O otimismo do setor de infraestrutura brasileiro está em baixa. A parcela de gestores, investidores e especialistas que enxerga um cenário favorável para novos investimentos nos próximos seis meses caiu de 54,2% para 37,8% em um semestre, recuo de 16,4 pontos percentuais. Os dados são da 15ª edição do Barômetro da Infraestrutura, pesquisa semestral realizada pela EY-Parthenon, braço de estratégia e transações da EY, em parceria com a ABDIB (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).
A avaliação desfavorável saltou de 20,4% para 30,9%. O movimento interrompe a recuperação registrada na edição anterior, quando o otimismo havia atingido o pico da série histórica.
A leitura agora é de cautela. “Esse recuo relevante da percepção favorável interrompe a trajetória de recuperação observada na edição anterior. O resultado sugere um ambiente mais cauteloso, em que a expectativa de continuidade dos investimentos permanece presente, mas com menor convicção quanto às condições de promoção de novos projetos no curto prazo”, afirma Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon para Governo e Infraestrutura. Ele lista os fatores por trás da retração: eleições, os efeitos da guerra no Oriente Médio, inflação, juros, preço do petróleo, logística, protecionismo comercial e Reforma Tributária.
O clima cauteloso se instalou após o melhor ano da história recente do setor. Em 2025, os investimentos em infraestrutura somaram R$ 280,4 bilhões, novo recorde da série iniciada em 2010.
O setor privado foi o protagonista da temporada, respondendo por cerca de 80% dos aportes que reforça o peso crescente de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), contratos em que a iniciativa privada assume a construção e a operação de serviços públicos em troca de tarifas ou de pagamentos do governo.
Para Venilton Tadini, presidente-executivo da ABDIB, o país ainda investe pouco. “Apesar do crescimento nos últimos anos, ainda há um hiato de investimento em infraestrutura. Para suprir isso, o país precisaria investir, por ano, por um período de 10 anos, cerca de R$ 225 bilhões a mais do que investe hoje”, diz o executivo.
Os investidores seguem atentos ao custo do dinheiro. Com inflação resistente e juros altos, o financiamento de obras de longo prazo fica mais caro. “Para infraestrutura, isso significa maior pressão sobre o custo médio de capital, tarifas, contraprestações públicas, outorgas e necessidade de estruturas de funding mais robustas”, aponta Tadini. Em bom português: projetos que levam anos para dar retorno ficam mais difíceis de bancar quando o crédito encarece.
Reforma Tributária, eleições e a corrida do setor
A agenda doméstica está no centro do debate e a Reforma Tributária deixou de ser uma preocupação distante: 62% das empresas ouvidas já estudam os impactos da mudança sobre seus contratos. Ainda assim, mais de 17% não souberam responder sobre o tema. “Isso reforça a assimetria de maturidade entre os agentes na preparação para os impactos da nova estrutura tributária sobre os contratos de concessão”, avalia Gusmão.
As eleições de outubro também preocupam o setor. Em um cenário de vitória de um candidato de oposição ao Lula, 43,9% dos respondentes esperam impacto positivo sobre os investimentos contra 26,2% que projetam impacto negativo. Já numa eventual continuidade do governo atual, 31% acreditam no efeito negativo sobre os investimentos.
A pesquisa ouviu 233 respondentes entre 8 e 23 de junho de 2026 e revelou que entre os segmentos, o saneamento básico manteve a liderança nas intenções de investimento para os próximos três anos, com 50,4%, seguido por rodovias 45,7%. O destaque da edição foi o avanço do otimismo nas ferrovias, que subiram de 32,8% para 40,9%, assumiram a terceira posição.