chega a Versão 3.0 que são portfólios de mercados privados, concebidos para se comportar como alocações completas de ativos, e não apenas como exposições isoladas. “Como oferecer acesso à excelência da empresa em múltiplas estratégias de forma simples?”, questiona Karim. “É nisso que estamos totalmente focados.”
A empresa já começou a escalar esse movimento. O Blackstone Private Equity Strategies Fund (BXPE), lançado em 2024, atingiu US$ 18 bilhões (R$ 93,2 bilhões) em dois anos. Estruturado como veículo evergreen com liquidez periódica, o BXPE oferece a investidores qualificados acesso a um portfólio diversificado de aquisições e investimentos em private equity liderados pela Blackstone.
O Blackstone Infrastructure Strategies (BXINFRA), lançado em 2025, captou quase US$ 4 bilhões (R$ 20,7 bilhões) no primeiro ano e investe em ativos de infraestrutura privada, como data centers, projetos de transição energética e redes de transporte, também com liquidez trimestral limitada.
Já o Blackstone Multi-Asset Credit and Income Fund (BMACX) reúne diversas estratégias de crédito da gestora, como crédito direto e financiamento baseado em ativos, em uma única estrutura. Como a maioria dos produtos alternativos, esses fundos cobram taxas de administração e, em alguns casos, incentivos atrelados ao desempenho, que variam conforme o fundo e a classe de cotas.
Para Karim, a psicologia do investidor mudou. A questão já não é se os mercados privados devem fazer parte do portfólio, mas qual deve ser seu peso. “Nos Estados Unidos, 80% do universo investível ainda é privado”, afirma. “Se você não participa de transações privadas, fica de fora de uma parte relevante das oportunidades.”
A proposta da Blackstone é diversificação por meio de estruturação. Os veículos multiestratégia combinam exposição a imóveis, crédito privado, private equity e infraestrutura em um único produto, prometendo retornos mais estáveis, menor concentração de risco e menos complexidade operacional para assessores.
“Investimento é cíclico”, diz Karim. “Quando você tem exposição a várias estratégias em um único veículo, ganha diversificação. E, em mercados voláteis, isso faz diferença.” Para sustentar essa expansão, a empresa reforça sua presença nos Estados Unidos com novos polos regionais em San Francisco e Miami, ampliando cobertura em Chicago e fortalecendo atuação em mercados de alta concentração de riqueza, como sul da Califórnia, Seattle e Dallas.
A distribuição foi segmentada entre grandes bancos, corretoras e RIAs, com a contratação da ex-executiva da Lazard Jen Abate para liderar o crescimento junto aos RIAs. Karim ressalta que, embora a inteligência artificial possa otimizar operações, a venda de investimentos complexos e ilíquidos exige mais capital humano, não menos. “Não é possível atuar à distância sem engajamento”, afirma. “É preciso estar presente nesses mercados.”
Caminhos para o sucesso
A educação é peça central dessa estratégia. Segundo a empresa, mais de 18 mil assessores participaram dos programas de treinamento da Blackstone University — plataforma educacional de vários dias que inclui conferências presenciais, seminários regionais e cursos digitais sobre estrutura de mercados privados, construção de portfólio e gestão de risco.
A gestora pretende ampliar webinars e iniciativas públicas em 2026. Atualmente, 300 mil investidores nos Estados Unidos possuem produtos de private wealth da Blackstone por meio de intermediários.
“O grau de sofisticação é amplo”, diz Karim. “Alguns assessores são extremamente experientes. Outros estão começando nos mercados privados. Nosso papel é encontrá-los onde estão.”
A expansão internacional ocorre em paralelo. A Blackstone amplia equipes no Japão — com meta de 50 profissionais dedicados a private wealth — e expande a distribuição na Europa por meio da estrutura European Long-Term Investment Fund (ELTIF), que permite acesso padronizado a ativos privados com investimentos mínimos menores. A Austrália também passou a contar, em 2025, com presença local dedicada a private wealth.
O desafio mais complexo — e potencialmente mais promissor — está nas contas de aposentadoria. Karim observa que planos de benefício definido tradicionalmente alocam cerca de 30% em mercados privados, enquanto planos de contribuição definida, destinam em torno de 1%. Essa diferença representa trilhões de dólares em potencial. “O ambiente regulatório ainda não está totalmente preparado”, afirma. “Estamos nos estágios iniciais.”
Quase todas as grandes gestoras alternativas agora disputam o investidor individual. Karim sustenta que a vantagem da Blackstone está na continuidade institucional. “Fazemos isso para instituições há 40 anos”, afirma. “Mesmas equipes. Mesmo rigor. Mesmo processo. Não existe um ‘time B’.”
No fim, a métrica decisiva não é o número de contratações ou anúncios — mas a adoção. Karim acompanha quantos assessores passam de um único produto da Blackstone para vários e como a demanda evolui por região. “Se os assessores adotam múltiplas estratégias, isso indica que estão tendo uma boa experiência”, diz.
O negócio de capital perpétuo da Blackstone já se tornou um dos principais motores de resultado da empresa. Agora, Karim aposta que, com a combinação adequada de estruturação, equipe e educação, os mercados privados podem deixar de ser uma alocação de nicho para se tornar um pilar central dos portfólios de investidores individuais.
Matéria publicada em Forbes.com