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Selic Parada em 13,75%: do Que Depende o Próximo Corte?

Copom segurou a Selic em 13,75% e o corte pode ficar para 2027. Veja como dólar, petróleo e risco fiscal pesam e o que fazer na carteira

8 min

Quem torcia por mais um corte da Selic nesta quarta-feira saiu frustrado, mas na verdade a pausa em 13,75% neste momento pode ser uma boa notícia, pois mostra um Banco Central disposto a segurar os juros justamente quando dólar, petróleo e eleição pressionaram a inflação ao mesmo tempo.

Depois de cinco cortes seguidos desde março, o BC parou num momento incômodo, com a economia já perdendo fôlego e, mesmo assim, a inflação de volta acima do teto da meta, de 4,5%. Quando o juro fica parado com a atividade esfriando, o recado é que o problema, agora, mora menos no consumo das famílias e mais no câmbio e nas expectativas.

Por que o Copom parou de cortar a Selic agora

A eleição entrou no comunicado sem ser citada: na sexta-feira anterior ao segundo turno, o dólar fechou a R$ 4,98, e nesta quarta-feira terminou o dia a R$ 5,45, uma alta de quase 10% em duas semanas, que chega à inflação pelo preço de tudo o que importamos ou que segue cotação internacional, do trigo do pão ao combustível.

O primeiro Boletim Focus depois da eleição elevou de R$ 5,05 para R$ 5,34 o dólar projetado para o fim de 2026, e o próprio BC subiu sua estimativa de IPCA para 2027 de 3,9% para 4,7%, com inflação ainda em 3,5% no segundo trimestre de 2028, o horizonte em que uma decisão de hoje faz efeito pleno.

Pesou também a mudança de linguagem do comunicado que deixa claro que o juro atual já freia a economia o bastante, não há alta no horizonte imediato e também não há pressa para voltar a cortar. Por isso, ao que tudo indica, a projeção do Focus de Selic a 13,50% no fim do ano ficou difícil de sustentar, e não me surpreenderia ver a taxa encerrar 2026 onde está hoje.

O diferencial de juros é o prêmio de risco do Brasil

Para entender por que o dólar pesa tanto na Selic, vale olhar uma conta que muita gente faz pela metade. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve mantém os juros entre 3,75% e 4%, depois de ter voltado a subir a taxa em setembro, enquanto aqui a Selic está em 13,75%.

Parte dessa diferença de cerca de dez pontos só compensa a inflação mais alta no Brasil, e o que sobra, um juro real muito acima do americano, é em boa parte o prêmio que o investidor, estrangeiro ou brasileiro, cobra para deixar o dinheiro aqui em vez de levá-lo para fora.

Se o BC reduz esse prêmio na marra enquanto a percepção de risco fiscal piora, o investidor conclui que está sendo mal pago, tira o dinheiro, e o dólar e a inflação sobem juntos.

O caminho inverso também tem limite, e quem mostrou isso foi o economista Olivier Blanchard, professor emérito do MIT, ao estudar o Brasil de 2002 e 2003: com risco fiscal alto, subir juros pode até enfraquecer a moeda, porque o mercado lê o juro maior como uma dívida mais cara e mais difícil de pagar.

O Brasil de hoje está longe do quadro 2002-2003, com uma dívida pública quase toda em reais e reservas internacionais elevadas, mas o mecanismo ajuda a entender a postura do Copom agora: com a incerteza fiscal ainda presente, cortar seria arriscado e subir renderia pouco, então o melhor que o BC pode fazer é segurar e esperar um sinal que não depende dele.

Petróleo em queda e Fed: o alívio que veio de Washington

A outra boa notícia do dia, a que fez as bolsas subirem, veio de fora: segundo as projeções da apuração, os democratas conquistaram a maioria na Câmara e no Senado americanos nas eleições de meio de mandato, e o próprio Donald Trump reconheceu que a guerra com o Irã pesou na derrota.

O mercado leu o resultado como um passo na direção do fim do conflito, e o Brent para janeiro caiu 8,67%, a US$ 94,62, abaixo dos US$ 100. Aqui sentimos o efeito no mesmo pregão, com o dólar recuando 0,65% e o DI para janeiro de 2036 caindo de 15,36% para perto de 15%.

Tarifas e uma guerra que encareceram o diesel acabaram cobrando a conta no custo de vida do americano, e se o petróleo seguir em queda, a inflação dos Estados Unidos tende a ceder e a tirar pressão de um Fed que o mercado esperava ver subindo juros em dezembro.

Com menos juro lá fora, a diferença que o Brasil precisa sustentar para segurar o real fica um pouco menos pesada. No entanto, seria arriscado o Copom colocar isso no preço agora, e ele não colocou: o resultado americano saiu de uma noite para outra, ainda não chegou à inflação, e o comunicado trata a queda das commodities como uma possibilidade e não um cenário.

Risco fiscal: por que o discurso vem antes do ajuste

Do lado de dentro, o que destrava a Selic é o sinal fiscal, e aqui ajuda o trabalho de Michael Woodford, que dividiu com Robert Hall o Nobel de Economia deste ano. Woodford mostrou que a política monetária funciona, em boa parte, pela gestão de expectativas: quando o banco central comunica com clareza o caminho provável dos juros, famílias e empresas ajustam suas decisões antes de a taxa mudar, e a inflação cede com menos esforço.

Ao meu ver, a mesma lógica vale para a política fiscal, com mais força no começo de um mandato: nenhum presidente consegue cortar gastos de forma relevante em poucas semanas, então a palavra chega antes da ação e acaba pesando mais do que ela. Daí a importância do pronunciamento de Lula em rede nacional, previsto para domingo, que pode mexer com o dólar antes que qualquer medida saia do papel.

A tarefa deste pronunciamento é delicada, porque o próprio Copom lista os estímulos ao consumo, recurso que governos anteriores também usaram em ano de reeleição, entre os riscos de alta da inflação. O mercado vai ouvir a fala tentando descobrir se esses estímulos continuam ou começam a ser retirados, e se as promessas de campanha cabem nas metas fiscais.

Se o discurso vier acompanhado de um nome para a Fazenda que o mercado associe à disciplina fiscal, por extensão da lógica de Woodford, o prêmio de risco pode começar a cair antes mesmo do primeiro corte de gasto, puxando o dólar para baixo e abrindo espaço para a retomada dos cortes da Selic.

Ações baratas e juro alto: como posicionar sua carteira

Para quem investe, o recado prático é que o juro alto vai ficar por mais tempo, com efeitos diferentes em cada classe. Os títulos pós-fixados, atrelados à Selic e ao CDI, seguem pagando 13,75% ao ano, com um dos maiores juros reais do mundo, e continuam sendo o lugar natural da reserva e do dinheiro de curto prazo.

Os prefixados pagam taxas perto de 15% ao ano, e o Tesouro IPCA+ paga a inflação mais algo entre 7% e 8%, prêmios altos que refletem a dúvida fiscal e oscilam a cada sinal vindo de Brasília. Só fazem sentido, portanto, para quem tem horizonte para carregar o título até o vencimento.

Com ações e fundos imobiliários, o raciocínio pede mais calma, mesmo com a bolsa claramente descontada, pois o que está barato pode continuar barato por muitos meses, e é isso que torna perigosa a pressa de comprar tudo agora. Comprar porque na semana passada já era oportunidade e nesta semana o preço caiu ainda mais é uma reação tão emocional quanto vender no fundo por desespero, só que com o sinal trocado.

Como o planejamento por metas faz parte dos meus objetos de estudo nos últimos anos, penso que posso contribuir com uma ordem simples: comece pela meta, que diz qual classe de investimento você precisa, e só depois confira se aceita o risco que essa classe traz. Se a resposta for ações e você só dorme tranquilo na renda fixa, ajuste o prazo ou o valor dos aportes antes de mexer na carteira, e não o contrário.

Dólar e petróleo vão dizer de quem é o prêmio de risco

As próximas semanas funcionam quase como um experimento para quem acompanha o mercado, porque as duas forças que decidem a Selic agora andam em velocidades diferentes. O alívio de Washington chega rápido, pelo preço do barril, enquanto o de Brasília depende de credibilidade, que se constrói com repetição e se perde com uma frase.

Se o petróleo continuar caindo e o dólar não acompanhar, o mercado estará dizendo com todas as letras que o prêmio que sobrou é doméstico, e a reunião de 8 e 9 de dezembro vai começar a responder a isso. Washington pode baratear o barril de petróleo, mas só Brasília pode baratear o risco Brasil, e é essa segunda conta que vai decidir quando o Copom volta a cortar a Selic.

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