O Banco Central entra na semana da decisão sobre a Selic diante de um cenário mais confortável no exterior, mas ainda desafiador em casa. A manutenção dos juros pelo Federal Reserve reduziu parte da pressão sobre os mercados globais e reforçou a expectativa de que o Copom corte a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Ainda assim, economistas avaliam que o rumo da política monetária brasileira continuará sendo definido principalmente pela inflação, pela atividade econômica e pela deterioração das expectativas fiscais domésticas.
A decisão do Fed manteve a taxa de juros americana entre 3,5% e 3,75% pela quinta reunião consecutiva e marcou a segunda reunião sob o comando de Kevin Warsh, indicado pelo presidente Donald Trump para substituir Jerome Powell. Antes de sua posse, parte do mercado apostava que a proximidade entre os dois resultaria em uma política monetária menos restritiva. Até agora, porém, essa expectativa não se confirmou. O banco central americano voltou a adotar um discurso cauteloso em relação à inflação e manteve aberta a possibilidade de voltar a elevar os juros caso o cenário exija.
Embora a decisão do Fed pela manutenção dos juros americanos tenha reduzido parte da aversão ao risco nos mercados e contribuído para a queda do dólar frente ao real, analistas avaliam que o efeito sobre a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) será limitado. O diagnóstico é que, neste momento, os indicadores domésticos têm peso maior na definição da política monetária brasileira.
“O fato de o banco central americano não ter sinalizado de forma explícita uma alta de juros no curto prazo ajuda a reduzir parte da pressão sobre os mercados, o que se refletiu na queda do dólar, mas o Banco Central brasileiro deve olhar principalmente para os dados domésticos”, afirma Silvio Campos Neto, economista-chefe da Tendências Consultoria.
Segundo ele, o conjunto de informações divulgado nas últimas semanas fortaleceu a expectativa de um novo corte da Selic. O IPCA-15 surpreendeu positivamente, o mercado de trabalho mostra sinais de moderação e o próprio Copom, na reunião anterior, manteve aberta a possibilidade de dar continuidade ao chamado ciclo de calibração. “Considerando esse conjunto de fatores, a expectativa é de um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14% ao ano”, diz.
Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da gestora Forum Investimentos, a avaliação segue a mesma direção. “O Banco Central deve continuar mantendo a postura que teve ao longo dos últimos meses, bastante cautelosa”, afirma. Ele avalia que há espaço para o corte porque a dinâmica da inflação melhorou, especialmente nos núcleos e nos preços de serviços, enquanto a atividade econômica perde fôlego e o mercado de trabalho começa a se acomodar. Mesmo assim, ele ressalta que uma Selic de 14% continuará representando uma política monetária fortemente contracionista e um dos maiores juros reais do mundo.
Se a decisão da próxima quarta-feira parece relativamente bem encaminhada, o restante do ano inspira menos convicção. A combinação entre inflação ainda acima do desejado, expectativas desancoradas, riscos fiscais e um cenário internacional incerto reduz a margem para um ciclo prolongado de flexibilização monetária.
Campos Neto observa que a desaceleração da inflação ainda convive com fatores capazes de pressionar os preços nos próximos meses, como a evolução das cotações do petróleo e dos alimentos. Ao mesmo tempo, embora o mercado de trabalho tenha perdido força, medidas de estímulo do governo continuam sustentando o consumo e mantendo pressão sobre a inflação de serviços.
Outro fator que limita cortes adicionais é a persistência das expectativas de inflação acima da meta. Para o economista da Tendências, a ausência de uma âncora fiscal considerada crível segue pressionando a curva de juros e restringindo o espaço de atuação do Banco Central. “O mercado praticamente precifica apenas o corte esperado para agosto. Depois disso, o cenário fica muito mais incerto”, afirma.
A expectativa é que o Copom reduza a Selic para 14% e, a partir daí, passe a avaliar os próximos passos reunião a reunião, levando em conta tanto a evolução do cenário doméstico quanto a possibilidade de o Fed voltar a elevar os juros. Até esse ponto, há pouco dissenso entre os economistas. A maior divergência aparece quando a discussão deixa de ser o que o Copom fará e passa a ser o que deveria fazer.
Para Luis Felipe Vital, chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, a decisão tecnicamente mais adequada seria manter a Selic em 14,25%, já que as expectativas de inflação continuam elevadas e o ambiente externo permanece desafiador. Ainda assim, a comunicação recente do Banco Central tornou mais provável um corte de 0,25 ponto percentual.
Segundo ele, o Copom passou a sinalizar que considera não apenas o retorno da inflação à meta, mas também os efeitos da política monetária sobre a atividade econômica e os mercados financeiros. Os esclarecimentos posteriores do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor Paulo Picchetti reduziram parte das dúvidas do mercado, mas Vital pondera que uma postura excessivamente leniente pode comprometer a credibilidade da autoridade monetária.
Na avaliação do economista, os dados recentes ajudam a explicar por que o mercado passou a apostar em uma redução da Selic. A inflação corrente surpreendeu positivamente e indicadores de indústria, serviços, varejo e IBC-Br apontam desaceleração da atividade. Ainda assim, fatores como a alta recente do petróleo, as incertezas sobre a política monetária americana e os desafios do ajuste fiscal esperado para 2027 recomendam prudência.
A leitura é ainda mais conservadora para Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos. Diferentemente da maioria do mercado, ele avalia que o Copom deveria manter a Selic no patamar atual. Na sua visão, o quadro fiscal continua sendo o principal obstáculo para o início de um ciclo de flexibilização monetária.
“Enquanto o governo não alinhar a questão fiscal, não há sustentação matemática nem espaço para o Banco Central baixar os juros”, afirma. Segundo Patzlaff, as projeções de inflação seguem apontando para um índice acima do teto da meta neste ano, o que reduz a margem para cortes.
Na avaliação do especialista, a decisão do Fed reforça essa necessidade de cautela. Com os juros americanos permanecendo elevados, os Estados Unidos continuam atraindo capital internacional, o que limita o espaço para uma redução mais rápida da Selic. “Se esse capital estrangeiro sai do país, o real se desvaloriza, encarecendo os produtos importados e importando ainda mais inflação para a economia brasileira”, diz.
Patzlaff vai além e afirma que, caso o ajuste fiscal continue sendo adiado e a inflação volte a ganhar força, o Banco Central poderá até ser obrigado a reverter o ciclo esperado pelo mercado. “Se o cenário fiscal não ceder, existe até mesmo a possibilidade de o Banco Central voltar a aumentar a taxa de juros num futuro próximo”, afirma. Nesse contexto, ele acredita que o Copom deverá manter uma postura extremamente cautelosa nas reuniões restantes do ano, evitando qualquer sinalização de afrouxamento monetário antes de uma melhora consistente das expectativas de inflação.
O contraste entre as avaliações mostra que, embora exista amplo consenso de que a reunião da próxima semana deve resultar em um corte de 0,25 ponto percentual, ainda há divergências relevantes sobre o espaço para novas reduções. Enquanto parte do mercado enxerga a queda da inflação e a desaceleração da atividade como suficientes para justificar uma flexibilização gradual, outra parcela considera que a deterioração das expectativas e a fragilidade do quadro fiscal continuam impondo limites à atuação do Banco Central.