A Smart Fit decidiu acessar novamente o mercado de capitais não para acelerar sua expansão, mas para reorganizar o passivo que sustenta esse crescimento. A companhia aprovou sua 15ª emissão de debêntures, em uma operação de até R$ 1,25 bilhão destinada principalmente ao refinanciamento de dívidas emitidas nos últimos anos. A estratégia reduz a pressão de vencimentos no curto prazo e amplia a flexibilidade financeira em um momento em que o grupo continua investindo em novas academias, mesmo operando com fluxo de caixa livre negativo.
A emissão terá volume inicial de R$ 1 bilhão, com possibilidade de aumento para R$ 1,25 bilhão, distribuída em até três séries com vencimentos de cinco, sete e dez anos. Os papéis serão remunerados a 100% do CDI acrescido de spreads entre 0,65% e 1,05% ao ano, conforme o prazo de cada tranche, e serão destinados exclusivamente a investidores profissionais.
Embora o anúncio represente mais uma captação relevante da companhia, o movimento não altera substancialmente seu nível de endividamento. O objetivo é substituir passivos existentes – principalmente debêntures emitidas em 2023 e notas comerciais lançadas em 2024 – alongando o perfil da dívida e reduzindo riscos de refinanciamento. Parte dos recursos também poderá reforçar o capital de giro.
A operação ilustra uma mudança observada entre empresas brasileiras com acesso recorrente ao mercado de crédito. Em vez de reduzir investimentos para gerar caixa e amortizar dívidas, grupos com modelos de negócios considerados previsíveis passaram a administrar o cronograma de vencimentos, preservando recursos para financiar crescimento. O foco deixa de ser a diminuição imediata da dívida e passa a ser sua gestão.
No caso da Smart Fit, essa estratégia responde a uma característica estrutural do negócio. A abertura contínua de novas unidades exige desembolsos elevados antes da maturação operacional das academias. A expansão aumenta receita e rentabilidade, mas consome caixa durante vários anos.
Segundo projeções da Fitch Ratings, a companhia deverá investir entre R$ 2,1 bilhões e R$ 2,2 bilhões por ano em 2026 e 2027, ritmo suficiente para sustentar a abertura de cerca de 280 academias próprias e 70 franquias por ano. Nesse cenário, o fluxo de caixa livre permanecerá negativo em 2026, próximo de 6,3% da receita, aproximando-se do equilíbrio apenas em 2027 e tornando-se positivo a partir de 2028.
Esse descompasso entre geração operacional e consumo de caixa explica por que o refinanciamento se tornou parte recorrente da estrutura financeira da empresa. Em vez de interromper investimentos para reduzir alavancagem, a companhia utiliza emissões de longo prazo para financiar um ciclo de expansão cuja expectativa é ampliar a geração de resultados nos anos seguintes.
A Fitch atribuiu classificação AA+(bra) à nova emissão e manteve perspectiva estável para a companhia. A agência considera que a Smart Fit reúne atributos que sustentam acesso frequente ao mercado de dívida: escala, diversificação geográfica, rentabilidade operacional e liquidez.
A empresa opera cerca de 2,1 mil unidades, incluindo franquias, atende 5,6 milhões de clientes em 16 países e obtém mais de 60% da receita e da geração de caixa fora do Brasil, principalmente em México, Chile e Peru. Essa diversificação reduz a dependência do ciclo econômico brasileiro e distribui riscos entre diferentes mercados.
Outro fator observado pela agência é o TotalPass, plataforma corporativa de benefícios que reúne mais de 44 mil academias credenciadas. O negócio amplia a exposição da companhia ao mercado de benefícios corporativos sem exigir investimentos equivalentes aos necessários para abertura de novas unidades, funcionando como uma fonte adicional de crescimento com menor intensidade de capital.
Apesar da classificação elevada, a Fitch identifica limitações na estrutura financeira. A principal delas permanece sendo a combinação entre investimentos elevados, geração recorrente de fluxo de caixa livre negativo e cobertura relativamente apertada das despesas financeiras e dos contratos de aluguel.
A agência estima que a relação entre EBITDAR e despesas com juros e aluguéis fique em torno de 1,8 vez em 2026, abaixo do observado em diversos emissores com classificação semelhante. A dívida ajustada também permanece elevada: a projeção aponta alavancagem de 3,9 vezes o EBITDAR em 2026, recuando para 3,5 vezes em 2027 conforme as novas academias amadureçam e passem a contribuir integralmente para os resultados.
Ao fim de 2025, a dívida ajustada alcançava R$ 13,8 bilhões, incluindo aproximadamente R$ 6,3 bilhões em obrigações de arrendamento, componente relevante para empresas que dependem de uma extensa rede de imóveis comerciais.
Mesmo assim, a liquidez continua sendo um dos principais pontos de sustentação do rating. A Fitch projeta caixa superior a R$ 3 bilhões ao final de 2026, suficiente para cobrir os vencimentos previstos até meados de 2028. O cronograma de amortizações também permanece distribuído, com cerca de R$ 900 milhões vencendo em 2026, R$ 1,1 bilhão em 2027 e R$ 1,6 bilhão em 2028.
O refinanciamento ocorre em um contexto em que o mercado latino-americano de academias ainda apresenta espaço para expansão. Segundo a Fitch, a penetração do setor varia entre 2% e 5% da população nos principais países da região, enquanto mercados como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Espanha registram taxas entre 10% e 24%.
Esse potencial de crescimento explica por que a companhia mantém um ritmo elevado de abertura de unidades mesmo com pressão sobre o caixa. O desafio, segundo a agência, não está apenas em continuar expandindo a rede, mas em manter a ocupação das academias em um setor caracterizado por elevada rotatividade de clientes, baixo custo de migração entre concorrentes e aumento da competição por pontos comerciais.