O Banco do Brasil comunicou ao mercado, na noite de terça-feira (7), a assinatura de um contrato de R$ 2,3 bilhões com os Correios para serviços postais convencionais, especiais e telemáticos, no Brasil e no exterior. O acordo tem vigência de 60 meses, já está em vigor desde o dia 2 de julho e substitui o contrato anterior, firmado em 2021 por um teto de R$ 2,17 bilhões, uma diferença de cerca de 6%, que o banco atribui exclusivamente à correção inflacionária, sem alteração no escopo dos serviços.
O detalhe que separa este contrato de uma renovação burocrática qualquer está na ausência de concorrência. O BB não abriu processo de cotação com outros fornecedores. Em documento enviado ao mercado, a instituição justifica a escolha pela “inviabilidade de competição”: 97,84% das despesas do banco com postagens recaem sobre serviços – como o Franqueamento Autorizado de Cartas – que a lei reserva com exclusividade aos Correios. Não existe, tecnicamente, um segundo fornecedor a consultar.
Para a fração restante, fora do monopólio, o banco alega ter checado preços de mercado antes de fechar o negócio, concluindo que os valores cobrados pela estatal postal eram compatíveis com os praticados por concorrentes privados. Ainda assim, o argumento decisivo do BB não é o preço, mas a ausência de alternativa operacional: nenhuma outra empresa reúne, segundo o banco, a capilaridade necessária para atender agências e clientes em municípios remotos do país. Contratar os Correios deixa de ser uma escolha comercial e passa a ser, nas palavras do próprio documento, uma condição para “evitar prejuízos” à operação bancária.
O momento do anúncio não é irrelevante. Os Correios atravessam a pior crise financeira de sua história recente. A empresa fechou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e abriu 2026 aprofundando o buraco: o resultado negativo do primeiro trimestre somou R$ 3,158 bilhões, alta de 83% sobre o prejuízo de R$ 1,725 bilhão do mesmo período do ano passado. A companhia atribui o desempenho a uma combinação conhecida em setores postais do mundo todo: a receita com correspondência tradicional encolhe ano após ano, enquanto a concorrência no segmento mais lucrativo, o de encomendas ligadas ao comércio eletrônico, se intensifica com players privados mais ágeis.
Diante desse quadro, o governo já recorreu duas vezes ao sistema financeiro para sustentar a estatal. No fim de 2025, um consórcio formado por Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander emprestou R$ 12 bilhões aos Correios, com aval do Tesouro Nacional. Uma segunda rodada de crédito, próxima de R$ 7 bilhões, está em negociação. O contrato postal anunciado nesta semana soma-se a esse fluxo: não é um empréstimo, mas cumpre função parecida, ao assegurar aos Correios uma receita recorrente e previsível justamente quando o mercado privado lhes fecha as portas de outras fontes de caixa.
Nada nisso é, em si, incomum. Bancos públicos compram serviços de outras estatais há décadas, e o monopólio postal brasileiro, como o de tantos outros países antes da privatização parcial do setor, tecnicamente impede qualquer disputa por preço nos serviços reservados por lei. O Banco do Brasil também não é o único cliente cativo dos Correios: outras estatais e órgãos federais mantêm contratos semelhantes, sem licitação, pela mesma razão jurídica.
O que o episódio expõe, com clareza pouco comum, é a mecânica de socorro indireto que sustenta empresas estatais deficitárias no Brasil: quando o crédito bancário direto passa a levantar questionamentos – o que já ocorre com a operação de R$ 12 bilhões, hoje sob análise do Tribunal de Contas da União – os contratos de serviço, protegidos por reserva de mercado, seguem cumprindo papel equivalente, fora do radar público. O Banco do Brasil garante, em nota, que a decisão foi tomada “de forma independente”, com análise técnica e jurídica própria, sem participação dos Correios na negociação. É uma afirmação plausível: o banco de fato precisa entregar suas correspondências, e a lei de fato lhe dá pouca escolha sobre quem contratar. Mas a coincidência entre a fragilidade financeira do fornecedor e a disposição do cliente estatal em pagar sem pechinchar, ano após ano, dificilmente é acidental.