Em 2024, Meida Marek (seu pseudônimo online) havia acabado de se formar na faculdade e trabalhava em um cargo de entrada na área financeira quando começou a fazer um cálculo mental que está se tornando um verdadeiro rito de passagem em setores como esse: o que acontece quando a IA consegue fazer meu trabalho melhor do que eu?
Então Marek fez um balanço de suas habilidades. Era inteligente e naturalmente acolhedora. Tinha facilidade para conversar com as pessoas. Gostava de mergulhar em temas futuristas: inteligência artificial, biohacking, criptomoedas, assuntos capazes de transformar um jantar em um debate de três horas.
Foi então que decidiu transformar esse conjunto de competências em uma nova carreira, e se tornou acompanhante de luxo.
Para Marek, trata-se de trabalho sexual com uma proposta específica: companhia de alto padrão para os clientes mais conectados e técnicos do Vale do Silício, muitas vezes profissionais que trabalham diretamente com IA ou em áreas relacionadas. Nos últimos tempos, ela tem recebido muitos clientes da Nvidia.
Existem apenas algumas poucas mulheres como Marek. E, assim como seus clientes, elas também estão obtendo resultados financeiros extraordinários.
“Eu chamaria isso de uma abordagem voltada primeiro para os nerds”, diz Aella, uma profissional do sexo famosa na internet que ganhou notoriedade no X ao aplicar uma perspectiva de ciência de dados à própria vida amorosa. Hoje ela dedica mais tempo ao ativismo em segurança de IA, incluindo um treinamento intensivo sobre riscos da inteligência artificial para criadores de conteúdo chamado Plz Don’t Kill Us (“Por Favor, Não Nos Matem”), mas ainda fala sobre a demanda que testemunhou de perto: homens que querem que uma mulher atraente e inteligente também leve suas ideias a sério.
A familiaridade dessas acompanhantes com o universo nerd está incorporada aos seus materiais de divulgação. Todas mantêm contas ativas no X, onde publicam selfies provocativas misturadas a comentários sobre temas como IA e longevidade. O portal de reservas de Marek foi criado como um jogo de RPG baseado em texto, no qual os usuários precisam completar desafios interativos. No site de Talia Sable, ela se apresenta como “uma grande nerd” e destaca que é ex-programadora, com interesse em Dungeons & Dragons, inteligência artificial e cadeias de suprimentos. Sable cobra US$ 3.000 por hora (R$ 15.000).
Ada Hopper
“Falar sobre IA funciona”, afirma Ada Hopper (também um pseudônimo online), que costumava usar a descrição “Cortesã Autista” no X. “Aparecem aqueles caras aleatórios da Nvidia dizendo: ‘O quê? Você sabe o que é uma GPU? Meu Deus, uau.’”
Se você quiser entender a lógica econômica desse mercado, basta olhar os preços. No Tryst, um diretório de acompanhantes, cobrar US$ 1.000 por hora (R$ 5.000) já é considerado um valor elevado. Marek cobra US$ 3.500 (R$ 17.500). E não tem dificuldade para conseguir clientes. Sua tarifa quase dobrou desde o início do ano. Atualmente, ela afirma estar com a agenda preenchida pelos próximos meses e recebendo tantas consultas que já cogitou aumentar os preços novamente.
“Lembro de pelo menos uma mulher se descrevendo como uma ‘Viúva do Claude’… Ela perdeu o marido para o estresse causado pela IA.”
“As mulheres que cobram os valores mais altos não são necessariamente as mais bonitas”, diz Hopper. “São as que são bonitas e inteligentes.”
Hopper afirma cobrar US$ 5.000 por hora (R$ 25.000). Ela encara o trabalho da mesma forma que alguém do mercado financeiro encararia: como uma estratégia agressiva de construção de patrimônio em um mundo que, na sua visão, está se tornando cada vez mais dividido em camadas. Marek compartilha dessa perspectiva e diz que quer evitar se tornar parte da “subclasse permanente” que muitos integrantes da elite tecnológica do Vale do Silício acreditam que surgirá em breve.
Na corrida do ouro original, algumas das fortunas mais seguras não foram construídas pelos garimpeiros, mas pelas pessoas que lhes vendiam picaretas, pás e hospedagem. Na corrida da inteligência artificial em São Francisco, uma camada semelhante de serviços está se formando. Uma parte dela é composta pela companhia remunerada oferecida às pessoas que estão fazendo a escavação.
Namoro como Serviço
A cultura de agendas lotadas do Vale do Silício praticamente cria a demanda por acompanhantes de luxo.
As acompanhantes ouvidas pela Forbes descrevem clientes que são fundadores de startups, pesquisadores ou executivos seniores que vivem em função de seus calendários. Muitos buscam algo que se pareça com um relacionamento amoroso, atenção, afeto, conversa e sexo quando faz sentido, sem os atritos, as rejeições ou as incertezas dos relacionamentos modernos.
Essa mentalidade tem até seus próprios produtos promocionais. Um meme popular entre fundadores de startups, “solteiro até a Série B”, virou slogan e depois estampou bonés. É metade piada, metade confissão: relacionamentos são vistos como um passivo até que a empresa se torne “de verdade”.
Talvez os solteiros tenham o argumento mais consistente. Pelo menos estão limitando o alcance dos danos. Já aqueles que estão em relacionamentos apenas encontram outro lugar para depositar o estresse.
“Lembro de pelo menos uma mulher se descrevendo como uma ‘Viúva do Claude’”, disse Mark Nadal, ator pornô baseado em São Francisco que também trabalha ocasionalmente como acompanhante masculino, referindo-se ao chatbot de IA da Anthropic. “Ela perdeu o marido para o estresse provocado pela inteligência artificial.”
Marek afirma que seu cliente típico é jovem, geralmente na faixa dos 30 ou 40 anos. O que eles compram, segundo ela, não é apenas sexo. É a oportunidade de passar tempo com alguém capaz de acompanhar sua intensidade intelectual e que não se intimide com seus assuntos favoritos.
Ela se recorda de uma longa noite no Ritz-Carlton, deitada na cama ao lado de um cliente, apenas conversando.
“Havia uma janela enorme que ocupava a parede inteira”, contou. “Lembro de ver o sol se pôr e depois nascer novamente. Nós continuávamos falando sobre o futuro. Houve sexo em alguns momentos, mas, na maior parte do tempo, era apenas uma conversa agradável e descontraída.”
Uma quantidade impressionante de dinheiro está sendo criada pela revolução da inteligência artificial. Recentemente, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, observou que a empresa gerou um número sem precedentes de bilionários entre seus executivos. Em outubro, a OpenAI permitiu que mais de 600 funcionários vendessem até US$ 30 milhões em ações cada um (R$ 150 milhões). Os futuros IPOs da OpenAI e da Anthropic devem gerar o que profissionais de tecnologia do Vale do Silício vêm chamando de “riqueza geracional”.
Mesmo quando esse patrimônio ainda não está efetivamente depositado na conta bancária, há muitas pessoas circulando pelo Vale do Silício com a sensação de terem vencido cedo e em grande escala. E, depois da pergunta “quanto dinheiro eu tenho?”, a questão mais urgente passa a ser: “o que faço com ele?”.
“Eles não querem carros de luxo, não querem relógios caros”, disse uma pessoa que ajuda novos milionários da IA a definir estratégias de filantropia. “Eles simplesmente não sabem o que fazer com o dinheiro.”
Um dos clientes de Marek, um empreendedor que construiu fortuna como trader durante a pandemia de Covid-19 e agora está lançando uma nova startup de inteligência artificial, contou à Forbes que entrou em contato com ela depois de ler suas publicações online.
“Hoje sou muito mais seletivo com o meu tempo”, afirmou. “É mais fácil pagar por tempo. Os limites ficam mais claros.”
O Modelo de Aella
A nova geração de acompanhantes tem muito a agradecer a Aella, a pioneira da abordagem voltada para nerds, que serviu como prova de conceito para esse nicho de mercado.
Quando começou sua carreira como modelo de webcam, há 15 anos, ela fazia o que chama de “pornografia mímica”: vestia-se como uma mímica para realizar apresentações temáticas inspiradas em gnomos e circos, enquanto mantinha longas discussões filosóficas com os espectadores.
Quando se mudou para a região da Baía de São Francisco em 2018 para se integrar à comunidade racionalista local, levou a mesma abordagem centrada na personalidade para seu trabalho no mercado adulto.
“Os clientes querem desesperadamente que uma mulher atraente também valorize sua inteligência”, afirma ela. Segundo Aella, embora muitos a procurem justamente por considerá-la inteligente, as conversas acabam sendo, em grande parte, sobre eles mesmos, usando-a como alguém com quem possam testar ideias e refletir em voz alta.
As análises informais de dados feitas pela própria Aella parecem reforçar essa percepção. Em certa ocasião, ela realizou um estudo com nuvens de palavras e concluiu que acompanhantes que utilizam uma linguagem mais sofisticada e intelectualizada conseguem cobrar valores significativamente mais altos do que aquelas que concentram sua divulgação exclusivamente no aspecto sexual.
Hoje, ela afirma cobrar US$ 6.000 por hora (R$ 30.000), embora atenda apenas alguns clientes por ano.
Kim Lee, dominatrix com mais de 20 anos de experiência no mercado adulto na região da Baía de São Francisco e que também ensina profissionais do setor a administrar seus negócios, observou que, nos últimos anos, houve um aumento significativo nos valores cobrados pelas acompanhantes de luxo no topo do mercado.
Segundo sua estimativa, acompanhantes de segmentos mais básicos cobram em torno de US$ 300 por hora (R$ 1.500), enquanto profissionais de faixa intermediária costumam cobrar entre US$ 500 e US$ 800 por hora (R$ 2.500 a R$ 4.000). Há cinco anos, afirma ela, o teto girava em torno de US$ 1.000 por hora (R$ 5.000).
“Agora percebo que as acompanhantes de altíssimo padrão cobram muito mais do que isso”, disse. “Estou vendo valores na faixa de US$ 2.000 por hora (R$ 10.000). Mas são pouquíssimas pessoas. É algo raro.”
As quatro mulheres retratadas nesta reportagem cobram acima desse valor. Todas elas têm outras opções de carreira, mas optaram pela atividade mais lucrativa.
O encontro para nerds
Em uma tarde recente, em seu novo apartamento em um arranha-céu no bairro de SoMa, em São Francisco, Hopper serve chá em um conjunto da Christian Dior e fala com a calma e a objetividade de uma engenheira ou executiva do mercado financeiro. Ruiva, com cerca de 1,78 metro de altura e na faixa dos 20 anos, ela transita naturalmente entre análises sobre as questões raciais da série Bridgerton e observações sobre profissionais do sexo comunistas que atendem empresários bem-sucedidos.
Segundo Hopper, seus clientes a levam para viagens internacionais de vários dias e costumam presenteá-la além da sua diária de US$ 23.000 (R$ 115.000). Maratonas de compras são frequentes: um cliente a levou para a Europa, onde os dois consumiram LSD e gastaram “milhares de euros” em chapéus de pele.
Ela gosta de joias antigas e figurinos da era eduardiana. Recentemente, ficou fascinada por pequenos relógios embutidos em peças antigas avaliadas em milhares de dólares e por objetos de vidro soprados à mão produzidos há décadas.
Mas Hopper também se interessa pelos hobbies dos clientes. Um entusiasta de base jumping a levou para Estocolmo para treinar voo indoor com wingsuit. A viagem acabou sendo estendida por mais três dias.
A demanda é alta o suficiente para que ela possa ser seletiva, e já dispensou clientes anteriormente. Um deles chegou a tentar “comprá-la”, oferecendo mais de seis dígitos por mês em dólares. Hopper considerou a proposta e admite que tinha sentimentos por ele, mas recusou. O cliente queria que ela abandonasse a profissão e tivesse filhos em um futuro próximo.
“Devido ao volume de viagens solicitadas recentemente, limitei o número de deslocamentos que aceito por mês a acordos personalizados com pessoas que realmente me encantam”, afirma seu site.
Os presentes recebidos costumam refletir o perfil intelectual dos clientes. Um dos clientes de Marek lhe deu um Mac Mini para que ela pudesse rodar sua própria instância local do OpenClaw. Outro encomendou uma obra de arte criada por inteligência artificial especialmente para ela.
Apesar dos retornos financeiros extraordinários, Hopper diz que a decisão de seguir esse caminho foi assustadora. Antes de se tornar acompanhante em tempo integral, ela trabalhou no mercado financeiro e passou um ano inteiro se preparando psicologicamente para a mudança. Investiu US$ 20.000 (R$ 100.000) em lingerie de luxo, ensaios fotográficos profissionais e desenvolvimento de site.
Antes do primeiro encontro profissional, conta ela, o nervosismo era tão intenso que sentia o estômago “como se fosse líquido”. O cliente compartilhava sua obsessão por jejum intermitente e saúde metabólica. Os dois passaram a maior parte do tempo discutindo artigos acadêmicos sobre cetose e dietas carnívoras. Ele prolongou o encontro e continuou sendo cliente pelos quatro anos seguintes.
Os clientes de Marek relatam uma sobreposição semelhante de interesses. O trader que acumulou fortuna durante a pandemia e hoje está fundando uma startup de IA, que a descobriu por meio de suas publicações no X, agora a leva regularmente para Nova York por períodos prolongados de convivência, ao custo de US$ 30.000 por fim de semana (R$ 150.000), e a convida para restaurantes sofisticados.
Segundo ele, quando se conheceram estava “extremamente pouco saudável”. Desde então, perdeu cerca de 23 quilos e adotou a visão de Marek de que a longevidade é um “imperativo moral”.

Humanos reais como símbolo máximo de status
Se a inteligência artificial está tornando a companhia digital barata, agradável e sempre disponível, por que os preços da companhia humana estão disparando?
Porque a escassez é justamente o ponto central. A intimidade simulada perde valor. Já a autenticidade humana genuína, não filtrada nem programada, capaz de surpreender você de maneiras imprevisíveis? Esse é um território no qual a IA ainda não consegue superar os seres humanos.
Aella observa que mulheres que deixam suas peculiaridades de personalidade aparecerem tendem a cobrar mais, mesmo quando demonstram traços considerados difíceis ou discordantes.
Para um executivo de tecnologia de Austin, a companhia oferecida por inteligências artificiais não substituiu a intimidade. Pelo contrário: agravou sua solidão.
Após o divórcio, ele se tornou dependente de chatbots eróticos e passou a buscar cenários de BDSM cada vez mais intensos, algo que mais tarde descreveu como “profundamente perturbador”. O momento decisivo aconteceu em uma fila de supermercado, quando percebeu que as conversas com os chatbots continuavam ocupando sua mente mesmo durante os momentos mais banais do dia.
Ele abandonou tudo de uma vez e passou a procurar companhia humana de verdade. Descobriu que isso era mais difícil do que imaginava. Sua vida estava dividida entre filhos, trabalho e pais idosos vivendo em cidades diferentes. Os aplicativos de relacionamento, segundo ele, eram “um desastre”.
Foi então que encontrou o guia de Aella, intitulado Como Contratar uma Acompanhante: Um Guia Excessivamente Analítico, e começou a buscar companhia humana remunerada.
“Entrei em uma missão para conhecer mulheres inteligentes, bonitas e neurodivergentes que estivessem dispostas a trocar tempo por dinheiro”, disse. “Existem mulheres desesperadas, existem mulheres tentando tirar o melhor proveito possível de uma situação menos que ideal e existem rebeldes extremamente inteligentes, ligeiramente neuroatípicas, que aceitam voluntariamente o estigma social em troca da renda e da liberdade que esse estilo de vida proporciona.”
Até agora, afirma ele, já contratou acompanhantes com mestrado em economia, literatura inglesa e matemática.
Charlie Levine, também um pseudônimo, é outra acompanhante com diploma de mestrado e vê a inteligência artificial como um motor importante para o crescimento de seu negócio.
“À medida que a IA se tornar maior e mais presente, a conexão humana autêntica se tornará uma raridade”, disse. “No futuro, poder pagar por contato humano, e por ambientes onde exista contato humano genuíno, será o maior luxo de todos.”
A objeção óbvia é que nada disso começou com os chatbots. Homens ricos e solitários sempre pagaram por sexo. Mas a inteligência artificial altera a equação.
Quando uma máquina pode oferecer fantasia ilimitada, agradável e sob medida pelo preço de uma assinatura mensal, o que passa a ser caro já não é a fantasia. O que se torna valioso é justamente o real, livre de algoritmos: a mulher que se entedia e muda de assunto, que questiona um argumento, que ri de forma desajeitada no momento errado ou que faz o ambiente parecer menos um comando digitado em uma tela e mais uma vida acontecendo no mundo real.
É um ciclo elegante em sua lógica, mas sombrio em suas consequências. A inteligência artificial está tornando a presença simulada barata, instantânea e inesgotável, ao mesmo tempo em que cria uma elite disposta a pagar cada vez mais caro pela única coisa que ela ainda não consegue oferecer: a atenção de uma pessoa real.
*Matéria originalmente publicada por Forbes.com