Em 5 de julho, o Brasil dá a largada oficial para mais um ciclo eleitoral. Pré-candidatos poderão finalmente se promover dentro de seus partidos, abrindo a corrida que definirá, em outubro de 2026, quem vai comandar a próxima etapa da reforma tributária, lidar com uma taxa de juros em dois dígitos e decidir como o país se posiciona diante de um mundo cada vez mais hostil. Para o eleitor comum, é apenas mais uma eleição. Para o empresariado brasileiro, é um teste de nervos.
Não é exagero. Uma sondagem recente da consultoria FTI Consulting, batizada de Business Perception in an Electoral Year, ouviu 31 grandes corporações que operam no país entre fevereiro e março deste ano. O resultado é revelador: numa escala de preocupação que vai de 1 a 5, a média chegou a 3,87, bem acima do ponto intermediário. Ou seja, as empresas não estão apenas atentas ao pleito. Estão nervosas com ele, e mais nervosas do que costumavam estar em eleições passadas.
O motivo desse desconforto tem menos a ver com ideologia do que se poderia imaginar. Segundo Raquel Rocha, diretora sênior de assuntos públicos da FTI, o que mudou foi a exposição do Brasil ao resto do mundo. Antes, turbulências geopolíticas ficavam contidas em suas próprias regiões. Uma crise no Oriente Médio, por exemplo, dificilmente batia à porta de uma fábrica em São Paulo. Isso acabou. Rocha lembra que, desde o início do conflito na Ucrânia, o país passou a sentir no caixa das empresas eventos que antes eram só manchete de jornal. O Brasil entrou de vez na cadeia global de valor e, com isso, herdou também as suas dores de cabeça.
Um velho conhecido: o Custo Brasil
Por trás da ansiedade eleitoral está um personagem que o mercado conhece bem: o Custo Brasil. É o apelido dado ao emaranhado de burocracia, tributos, regras trabalhistas complexas e insegurança jurídica que encarece produzir, transportar e vender dentro do país – a conta que separa o custo de operar no Brasil do custo de operar, em média, em qualquer outro país da OCDE.
Os números ajudam a explicar o nervosismo. Com a Selic em 14,25% ao ano, o crédito caro está deixando um rastro: segundo a gestora Intra Asset, o Brasil já soma 9 milhões de CNPJs negativados e R$ 220,9 bilhões em dívidas em atraso, um recorde histórico de inadimplência empresarial. É contra esse pano de fundo que os candidatos de 2026 vão discursar sobre crescimento.
A reforma tributária aprovada recentemente deveria ser boa notícia e, a longo prazo, provavelmente será. Mas sua implementação gradual criou um efeito colateral incômodo: uma névoa de incerteza de curto prazo, já que empresas precisarão se adaptar a mudanças legislativas constantes durante a transição. É otimismo estrutural convivendo com ansiedade operacional, uma combinação desconfortável bem no meio de um ano eleitoral.
O presidente importa mais do que deveria
Aqui está talvez o achado mais intrigante da pesquisa: o empresariado brasileiro está olhando para o lugar errado. As decisões que mais afetam o dia a dia das empresas – orçamento público, articulação entre Congresso e Executivo, o ritmo das reformas – dependem fundamentalmente do Senado, da Câmara dos Deputados e dos governos estaduais. São esses atores que, na prática, desenham o futuro econômico do país. Ainda assim, a atenção corporativa continua obcecada pela figura do presidente, como se o resto do tabuleiro político simplesmente não existisse.
Rocha atribui esse desalinhamento a uma dificuldade estrutural: empresas ainda não sabem, de fato, como processar risco político e geopolítico dentro de suas decisões estratégicas. No fim, o que pauta o empresário é mais simples e mais visceral: é o efeito no bolso, aqui e agora.
Essa lógica pragmática está mudando também o que o mercado espera dos candidatos. Ideologia perdeu espaço para uma pergunta mais fria: quem vai gerar menos ruído? Segundo Rocha, o discurso das salas de reunião corporativas hoje é menos sobre quem vence a eleição e mais sobre quem vai administrar o país com o mínimo de sobressaltos possível. A palavra da vez, repetida à exaustão nos bastidores empresariais, é previsibilidade.
O que vem depois de outubro
O relatório da FTI termina com um recado direto a quem for eleito: a próxima gestão federal assume o poder já devendo satisfação em três frentes: responsabilidade fiscal, estabilidade institucional e regras claras. Não é pouca coisa, mas também não é surpresa: é basicamente o preço de entrada para conquistar de volta a confiança de um setor produtivo que, por ora, prefere manter o dinheiro em caixa a apostar em expansão.
Se as promessas de campanha conseguirem endereçar essas exigências, o argumento é que a postura defensiva das empresas pode começar a ceder lugar para investimentos mais robustos já a partir de 2027. Até lá, o Brasil segue no que já é praticamente um esporte nacional: torcer pela estabilidade enquanto se prepara para a incerteza.