Com o CDI acumulando 14,71% nos 12 meses até o fim de julho, investir em fundos de crédito não significou necessariamente ganhar mais dinheiro. Um levantamento da Outliers Advisory, elaborado com dados da Quantum Finance, Anbima, Banco Central, B3 e CVM, mostra uma diferença importante entre os produtos: enquanto a mediana de retorno dos 170 fundos analisados ficou praticamente em linha com o CDI, os melhores chegaram a entregar quase 3 pontos percentuais acima do benchmark.
A amostra reúne fundos de renda fixa e multimercados de estratégia predominantemente high grade e prazo de resgate inferior a 46 dias. A mediana de retorno ficou em 14,75%, apenas 0,04 ponto percentual acima do CDI, uma vantagem que pode praticamente desaparecer quando entram na conta taxas de administração e tributação.
É no topo do ranking, porém, que aparece a principal diferença. O fundo com maior retorno acumulou 17,64% em 12 meses, cerca de 2,93 pontos percentuais acima do CDI. Entre os 20 melhores colocados, a rentabilidade média foi de 15,94%.
Na parte de baixo da lista, porém, muitos fundos ficaram próximos do CDI ou abaixo dele. E há outro detalhe relevante: a distância entre os primeiros colocados é pequena. Líder e vice-líder estão separados por apenas 0,01 ponto percentual. Isso significa que o ranking, sozinho, não é suficiente para determinar quais são os melhores gestores ou fundos.
O que explica a diferença de retorno
Em fundos de crédito, uma janela de 12 meses pode ser insuficiente para avaliar a consistência de uma estratégia. A recomendação usual é observar períodos de pelo menos 12 a 24 meses e analisar fatores que vão além da rentabilidade, como liquidez, qualidade e pulverização dos créditos, concentração por devedor, histórico de inadimplência e estrutura de garantias.
“Quando o CDI já entrega uma remuneração elevada, alguns décimos acima do benchmark não justificam automaticamente uma exposição maior”, afirma Gustavo Assis, CEO da Asset, gestora cujo fundo, o Asset Bank FIC FIDC, liderou o recorte analisado.
A avaliação, contudo, deve ser considerada no contexto de uma parte interessada, já que o fundo administrado pela gestora aparece na primeira posição do levantamento. Para Assis, o investidor precisa entender de onde vem o prêmio de retorno: se da eficiência da gestão e da qualidade da carteira ou de fatores como maior concentração, menor liquidez e maior risco de crédito.
O debate ganha relevância com o crescimento do crédito estruturado no mercado brasileiro. Os FIDCs se consolidaram como uma alternativa de financiamento para empresas e, no primeiro semestre, suas ofertas superaram as emissões de debêntures em número de operações.
O patrimônio líquido da classe também segue em trajetória de recorde e caminha para a casa de R$ 1 trilhão, embora os valores apresentados no material de origem divirjam dos dados mais recentes da Anbima.
Selic menor aumenta importância da seleção
A queda dos juros tende a mudar a régua para os fundos de crédito. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em 5 de agosto, no quarto corte consecutivo, enquanto o IPCA desacelerou para 0,07% em julho e acumulou 4,44% em 12 meses.
Com a queda dos juros, a remuneração nominal dos investimentos pós-fixados tende a diminuir. Nesse ambiente, o spread oferecido pelo crédito privado pode ganhar maior peso na rentabilidade dos fundos.
“A queda da Selic não elimina a oportunidade no crédito, mas muda a régua”, diz Assis.
Na prática, com um CDI menos elevado, a capacidade de um gestor de selecionar bons créditos, estruturar operações e controlar riscos tende a pesar mais no resultado. A vantagem, portanto, não está necessariamente em assumir mais risco, mas em encontrar operações capazes de oferecer prêmio sem deteriorar a qualidade da carteira.
Para o investidor, o ranking funciona como ponto de partida, não como ponto de chegada. A diferença entre ganhar pouco acima do CDI e entregar um retorno consistentemente superior pode estar menos na posição ocupada em um determinado período e mais na qualidade dos créditos, na gestão do risco e na capacidade de preservar o prêmio ao longo do ciclo.