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Por Que as Maiores Economias do Mundo Voltaram a Considerar Juros Mais Altos?

O BCE já subiu juros duas vezes neste ano; Especialistas apontam que EUA e Japão devem anunciar novas altas, enquanto o Brasil rema na contramão

7 min

Na próxima quarta-feira (16), o Banco Central do Brasil e o Federal Reserve, o BC americano, decidirão as taxas de juros que vão vigorar até as próximas reuniões. A expectativa é que o Copom reduza a Selic em 0,25 ponto porcentual, levando a taxa de 14% para 13,75%, de acordo com a previsão do mercado. Nos Estados Unidos, o mercado atribui 92,7% de probabilidade a uma alta de 25 pontos-base nos juros, para o intervalo de 3,75% a 4%, segundo o FedWatch.

O movimento do FOMC (Comitê Federal de Mercado Aberto) nos Estados Unidos, se confirmado, ocorre em um cenário semelhante ao enfrentado pelo Banco Central Europeu, que elevou sua taxa básica de juros na última reunião, de 2,25% para 2,50%. A decisão unânime foi a segunda alta de 2026.

No Japão, especialistas já esperam alta dos juros na reunião que acontecerá nos dias 17 e 18 deste mês. O BoJ (Banco Central do Japão) levou os juros a 1% em junho, maior nível em 31 anos, e manteve a taxa em julho. Os mercados já incorporam quase integralmente uma nova alta em setembro.

De acordo com Andressa Durão, economista do Banco ASA, a tendência de alta dos juros fora da Ásia está intimamente ligada ao choque de oferta do petróleo, causado pela guerra entre os Estados Unidos e o Irã. “O choque de oferta de energia vai atingir outras cadeias de produção. Então não é um único choque. Tem se mostrado um choque permanente que influencia os preços dos alimentos, transportes e do setor de serviços.”

Quando a guerra começou, no fim de fevereiro, o petróleo Brent era negociado perto de US$ 73. Nesta terça-feira (15), chegou a US$ 108,49, em meio à escalada das preocupações com a oferta global. A commodity acumula forte valorização em 2026.

O petróleo mais caro chega primeiro ao combustível, à energia elétrica e ao frete. De lá, escorre para os preços dos alimentos, do transporte e dos serviços, enquanto os salários começam a ser reajustados para repor a perda, espalhando a alta pela economia. Nesse sentido, a saída é encarecer o crédito para esfriar o consumo. “Então, é, basicamente, uma precificação de um ambiente mais inflacionário para frente também. Antes, acreditava-se que a guerra duraria alguns meses e agora não há expectativas de normalização”, explica Durão.

No entanto, juros altos não devolvem oferta ao mercado. Eles ajudam a impedir que o aumento contamine o restante dos preços, mas a consequência é uma economia crescendo menos. A presidente do BCE, Christine Lagarde, chamou essa esteira de eventos de efeitos de segunda ordem ao alertar que o choque energético pode se intensificar ainda mais e que a contaminação sobre outros preços e salários pode ser maior do que o banco previa.

Inflação nos EUA e na zona do euro

Descontando energia e alimentos, os itens mais voláteis da cesta, o núcleo da inflação americana caiu para 2,4% em 12 meses em agosto, contra 2,5% em julho, atingindo o menor nível desde março de 2021. Na zona do euro, esse mesmo núcleo recuou para 2,4% e os serviços desaceleraram para 3,0%, enquanto a energia disparou 14,3%. O que Fed e BCE estão combatendo não é apenas a inflação que já existe, mas o risco de que ela se espalhe caso o preço da energia contamine salários e serviços nos próximos meses.

No simpósio de Jackson Hole, em 28 de agosto, Kevin Warsh, presidente do Fed, afirmou que os dados recentes de inflação ainda não mostraram uma melhora significativa, o que mantém as expectativas sobre a condução da política monetária.

A meta de inflação do Fed é de 2% ao ano. Em agosto, o CPI americano ficou em 3,4% em 12 meses, mesma taxa registrada em julho, enquanto o núcleo recuou para 2,4%. A previsão do Itaú BBA para 2026 é de 3,7%. Diante de uma inflação ainda distante da meta, o desafio para o Fed é calibrar os juros sem comprometer uma economia que continua encontrando sustentação em alguns setores.

Para Durão, um dos principais motores da atividade americana tem sido a Inteligência Artificial, que vem impulsionando os investimentos e ajudando a manter a economia acima de seu potencial. “A inteligência artificial tem feito um trabalho de segurar esses investimentos nos Estados Unidos, a gente ainda tem uma previsão de que a economia vai crescer acima do potencial no ano que vem. Mas, para as outras economias, é um pouco diferente.”

A diferença fica mais evidente na zona do euro, que, além de não contar com o mesmo impulso dos investimentos em tecnologia, é mais sensível ao choque de oferta do petróleo por ser historicamente uma importadora da commodity. Em 2024, o bloco importou cerca de 97% do petróleo que consumiu, de acordo com o Conselho da União Europeia.

Essa dependência ajuda a explicar por que o choque de energia pesa sobre uma economia que já vinha perdendo força. A inflação na zona do euro voltou a subir no segundo semestre de 2026 e atingiu 3,3% em agosto, o nível mais alto desde setembro de 2023, segundo relatório divulgado pela Eurostat. O índice está acima da meta de 2% do BCE. O Banco Central Europeu passou a projetar inflação de 3,0% em 2026, 2,5% em 2027 e 2,1% em 2028.

O impacto sobre a atividade, portanto, tende a ser maior. O ASA já estima uma economia menos aquecida, de acordo com Durão. “Tem um efeito ali na atividade que não é também o suficiente para levar para uma recessão, mas é o suficiente para você ter uma desaceleração maior. E era uma economia que já vinha andando um pouco de lado. É uma desaceleração, crescimento próximo de 0.”

Pressão sobre o iene no Japão

O Japão retomou o ciclo de alta dos juros em 2024 e levou a taxa a 1% em junho deste ano, maior nível em 31 anos. O BoJ manteve a taxa em julho, mas os mercados já passaram a incorporar uma nova alta em setembro. O movimento ocorre em meio à desvalorização do iene frente ao dólar — 1 dólar equivale a 154,41 ienes.

Com a moeda desvalorizada, as importações ficam mais caras no Japão, pressionando especialmente os preços de produtos e insumos adquiridos no exterior. O país é particularmente sensível à alta do petróleo por sua dependência das importações de energia.

Para Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue, essa relação impacta diretamente os preços para os japoneses. “Nós vimos, inclusive, a intervenção junto com o governo dos Estados Unidos para tentar conter uma depreciação do iene.”

A ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, afirmou que a posição de Tóquio segue a mesma. “Nossa postura não mudou em nada desde a intervenção coordenada entre o Japão e os EUA (para sustentar o iene no final de julho).” Ela disse ainda que conversou com Scott Bessent, secretário do Tesouro do Estados Unidos, durante as reuniões do G20 e em outras ocasiões, e que os dois governos seguirão em contato.

A diferença em relação às outras economias é o ponto de partida. “O Japão passou décadas com a inflação baixíssima, perto de zero. Isso é uma normalização da política expansionista por diversos anos. No Japão, fala-se muito em tirar esse estímulo para conter os preços em um ritmo gradual”, comentou Benati.

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