1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Como o Tarifaço de até 37,5% Pode Atingir Empresas e Investimentos no Brasil, Segundo Especialistas
Forbes Money

Como o Tarifaço de até 37,5% Pode Atingir Empresas e Investimentos no Brasil, Segundo Especialistas

Nova sobretaxa dos Estados Unidos amplia a pressão sobre exportadores e pode atingir crédito, venture capital e decisões de expansão das empresas

7 min

A nova tarifa de 12,5% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros pode elevar a cobrança total a 37,5% sobre parte das exportações do país. Para especialistas, no entanto, o impacto não ficará restrito às empresas que vendem diretamente ao mercado americano. A medida pode pressionar o dólar, dificultar a queda dos juros e aumentar a cautela dos investidores.

A sobretaxa entrou em vigor nesta sexta-feira (24) e faz parte de uma ação comercial contra 60 economias. O governo americano afirma que esses países não adotaram ou não aplicaram de forma efetiva mecanismos para barrar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A taxação alcança 4.060 produtos brasileiros, equivalentes a US$ 12,4 bilhões em exportações para o país, cerca de 29,4% de tudo o que o Brasil vende para os EUA.

A decisão alcança parceiros responsáveis por 99,4% das importações americanas. Os Estados Unidos fixaram uma tarifa de 10% para países que adotaram alguma proibição ou assumiram compromissos nessa direção. Para os demais, entre eles o Brasil, a alíquota ficou em 12,5%, com exceções para determinados produtos, segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR.

A nova cobrança se soma à tarifa de 25% que entrou em vigor na quarta-feira (22), também com uma lista de exceções. Nos produtos atingidos pelas duas medidas, a sobretaxa pode chegar a 37,5%.

“O maior risco não está apenas nos 12,5%. Está na possibilidade de sucessivas medidas transformarem uma questão tarifária em um período mais longo de incerteza”, afirma Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest.

Empresas podem rever investimentos e contratações

A primeira reação deve aparecer nas decisões de produção, formação de estoques e investimento das companhias mais dependentes dos Estados Unidos. O tamanho do efeito sobre a economia brasileira dependerá dos produtos atingidos, da sobreposição entre as tarifas e da capacidade das empresas de encontrar novos compradores.

Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, afirma que o redirecionamento das vendas poderá absorver parte da perda comercial. Caso a disputa se prolongue, porém, o ajuste tende a chegar gradualmente à atividade econômica, à balança comercial e ao câmbio.

A pressão também pode avançar pela cadeia de fornecedores. Uma exportadora obrigada a reduzir sua margem pode cortar encomendas, renegociar contratos ou adiar projetos de tecnologia e expansão. Prestadores de serviços e negócios ligados a essas companhias passariam a sentir os efeitos mesmo sem exportar diretamente.

Para Patrus, a falta de clareza sobre o custo de entrada no mercado americano leva as empresas a rever investimentos, contratações e até a localização de determinadas operações.

“Quando uma empresa deixa de saber com clareza qual será o custo para acessar determinado mercado nos próximos meses, a reação natural é revisar investimento, margem, contratação, expansão e até a localização de determinadas operações”, diz.

Dólar e juros entram na conta

A tarifa também pode atingir o Brasil pelo mercado financeiro. André Matos, CEO da MA7 Capital, chama a atenção para o alcance global da medida. Diferentemente da sobretaxa de 25%, direcionada ao Brasil, a nova cobrança envolve dezenas de parceiros comerciais dos Estados Unidos.

Se as empresas repassarem parte do custo aos consumidores americanos, a inflação nos Estados Unidos poderá ganhar nova pressão. Isso reduziria o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve, o banco central do país.

Juros americanos altos por mais tempo tendem a fortalecer o dólar e atrair recursos para os Estados Unidos. Para economias emergentes, o resultado pode ser saída de capital, desvalorização das moedas e queda das bolsas.

O Brasil enfrenta os dois canais ao mesmo tempo: a perda de competitividade de seus produtos nos Estados Unidos e a possibilidade de um ambiente financeiro internacional mais restritivo.

No mercado doméstico, os efeitos sobre a inflação não caminham em uma única direção. A alta do dólar encarece insumos importados e pode pressionar os preços. Uma desaceleração da atividade, por outro lado, reduz a capacidade das empresas de repassar custos.

Araújo avalia que a nova tarifa não impede automaticamente novos cortes da Selic, mas aumenta a dependência dos próximos dados de câmbio, inflação e expectativas.

“O risco para a política monetária está menos na tarifa em si e mais na combinação entre depreciação persistente do real, estímulos fiscais para setores afetados e deterioração das projeções inflacionárias”, afirma.

Crédito de R$ 18,5 bilhões pode aliviar impacto

O governo federal anunciou R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito para empresas atingidas pelas tarifas americanas. Desse total, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES.

Os recursos devem financiar capital de giro, compra de máquinas e equipamentos, investimentos e a busca por novos mercados. Entre os setores contemplados estão agricultura, mineração, indústrias química e farmacêutica, fertilizantes, setor têxtil, máquinas e equipamentos e indústria automotiva.

Para Araújo, as linhas podem reduzir o impacto imediato sobre a produção e o emprego, desde que sejam direcionadas a empresas economicamente viáveis e tenham duração limitada.

Uma resposta ampla ou prolongada elevaria o custo fiscal e poderia pressionar os juros de longo prazo. Nesse cenário, o crédito não desapareceria, mas seria distribuído de maneira mais seletiva.

Os setores exportadores mais atingidos passariam a demandar liquidez adicional. Ao mesmo tempo, negócios voltados ao mercado interno ou beneficiados pelo redirecionamento do comércio poderiam atrair recursos.

Estruturas como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, também podem ganhar espaço ao transformar recebíveis em fonte de financiamento. A volatilidade, porém, exigirá garantias mais robustas, prazos adequados e maior controle sobre a concentração de risco em cada setor.

Venture capital pode reduzir exposição aos EUA

A incerteza também alcança startups e fundos de venture capital. Empresas jovens costumam ser avaliadas pela expectativa de crescimento futuro e, por isso, são mais sensíveis a mudanças nas condições econômicas e comerciais.

Patrus prevê rodadas de investimento mais demoradas, avaliações mais conservadoras e maior cobrança sobre startups que dependem de expansão internacional ou de cadeias de suprimento expostas ao comércio exterior.

Os fundos tendem a privilegiar negócios com geração de caixa mais próxima, menor dependência do mercado americano e operações distribuídas por diferentes países.

Entre os segmentos menos expostos a choques externos, Patrus cita fintechs domésticas, empresas de software para o agronegócio e negócios B2B com receita em reais.

O movimento também pode acelerar a busca por Europa, Oriente Médio e Ásia. Os Estados Unidos continuarão relevantes para capital, tecnologia e aquisições, mas empresas brasileiras poderão rever a velocidade e o formato de entrada no país.

Uma negociação entre Brasília e Washington poderia reduzir rapidamente parte do prêmio de risco incorporado ao câmbio e aos juros. Se o conflito avançar, empresas e investidores deverão exigir mais previsibilidade antes de comprometer capital.

“Investimento é uma decisão sobre o futuro. Quanto mais difícil fica projetar custos, acesso a mercados e regras comerciais, maior é a tendência de empresas e investidores elevarem o nível de exigência”, afirma Patrus.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.