A Estônia é um país que tem o tamanho equivalente ao estado do Espírito Santo, ou metade da área de Portugal. Nos bálticos, ao norte da Europa, o país tem cerca de 1,3 milhão de habitantes, menos do que 10% da população da cidade de São Paulo. O país, no entanto, tem renda per capita três vezes superior à do Brasil e uma economia moderna, com 160 mil empresas ativas ao fim do ano passado, segundo Statistics Estonia. Existe, aproximadamente, uma startup para cada 869 habitantes.
Foi a Estônia o berço de gigantes como a Wise, de transferências globais de dinheiro, a plataforma de CRM Pipedrive, e o Skype, que teve suas operações encerradas em maio do ano passado pela Microsoft.
Lennart Meri, escritor, cineasta, diplomata e o primeiro presidente da Estônia após a restauração da independência, defendia que o país deveria abraçar a tecnologia e a economia global. “Uma nação pequena deve ser mais internacional do que uma grande nação. Uma nação pequena deve ser aberta”, disse, em um discurso na década de 1990.
O país recuperou sua soberania da União Soviética em 1991, em meio a um movimento de independência conhecido como “Revolução Cantante”.
Depois disso, o país priorizou firmar uma democracia sólida, uma economia de livre concorrência e global, além de uma máquina pública funcional e pouco burocrática — e nos últimos anos, naturalmente mais digital.
Edilson Osório Jr nasceu no Brasil, mas vive e administra sua empresa na Estônia. Ele viveu o calor tropical e também as temperaturas de -5°C a -10°C do inverno estoniano. Todavia, o que ele relata em entrevista mostra que o maior contraste, definitivamente, não reside nos fatores climáticos.
Cientista computacional, professor e especialista em segurança da informação e infraestrutura, Osório Jr fundou a OriginalMy, uma startup que atua promovendo “mais segurança, privacidade e economia para governos, empresas e pessoas através de soluções confiáveis em Blockchain”.

Entre as soluções desenvolvidas por ele esteve uma ferramenta que permitiu validar as assinaturas de milhões de pessoas para o Projeto de Lei da Ficha Limpa, que foi balizado via iniciativa legislativa popular no Brasil. A OriginalMy também usa blockchain para validar e preservar provas digitais de crimes e derivados, como um comentário em uma rede social ou uma postagem — funcionalidade que caiu nas graças dos advogados brasileiros.
No entanto, estando no país onde os cartórios são relevantes, dominam parte da burocracia e fazem lobby, a empresa cresceu e arranjou inimigos.
“Sofremos muita perseguição no Brasil. Em 2017 a situação chegou a um patamar insuportável. Eu já tinha recebido inclusive ameaças, e os advogados falaram ‘bom, pela sua vida e pela empresa se você quiser continuar com seu negócio, vai ter que sair do país; o Brasil não está sendo um local muito amigável para você continuar com o que você está fazendo'”, conta, em entrevista à Forbes.
Os mesmos advogados fizeram uma pesquisa junto à empresa sobre qual seria o melhor país para a OriginalMy. Analisaram 40 jurisdições, para então decidir para onde a companhia iria.
Considerando fatores tributários, regulação, custos e a estratégia da companhia, foi montada uma lista. A Suíça ficou em segundo lugar, com uma regulação moderna de blockchain, mas a Estônia ficou em primeiro lugar, sendo “dezenas de vezes mais barata” para estabelecer a empresa em relação à Suíça, segundo Osório Jr.
Quando chegou ao país fisicamente, percebeu que, na verdade, só precisava estar por lá digitalmente — pelo menos para os seus objetivos naquele momento.
De sexta à segunda, nasce uma startup brasileira em solo báltico
Osório Jr relata que ele foi, primeiro, a uma viagem de negócios para a Coreia do Sul. Na volta, passou na Estônia para resolver a burocracia. Chegando por lá, se assustou com tamanho contraste com a burocracia usual do Brasil.
Antes de ir ao país, ele havia dado entrada com seu e-Residency, uma identidade digital oficial criada pelo governo da Estônia em meados de 2014. Com o documento em mãos, planejava ficar algum tempo no país, com a percepção comum de um brasileiro de que levariam semanas para abrir uma empresa.

Aos risos, conta que o que passou é uma das histórias mais engraçadas da sua vida.
“Eu fui a uma empresa que é uma espécie de despachante, e falei ‘olha, me ajuda a abrir uma empresa’. E eles: ‘não, você mesmo pode fazer isso’. Eu falei que não faria, porque tinha aquela ideia do Brasil, de que se não tiver um despachante ou um contador para fazer o trabalho para mim, não vai dar certo. Eu falei que queria pagar para abrir a empresa lá”, relata.
“Depois de muita insistência eles concordaram. Era uma sexta-feira às cinco horas da tarde. Eu saí do escritório. Depois disso, na segunda-feira às 11 horas da manhã, eles me ligaram falando, ‘sua empresa está aberta, está aqui o número do registro, você pode ir ao banco’. Na minha cabeça isso era algo inconcebível de existir”, segue.
Depois do episódio, Osório Jr descobriu que o e-Residency, na verdade, permite a estrangeiros abrir e administrar uma empresa estoniana de forma totalmente online. Ou seja, ele poderia ter feito o processo de abertura da companhia digitalmente, em uma série de etapas que leva menos do que trinta minutos.
Uma em cada cinco empresas da Estônia é de alguém com e-Residency
Ao fim de julho deste ano, existiam mais de 142 mil e-Residents na Estônia, de mais de 170 países. Eles fundaram mais de 43 mil empresas, o que significa que uma em cada cinco empresas criadas no país foi fundada por um e-Resident.
A Forbes entrou em contato com o órgão público que cuida do programa de e-Residency na Estônia. Os dados oficiais cedidos pela instituição apontam que 48% das startups da Estônia fundadas entre 2024 e 2025 são vinculadas a e-Residents.
O programa também é um ganha-ganha para o país, visto que são recolhidos impostos dos e-Residents.
Uma publicação oficial indica que o ano de 2025 foi recorde para o programa, com abertura de 5,5 mil empresas no ano, aumento de 15% ante o ano anterior. O estado estoniano recolheu € 125 milhões (R$ 751 milhões) em receitas diretas provenientes dos e-residents na mesma janela, alta de 87% no comparativo anual.
“Para colocar em perspectiva, isso representa 0,5% do orçamento do governo do ano passado. Então há um impacto relevante e real. Ao longo dos anos, se você somar todos esses números, foram 450 milhões de euros para os cofres da Estônia em 12 anos”, afirma Liina Vahtras, diretora-executiva do Programa de e-Residency e membro do Conselho de Administração do Enterprise Estonia, em entrevista à Forbes.
“O valor que o governo investe no programa é de aproximadamente 10 milhões de euros, para mantê-lo funcionando e promovê-lo. Com base no ano passado, podemos dizer que nosso retorno sobre o investimento ROI é 12 vezes superior, mas a média geralmente fica entre 7 e 8”, conclui.
O custo para tirar o e-Residency é de cerca de €150 (R$ 900), valor que é uma taxa estatal. Não há cobrança anual ou mensalidade. O cartão tem validade de cinco anos.

A análise da solicitação leva normalmente até 30 dias corridos e, após a aprovação, o cartão costuma ficar disponível para retirada em 2 a 5 semanas. Na prática, o governo informa que a maioria dos e-Residents recebe o cartão em dois a quatro meses após a solicitação, considerando todo o processo.
Esses números corroboram o que Vahtras relata que, na prática, é tratar a inclusão e a emancipação digital como política de Estado.
“Ter Wi-Fi em todos os lugares da Estônia passou a ser considerado um direito humano. Havia campanhas que diziam: ‘ensine sua avó a usar um computador’ ou ‘ensine seu avô a transferir dinheiro online’. Essas campanhas existiam para educar as pessoas, mas também para garantir que as nossas empresas tivessem engenheiros suficientes para construir esses sistemas.”
Um visto para as startups chamarem de seu
Edilson Osório Jr também participou de outra iniciativa com uma tônica parecida.
Ele foi o primeiro caso de Startup Visa, do Startup Estonia. Enquanto o e-Residency é focado em criar empresas vinculadas à Estônia remotamente, esse mecanismo tem a ver com imigração e direito de residência.
Em suma, o Startup Visa permite que empreendedores e fundadores de startups de fora da União Europeia levem para o país empresas com potencial de crescimento internacional, modelo inovador e capacidade de escala.
Após passar no crivo do Startup Committee, a pessoa recebe o chamado Startup Status e passa a estar apta para solicitar seu visto ou, conforme o caso, uma autorização de residência no país. Ou seja, é um incentivo direto que permite morar e trabalhar na Estônia.

Sendo um caso exemplar das iniciativas do país, Osório Jr se tornou embaixador do programa ao se aproximar do Startup Estonia, braço do governo para incentivar startups.
Ele relata que o programa, em parte, quis limitar a fuga de talentos profissionais e de empresas promissoras.
“Muitos jovens estavam saindo para estudar e trabalhar na Lituânia, na Finlândia, ou em outros países. A ideia foi fazer com que as empresas se estabelecessem fisicamente na Estônia e pudessem contratar esses jovens.”
As pessoas mais ricas da Estônia estão em startups
Sendo a startup que mais emprega no país, a Wise prevê manter a presença física no país, além de seguir gerando empregos.
“Assim como nos nossos outros escritórios, nossa presença em Tallinn continua crescendo. Somos uma equipe verdadeiramente global trabalhando junta para tornar o envio e o gerenciamento de dinheiro cada vez mais rápido, barato e conveniente”, diz Lars Trunin, Diretor da Wise para o Reino Unido e Europa, à Forbes.
Tallinn, a capital do país, é o maior hub operacional e de engenharia da Wise, com mais de 2,2 mil funcionários, que representam aproximadamente 25% do time global (9 mil pessoas).

Trunin atesta que o “ambiente de negócios da Estônia acelerou o desenvolvimento da Wise e deu à empresa uma vantagem competitiva”.
“Por ser uma nação relativamente jovem e focada em resolver problemas por meio da tecnologia, a Estônia tornou-se um ímã natural para os melhores talentos de engenharia.”
O fundador da startup, Kristo Käärmann, tem fortuna avaliada em US$ 2,4 bilhões pela Forbes. Ele fundou a companhia em meados de 2011 como TransferWise e abriu o capital da empresa, rebatizada como Wise, em 2021, na Bolsa de Londres.
Käärmann e seu cofundador, Taavet Hinrikus, tornaram-se os dois primeiros bilionários da Estônia e atualmente são as duas pessoas mais ricas do país.
Como a Estônia prosperou após a queda do muro de Berlim — e o que a OCDE diz sobre o país
A estratégia de se tornar um país de livre mercado, digital e funcional fez parte de uma estratégia para recuperar o emprego e a renda após o fim da União Soviética.
Em meados de 1991, o PIB per capita do país era de US$ 8,63 mil, segundo dados do Banco Mundial. Em 2025, o indicador terminou o ano em US$ 20,2 mil.
Em 1994, o país abandonou a estrutura progressiva do imposto de renda e adotou uma alíquota única de 26% para pessoas físicas. Posteriormente, essa alíquota foi reduzida para 22%.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), foi o primeiro país a adotar o chamado flat tax, simplificando drasticamente o sistema tributário.
A partir de 2000, o governo parou de cobrar imposto corporativo sobre lucros que permanecessem dentro da empresa. Em resumo, se uma companhia investe todo o seu lucro para expandir operações e contratar funcionários, não paga um centavo em impostos e tributos.
A OCDE, aliás, considera que a Estônia foi o melhor país em termos de competitividade tributária por 12 anos consecutivos.

Um documento da OCDE de 2011 considera que o país viveu uma transformação radical e bem-sucedida desde a restauração de sua independência em 1991.
“A Estônia também demonstrou sua capacidade de responder de forma rápida e ágil em tempos de crise social ou de grande necessidade (…) o país tem uma infraestrutura estatal bem estabelecida, incluindo sistemas e componentes para apoiar o desenvolvimento do governo eletrônico, semelhantes aos dos países mais avançados da OCDE”, diz o parecer.
Com 45 mil quilômetros de área e ainda longe de uma população 2 milhões, o país cresceu, mas de forma distinta de seus pares.
Jakob Hurt, pastor luterano, linguista, folclorista e uma das principais figuras do despertar nacional da Estônia no século XIX, cunhou um lema em seus discursos públicos que dizia: “Se não podemos ser grandes em números, devemos ser grandes em espírito.”