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“Prévia da Inflação” Sobe 0,06% em Julho, Menor Taxa do Ano

Energia elétrica sobe com bandeira tarifária, mas queda em alimentos contém o IPCA-15 e leva acumulado em 12 meses a 4,52%

7 min

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que funciona como uma prévia mensal da inflação oficial brasileira, avançou apenas 0,06% em julho, menor resultado do ano. O índice representa uma desaceleração de 0,35 ponto percentual em relação a junho, quando o índice havia subido 0,41%, e também é bem menor do que o registrado em julho do ano passado, quando a taxa havia sido de 0,33%. Com esse número, o índice acumula alta de 3,51% ao longo de 2026 e, somando os últimos doze meses, chega a 4,52%, patamar inferior aos 4,80% observados no período de doze meses imediatamente anterior. Ou seja, além de o mês ter sido fraco, a tendência de fundo da inflação também segue perdendo força.

Esse resultado moderado, no entanto, esconde uma dinâmica que merece explicação, porque o índice cheio de 0,06% é o resultado de dois movimentos praticamente opostos que quase se anulam. Dos nove grupos de produtos e serviços que compõem o IPCA-15, Habitação foi o que mais subiu e o que mais pesou no resultado final, com alta de 0,97% e impacto de 0,15 ponto percentual. No sentido inverso, Alimentação e bebidas caiu 0,66% e teve impacto negativo de exatamente a mesma magnitude, 0,15 ponto percentual. Na prática, a alta de um grupo foi neutralizada pela queda do outro, o que fez o índice geral ficar próximo de zero mesmo havendo pressão de preços relevante em pelo menos uma frente.

Por que a energia elétrica subiu tanto

Dentro do grupo Habitação, o item que mais chamou atenção foi a energia elétrica residencial, que subiu 3,03% e foi, isoladamente, o maior responsável pelo resultado do mês, com impacto de 0,12 ponto percentual. Essa alta não tem relação direta com aumento de consumo das famílias, mas sim com uma cobrança extra prevista no sistema de bandeiras tarifárias, mecanismo que o setor elétrico usa para repassar ao consumidor o custo adicional de gerar energia quando as condições hidrológicas são menos favoráveis. Em julho, vigorou a chamada bandeira amarela, que adiciona R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora consumidos na conta de luz. Some-se a isso a incorporação de reajustes tarifários que já haviam sido autorizados e ainda não haviam sido totalmente refletidos nas contas. O resultado é um aumento de custo que decorre de regras regulatórias e sazonais, e não de um aquecimento da demanda por energia.

Planos de saúde seguem calendário próprio de reajuste

O grupo Saúde e cuidados pessoais teve alta de 0,28%, influenciada pelos produtos de higiene pessoal, que subiram 0,51%, com destaque para o perfume, item que sozinho avançou 1,74%. Também contribuiu para essa alta o reajuste dos planos de saúde, que subiram 0,42% no mês. Esse movimento reflete a incorporação do reajuste autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que segue um calendário próprio e não está diretamente ligado à conjuntura econômica do momento. Para os planos contratados depois da Lei nº 9.656, de 1998, o teto autorizado é de até 5,11%, com vigência entre maio de 2025 e abril de 2026. Já para os planos contratados antes dessa lei, os percentuais autorizados foram de 5,52% e 6,20%, a depender do tipo de contrato.

Os demais grupos pesquisados tiveram variações mais discretas, entre a queda de 0,33% registrada em Vestuário e a alta de 0,28% de Saúde e cuidados pessoais. Esse intervalo estreito mostra que, fora as exceções já citadas, o restante da economia teve um mês de preços relativamente estáveis, o que reforça a ideia de que a moderação do IPCA-15 em julho não se deveu apenas ao recuo dos alimentos, mas a um comportamento mais contido de preços em quase todos os setores pesquisados.

Alimentos mais baratos compensam parte da pressão

Do outro lado da balança, a queda de 0,66% em Alimentação e bebidas foi puxada principalmente pela alimentação consumida dentro de casa, que recuou 1,14%. Essa queda reflete, sobretudo, a normalização de preços de itens que costumam variar bastante conforme a safra e as condições de oferta: o tomate caiu 19,95%, a batata-inglesa recuou 10,03% e o café moído teve queda de 3,13%. Vale notar que nem todos os alimentos ficaram mais baratos: a cebola subiu 7,10% e o pão francês teve alta de 0,65%, mostrando que a queda do grupo não foi generalizada, mas concentrada em alguns poucos itens de peso considerável na cesta de consumo.

Já a alimentação fora do domicílio, que inclui refeições em restaurantes e lanches, andou na direção contrária e acelerou de 0,40% em junho para 0,55% em julho. As refeições subiram 0,66%, ritmo mais forte do que os 0,39% do mês anterior, enquanto os lanches desaceleraram, de 0,45% para 0,30%. Essa diferença de comportamento entre alimentos comprados no mercado e refeições feitas fora de casa é comum em períodos como este, porque restaurantes e lanchonetes costumam repassar custos de forma mais gradual e menos sujeita às oscilações do campo, que afetam diretamente frutas, verduras e legumes.

Transportes: passagem aérea sobe, combustíveis recuam

O grupo Transportes também mudou de patamar, saindo de uma variação negativa de 0,03% em junho para uma alta de 0,11% em julho. Aqui também há dois movimentos que caminham em direções opostas. A passagem aérea subiu 11,70% e foi o principal fator de pressão dentro do grupo, um movimento que costuma estar associado a sazonalidade de viagens e a variações no preço do querosene de aviação. Em compensação, todos os combustíveis pesquisados ficaram mais baratos: o etanol caiu 2,50%, o óleo diesel recuou 1,32%, o gás veicular teve queda de 0,97% e a gasolina caiu 0,68%. O fato de todos os combustíveis terem recuado ao mesmo tempo, sem exceção, indica que o movimento provavelmente está ligado a fatores de custo, como o preço internacional do petróleo ou o câmbio, e não a uma queda pontual de demanda por transporte individual.

O que essa combinação de fatores sugere

A queda do acumulado em doze meses, de 4,80% para 4,52%, tende a ser o número que mais interessa ao Banco Central na hora de calibrar a política monetária, já que reflete uma tendência mais longa e menos sujeita a ruídos pontuais. Ainda assim, vale destacar que parte da desaceleração observada em julho vem de itens que costumam oscilar bastante de um mês para o outro, como o tomate e os combustíveis, e que podem voltar a subir nos próximos meses. Já os aumentos ligados a reajustes regulatórios, como a energia elétrica e os planos de saúde, tendem a ser mais persistentes, porque decorrem de regras já definidas e não de condições momentâneas de mercado. A divulgação do IPCA cheio de julho, prevista para as próximas semanas, deve ajudar a confirmar se essa combinação entre alívio pontual e pressão regulatória se mantém no restante do índice oficial de inflação do país.

Gráfico da variação mensal do IPCA-15 em 2026. O traçado deixa visual a desaceleração de julho, quando o índice cai a 0,06% depois de um primeiro semestre com meses mais fortes, como abril (0,89%) e fevereiro (0,84%).
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