O Prime Video está aumentando sua aposta na América Latina em um momento em que o mercado de streaming se torna mais disputado e o público, mais exigente. Até 2030, a plataforma pretende mais que dobrar suas produções originais locais, segundo os executivos responsáveis pelo conteúdo na região.
Em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, Tomás Tejero, líder regional do Prime Video para América Latina e Canadá, e Javiera Balmaceda, Head de Originais Internacionais para América Latina, Canadá e Austrália, disseram que os desafios de operar na região são também janelas de oportunidade.
A avaliação se apoia em uma década de operação local e nos resultados obtidos até agora. Segundo Tejero, a empresa já acumulou “algumas histórias de sucesso” na região, como Tremembé, e transformou os erros e acertos desse período em uma espécie de vantagem competitiva para a próxima fase de expansão.
“É claro que todo investimento tem risco”, afirmou. Mas, para o executivo, a experiência adquirida na América Latina permite que a companhia avance com mais segurança.
Atualmente, o Prime Video atende a mais de 200 milhões de clientes fora dos Estados Unidos. Neste mês, durante o evento “Prime Video Presents Latin America”, na Cidade do México, a empresa anunciou planos de investir mais de US$ 2 bilhões (R$ 10,38 bilhões) na região entre 2027 e 2030.
O dinheiro será destinado a produções originais locais, aquisição de conteúdo produzido na região e direitos de transmissões esportivas no México, Brasil, Argentina, Colômbia e Chile.
Mais do que ampliar o catálogo, a aposta revela uma mudança de escala. A companhia terá de decidir onde colocar o dinheiro em um mercado no qual o público já não se contenta apenas com mais opções de entretenimento.
Régua alta
Para Balmaceda, um dos principais desafios da expansão é justamente atender à expectativa de um público cada vez mais exigente. No Brasil, no México e na Argentina, segundo ela, os consumidores demonstram preferência crescente por produções locais.
“Nós temos uma régua muito alta. E as audiências insistem nesse padrão elevado”, comentou.
Isso ajuda a explicar por que a empresa não pretende simplesmente multiplicar o número de títulos na mesma proporção do orçamento. Mais dinheiro, na visão da executiva, não deve significar uma avalanche de produções.
“Não vamos produzir 50 títulos de uma vez só porque temos mais recursos. O público de hoje é extremamente inteligente; eles sabem quando você está apenas tentando agradar de forma barata ou buscando um lucro rápido”, disse.
A aposta, portanto, é em histórias que criem vínculo com o espectador, e não apenas em volume. Balmaceda fala em produções capazes de fazer o público querer maratonar uma série em uma sexta-feira à noite ou voltar a assistir à obra outras vezes.
A lógica também se aplica ao esporte. Tejero afirma que a companhia é seletiva na aquisição de direitos de transmissão e procura priorizar competições que tenham relevância para seus clientes.
Há, porém, um obstáculo menos relacionado ao conteúdo: o alcance do streaming ainda é desigual na América Latina.
No Brasil, a diferença regional é expressiva. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2025, a proporção de domicílios com acesso a streaming variava de 51,5% no Centro-Oeste a 30,7% no Nordeste.
A distância também aparece no acesso à TV por assinatura. O serviço estava presente em 24,9% dos domicílios urbanos, contra 11,6% dos rurais. A renda ajuda a explicar parte dessa diferença: o rendimento médio per capita nos lares com streaming pago foi de R$ 3.072, mais que o dobro dos R$ 1.454 registrados nas casas sem acesso ao serviço.
Para Tejero, ampliar o mercado passa por reduzir essas barreiras. A companhia quer tornar o Prime Video o mais inclusivo e acessível possível para os consumidores.
“Temos diferentes formas de abordar isso. Temos acordos de distribuição e oferecemos diversos métodos de pagamento. Estamos, inclusive, oferecendo o parcelamento da assinatura para torná-la mais acessível”, afirmou.
Em entrevista à Forbes Brasil, o executivo disse que a meta é fazer com que qualquer usuário com uma conexão de internet ou um plano de dados básico consiga assinar o serviço e acessar o catálogo.
A aposta nas histórias locais
Por trás dos bilhões de dólares anunciados e da disputa por direitos esportivos, há uma aposta menos mensurável: o potencial das histórias latino-americanas de atravessarem fronteiras.
Para Balmaceda, ver produções locais ganharem espaço global combina orgulho e responsabilidade profissional.
“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, diz ela, em referência à conhecida frase da cultura pop popularizada pelo Homem-Aranha (2002).
“Queremos continuar trabalhando com os maiores talentos locais, mas também descobrindo novas vozes para mostrar ao mundo a beleza do nosso storytelling”, afirma.
A executiva também se declara fã de televisão e cinema e cita clássicos como o argentino A História Oficial (La historia oficial) e o brasileiro Central do Brasil entre as obras que alimentaram sua paixão pela narrativa latino-americana.
Tejero, por sua vez, destaca seu entusiasmo pela série mexicana Nadie nos va a extrañar, atualmente em sua segunda temporada. Ambientada nos anos 1990, a produção é descrita por ele como uma história emocionante e acolhedora, capaz de exemplificar o poder de conexão humana das produções da região.
O conselho para quem está começando
Na entrevista exclusiva à Forbes Brasil, os dois executivos também falaram sobre os caminhos para quem deseja construir uma carreira no mercado audiovisual.
Para Tejero, o principal atributo é a capacidade de lidar com a incerteza.
“Eu diria para ser resiliente e confiar em si mesmo. Nesta indústria, não há nada escrito em pedra. Você precisa assumir riscos e estar convencido do porquê está assumindo esse risco. E se as coisas não saírem como o esperado, absorva o aprendizado e siga em frente”, disse.
Balmaceda tem uma recomendação semelhante, especialmente para quem ainda está no início da carreira: não evitar o risco por medo de errar.
“Arrisque-se quando você for jovem e puder fazer isso. Não hesite, porque você sempre pode se levantar e sacudir a poeira para continuar.”