A sequência positiva durou exatamente quatro meses. Em maio, a produção industrial brasileira caiu 0,2% ante abril, segundo o IBGE, interrompendo uma trajetória que havia devolvido certo otimismo ao setor no início de 2026. O número decepcionou: analistas consultados pela Reuters projetavam alta de 0,3%. Na comparação anual, o avanço de 0,2% também ficou muito aquém da expectativa de 1,3%, e representa uma desaceleração acentuada frente ao crescimento de 0,7% registrado em abril.
O culpado principal tem nome e é conhecido: juros. Com a Selic em 14,25%, o crédito caro continua a corroer a margem de manobra de setores intensivos em capital. Mas a leitura de maio não é só sobre política monetária, é também sobre reversão estatística. Duas atividades vinham puxando a indústria havia cinco meses seguidos: coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que acumulava ganho de 17,1% nesse período, e a indústria extrativa, com 7,4%. Em maio, ambas mudaram de sinal, recuando 6,1% e 2,6%, respectivamente. Dentro de derivados de petróleo, álcool etílico e gasolina foram os principais responsáveis pela queda; na extrativa, minério de ferro, petróleo bruto e gás natural pesaram mais.
Esse padrão – dois setores que vinham carregando o índice nas costas finalmente perderem o passo – ajuda a explicar por que a queda de maio soa mais como correção do que como colapso. Ainda assim, a lista de fraquezas não se resume a essas duas atividades. Produtos alimentícios recuaram 1,3%, têxteis 4,0%, impressão e reprodução de gravações 8,1%, e equipamentos de informática e eletrônicos 2,0%. No total, oito dos 25 ramos pesquisados e três das quatro grandes categorias econômicas fecharam o mês no vermelho. A exceção ficou com bens de consumo duráveis, que subiram 3,6%, um contraponto que sugere que a demanda das famílias, ao menos para itens como eletrodomésticos e veículos, segue relativamente firme apesar do custo do crédito.
De fato, o setor automotivo oferece um dos poucos sinais de vigor consistente: entre as 11 atividades que cresceram em maio, veículos, reboques e carrocerias avançaram 4,1%. Farmoquímicos e farmacêuticos lideraram com 13,1%, e produtos químicos somaram 3,1%. Três setores que, juntos, evitaram que a queda geral fosse mais severa.
Abaixo do pico histórico
O contexto de mais longo prazo merece atenção. A indústria brasileira está 4,5% acima do patamar pré-pandemia de fevereiro de 2020, mas segue 13% abaixo do pico histórico de maio de 2011. Passados quinze anos, o setor ainda não recuperou o terreno perdido, um lembrete de que os ganhos recentes, por mais bem-vindos que sejam, partem de uma base defasada. A comparação também ajuda a explicar por que um recuo mensal de duas casas decimais gera tanto ruído: há pouca margem de sobra para absorver reveses.
Para o Banco Central, o dado é ambíguo. Uma indústria que desacelera reforça o argumento de que os juros altos já surtem efeito sobre a atividade real, não apenas sobre a inflação de serviços. Mas a origem setorial específica da queda – concentrada em petróleo, biocombustíveis e mineração, atividades mais sensíveis a preços de commodities e a fatores pontuais do que à taxa Selic – torna arriscado ler maio como confirmação de um ciclo de desaquecimento generalizado. A resposta provavelmente virá nos próximos meses: se coque e extrativa voltarem a crescer, o tropeço de maio ficará como nota de rodapé; se a fraqueza se espalhar para bens de capital e intermediários de forma persistente, o Banco Central terá argumento mais sólido para começar a discutir o fim do ciclo de aperto.