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Tarifas dos EUA Ao Brasil: o Choque, a Virada e a Ironia 

Tarifa de 25% entra em vigor, mercado absorve o choque, mas o efeito colateral é a maior dependência da China

7 min

Acompanhar o mercado de investimentos brasileiro implica lidar, entre outras coisas, com uma realidade incômoda: o país acaba de receber o maior choque tarifário de sua história comercial recente, mas a reação do mercado financeiro foi relativamente pequena. Em 15 de julho, os Estados Unidos confirmaram tarifa adicional de 25% sobre aproximadamente três mil produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho, o que tornou o Brasil o país mais afetado pelas tarifas americanas desde que Donald Trump retornou à Casa Branca.

Mas a aparente calmaria no Ibovespa não significa que o problema é pequeno: apenas o mercado já havia precificado o choque, e a tarifa de 25% veio abaixo do cenário mais pessimista, que apontava para algo em torno dos 50%. Com isso, a narrativa que fica é incompleta se você se pautar exclusivamente pelas manchetes do noticiário, pois há três camadas nesta história que precisam ser lidas juntas: o choque imediato, a virada estratégica do Brasil e a ironia econômica que emerge quando essas duas se cruzam.

O choque: o que foi atingido e o que foi poupado

A tarifa de 25% atingiu etanol, máquinas agrícolas e industriais, calçados, produtos de madeira e açúcar orgânico. Mais de 2.100 produtos foram retirados da lista original em revisão, e os setores que têm movimentado a economia brasileira nos últimos anos ficaram de fora: carne bovina, café, suco de laranja, petróleo bruto e aeronaves civis. Dessa forma, por exemplo, a Embraer, maior exportadora industrial do país, não foi tocada.

O aço e o alumínio, que já sofriam tarifa de 50% sob a chamada Seção 232 (segurança nacional) desde 2025, continuam no patamar mais alto, tornando a perda de competitividade nesses setores estrutural, não conjuntural, já que aproximadamente 50% das exportações brasileiras de aço, alumínio e cobre tinham os EUA como destino principal.

No mercado de ações, a reação foi contida, com quedas pontuais, como foi o caso de Gerdau (GGBR4) , CSN (CSNA3) e Usiminas (USIM5) que acusaram a pressão em suas cotações logo após o anúncio. E aqui quero trazer um aspecto importante: quando os EUA sinalizaram redução de tarifas sobre o aço em junho, as três ações subiram até 9% num único pregão, o que demonstra que a sensibilidade do setor siderúrgico a qualquer movimento na política tarifária americana é altíssima, portanto, o investidor que tem exposição a esses papéis precisa precificar essa volatilidade como variável permanente, não como evento isolado.

A virada: o Brasil estava se movendo antes do choque

O que acontece quando o seu maior parceiro comercial fecha a porta? O Brasil respondeu antes de a pergunta ser feita: o acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026, dois meses antes do tarifaço americano. O acordo cria uma zona de livre comércio de 700 milhões de pessoas e PIB de US$ 22,4 trilhões, e mais de 5 mil produtos brasileiros passaram a ter tarifa zero imediata no mercado europeu, uma aprovação pela UE que veio em janeiro deste ano, após incríveis três décadas de negociações.

Com isso, mais de 80% das exportações brasileiras para a UE agora operam sem tarifa, e os setores beneficiados são exatamente os que o agronegócio brasileiro domina: carnes, grãos, café e sucos. Enquanto isso, o setor de etanol, um dos mais atingidos pela nova tarifa americana, já recalcula rotas de exportação, segundo a UNICA, a associação que representa o setor sucroenergético.

A ironia: diversificação que cria nova dependência

Aqui vejo um ponto de atenção importante: as tarifas de Trump aceleram a diversificação comercial do Brasil, e isso é positivo. Mas, afinal, diversificar para onde? A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, e a perda de acesso ao mercado americano tende a ampliar essa dependência. O risco é que o Brasil saia de uma relação comercial assimétrica com os EUA para uma relação ainda mais assimétrica com a China, em que o país exporta commodities de baixo valor agregado e importa manufaturados de alto conteúdo tecnológico.

Em economia, existe um conceito clássico formulado em 1950 por Jacob Viner (economista canadense, considerado um dos pais da teoria das uniões aduaneiras e um dos fundadores da teoria moderna de integração econômica) que ajuda a entender o que está acontecendo. Viner distingue entre criação de comércio, quando um acordo comercial leva a fontes mais eficientes, e desvio de comércio, quando leva a fontes menos eficientes.

O Brasil corre o risco de vivenciar o desvio: ao perder o mercado americano, redireciona exportações para parceiros que podem não ser os mais eficientes, mas são os únicos disponíveis no curto prazo.

O acordo com a União Europeia é um contraponto estrutural a essa tendência, porque abre um mercado consumidor de alta renda para produtos brasileiros com maior valor agregado, incluindo máquinas, alimentos processados e matérias-primas industriais. Mas o acordo vai levar anos para maturar, então, o investidor que opera com horizonte curto precisa saber distinguir entre o efeito imediato da tarifa, negativo para exportadores, e o efeito de longo prazo da diversificação, potencialmente positivo para a economia.

Três lições para o investidor e um efeito colateral para Trump

O mercado absorveu o choque porque a tarifa de 25% já estava precificada e os setores mais relevantes do PIB brasileiro ficaram isentos, e a lição acontece pedagogicamente: o investidor que saiu de renda variável assustado com os ruídos perdeu a recuperação.

As siderúrgicas operam com sensibilidade extrema a qualquer sinal sobre tarifas americanas, portanto, são papéis para quem tem tolerância à volatilidade, entende o ciclo e sabe diferenciar as especificidades que influenciam no negócio de cada uma dessas companhias. A Gerdau, por exemplo, oferece proteção parcial pelo lado de sua operação americana, o que a torna uma escolha mais defensiva dentro do setor, e esta é, inclusive, a leitura do Goldman Sachs.

O terceiro aprendizado é quanto ao acordo Mercosul-UE, um vetor de longo prazo que ainda não está nos preços. Empresas com capacidade de exportar produtos de maior valor agregado para a Europa, em setores de alimentos processados, máquinas e insumos industriais, têm um vento de cauda estrutural que merece ser monitorado por quem investe com horizonte de longo prazo.

E a ironia final deste enredo é que Trump pode estar acelerando exatamente o resultado que menos lhe interessa: um Brasil comercialmente menos dependente dos Estados Unidos. Para o investidor, a leitura prática é direta: ruído tarifário isolado e já precificado não pode ser motivo para girar a carteira. Além disso, é essencial acompanhar os desdobramentos do acordo Mercosul-União Europeia como vetor estrutural de médio prazo e manter o radar ligado para o avanço da dependência comercial com a China, porque é ali, não na tarifa americana, que mora o risco real desta história.

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