O Paraná é a 4° maior economia do país e seu PIB nominal registrou R$ 670,92 bilhões segundo dados consolidados de 2023 do IBGE. O estado cresceu 4,3%, acima da média do Brasil de 3,2%, no mesmo período e liderou o ranking do Sul na frente dos outros dois estados.
O Agronegócio é o principal motor desse crescimento e a região paranaense responde por 9,9% de toda a produção agropecuária do Brasil, figurando como a 3ª maior força agrícola do país de acordo com informações do Sistema de Contas Regionais. Os dados de desemprego do estado também apontam bons resultados: a taxa de desocupação caiu para 3,1% no 2º trimestre de 2026, frente 5% da média nacional.
O professor Auberth Venson, do departamento de economia da Universidade Estadual de Londrina, detalhou o período desse crescimento e os setores, a partir de informações do IPARDES (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social). “O Paraná tem tido uma trajetória de crescimento pós-pandemia. E quando a gente separa por setor, o maior crescimento foi da agropecuária, seguido por um crescimento moderado na indústria extrativa e uma estabilização na indústria de transformação.”
Ainda que, lidando com um dos cases de sucesso do Brasil, o futuro gestor público do estado terá alguns desafios, segundo especialistas ouvidos pela Forbes. Na lista de questões críticas para o Paraná estão: a dependência do agronegócio, o desenvolvimento da indústria e a retenção de talentos e mão de obra.
O primeiro desafio: a dependência do agronegócio
Os números mostram que apesar dos bons números, a economia paranaense depende do agronegócio. O setor responde por 11,1% do PIB estadual. “Com o nosso crescimento atual muito atrelado a um setor específico, nós também ficamos expostos aos eventos climáticos”, diz Venson. Projeções do El Niño para esse ano, por exemplo, indicam chuvas acima da média e altas temperaturas no estado, o que pode prejudicar os resultados do agro.
A economia paranaense reúne um complexo agroindustrial, com setores fortemente ligados ao crescimento da agropecuária e também sensíveis às condições macroeconômicas. O setor da madeira é um exemplo. Na esteira das tarifas impostas pelos Estados Unidos, os produtores foram altamente prejudicado com a sobretaxa. Marcelo Percicotti, gerente de Desenvolvimento Industrial e Social da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), chama atenção para o tamanho dessa influência. “No setor de madeiras, nós temos de 1.294 produtos com potencial de exportação. 82% já tem algum tipo de tarifa adicional indicada. É muita coisa.”
Para arrefecer esse choque, o futuro gestor público pode seguir alguns caminhos, sugere o gerente da Fiep. “O Governo do Estado pode colaborar com estratégias para abrir novos mercados, pode ajudar em financiamentos e em benefícios tributários”, diz Percicotti.
Diante desse cenário de incerteza no comércio exterior e vulnerabilidade climática, a necessidade de diversificação deixa de ser um debate e vira agenda.
Para Venson, a preparação exige canalizar investimentos estaduais rumo a vertentes menos suscetíveis a choques de commodities e ao clima, reduzindo a volatilidade do PIB local. “Nós precisamos de preparação do setor para essa disrupção e de uma diversificação econômica para que esse impacto não seja tão grande para a economia do Estado como um todo”, diz o professor da UEL.
Essa transição passa por reforçar áreas que enfrentam estagnação como a indústria de transformação e o segmento de tecnologia da informação e comunicação. Sem uma política para irrigar esses polos, o estado corre o risco de permanecer preso a ciclos de colheita e cotações internacionais de matérias-primas, restringindo seu potencial de agregação de valor.
Como desenvolver a indústria e agregar valor às produções do Paraná
A estagnação da indústria de transformação exige que o próximo gestor público enfrente gargalos de produtividade, déficit energético no interior e barreiras de acesso ao crédito para modernização.
Segundo dados da Sondagem Industrial da Fiep, mais de 60% dos empresários industriais do estado declaram intenção de investir na melhoria de processos, digitalização e inteligência artificial.
Entretanto, o avanço tecnológico esbarra na conjuntura macroeconômica e no custo do capital. “A indústria do Paraná precisa se manter competitiva, mas o que nós temos como desafio é o acesso a essas tecnologias. Mesmo que seja uma tecnologia disponível nacionalmente, você precisa de recursos para financiar, e hoje, com a nossa taxa básica de juros alta, o crédito está muito caro”, analisa Percicotti.
Para contornar a situação, a atuação de bancos públicos de fomento, como a Fomento Paraná e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), surge como instrumento estratégico de subsídio e atração de investimento fabril.
A instabilidade no fornecimento de energia prejudica diretamente a expansão de unidades automatizadas, que demandam sistemas elétricos contínuos e isso, segundo Percicotti, atinge o hub logístico do estado “Quanto mais automatizada estiver a empresa, mais sensíveis são os equipamentos e sensores, e oscilações bruscas acabam gerando danos severos”, diz.
O especialista também defendeu a agenda de investimentos multimodais e rodovias e ferrovias. “A indústria do Paraná tem usado muito a diversidade dos portos de Santa Catarina porque não é só uma questão de ampliar a eficiência do Porto de Paranaguá, mas de como você chega até ele”, analisou.
A mudança que só se faz com mão de obra qualificada
A transição para uma indústria de maior valor agregado e a sustentação do crescimento do agro esbarram, contudo, na maior trava estrutural do Paraná atual: o apagão de trabalhadores.
Embora a taxa de desocupação de 3,1% projete um cenário de pleno emprego, a realidade do chão de fábrica e dos serviços é de escassez crônica de pessoal em todos os níveis funcionais, situação agravada pelo envelhecimento da pirâmide demográfica. “Hoje a dificuldade é de pessoas, independente de ter ou não qualificação”, diz Percicotti.
Para além das ações emergenciais de curto prazo, como a inclusão de beneficiários de programas sociais no mercado formal e o acolhimento de migrantes, o salto de produtividade do estado depende de investimentos profundos em educação básica e formação técnica.
Indicadores coletados pelo Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) mostram que a probabilidade de um jovem no Paraná concluir o ensino superior é de apenas 2,36%, caindo para 1,55% em polos industriais relevantes como Ponta Grossa. Essa fragilidade no capital humano limita a ascensão social no interior e restringe a capacidade das empresas de absorver inovação tecnológica.
A elevação do padrão de vida da população paranaense e a atração sustentável de indústrias exigirão da próxima gestão prioridade absoluta em capital humano e desburocratização. “Sempre que eu falo de desenvolvimento econômico, falo em melhoria de condições de vida das pessoas a longo prazo, e para isso tem que ter investimento em educação e saúde. Os pilares principais para manter a atração de investimentos são educação, infraestrutura e diminuição da burocracia”, diz Venson ao projetar o futuro econômico do estado.