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Selic Vai Cair? Veja o Que o Mercado Prevê para os Juros e Como as Eleições Podem Mudar o Cenário

Após o primeiro turno, mercado recalcula expectativas para juros, câmbio e inflação; especialistas explicam o que pode acelerar os cortes da Selic

9 min

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em setembro, o Banco Central (BC) reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano. Esse foi o quinto corte consecutivo da taxa básica de juros. Agora, além da evolução da inflação e da atividade econômica, há um novo componente nas projeções para os juros —o cenário político após o primeiro turno das eleições.

Nesta segunda-feira (5), o Boletim Focus mostrou que o mercado projeta a Selic em 13,50% ao fim de 2026, pela segunda semana consecutiva. Para 2027, a estimativa também ficou estável em 12% pela 16ª semana seguida. A trajetória dos juros, no entanto, pode sofrer revisões à medida que investidores recalculam suas expectativas para o resultado do segundo turno. Os resultados divulgados nesta segunda pelo Focus ainda não trazem os ajustes do mercado com base nas expectativas do resultado das eleições presidenciais.

No primeiro turno das eleições, Flávio Bolsonaro (PL) obteve em torno de 47,1% dos votos válidos, ante cerca de 45,1% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo Thomas Haugaard, gerente de portfólio da Janus Henderson Investors, Bolsonaro superou a média das pesquisas em mais de quatro pontos percentuais e ficou à frente nos três maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Para Haugaard, o desempenho sinaliza uma demanda mais ampla por mudança política, em vez de apenas uma consolidação do eleitorado tradicional de direita. “O segundo turno ocorrerá em 25 de outubro, com Bolsonaro agora como favorito. Ele parte com uma vantagem de dois pontos e deve conquistar uma parcela maior dos votos restantes do centro e da centro-direita. Os mercados de previsão ultrapassaram os 80% após o resultado. No entanto, a eleição ainda não está decidida”, aponta Haugaard.

A economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitoria, comenta que até sexta-feira (2), existia uma divergência entre o que o mercado precificava nas curvas de juros e o que os economistas esperavam pelo Focus. “Em geral, tem um certo prêmio. Estávamos vendo uma diferença muito grande de trajetória. O mercado precificava alta de juros, ou seja, uma pausa agora e uma alta no começo do próximo ano.”

Ela explica que ao longo da campanha eleitoral, a curva de juros chegou a precificar uma Selic de 14,5%. Após o resultado do primeiro turno, porém, o mercado apresentou uma reação positiva, com redução dos prêmios incorporados às taxas. Mas, na prática, apesar do movimento, as expectativas para a política monetária no curto prazo permanecem praticamente inalteradas, afirma a economista.

“A gente espera um corte de 0,25 na reunião de novembro. Não acho que essa mudança no humor do mercado vá mexer com o Banco Central. Acho que tem um fator que melhora, que é o câmbio. E outro aspecto que pode melhorar, mais para dezembro e para o próximo ano, será nas expectativas”, diz Rafaela Vitoria.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, diz que no curtíssimo prazo, o mercado está precificando 0,30 pontos percentuais de queda para a próxima reunião e, posteriormente, 0,25 pontos.

O que pode fazer a Selic cair?

As expectativas de inflação são um dos principais fatores que guiam o BC na hora de definir os próximos passos da política monetária. Quando as projeções para os anos seguintes permanecem acima da meta — o que o mercado chama de expectativas desancoradas —, aumenta a cautela do BC na redução dos juros.

Ou seja, dúvidas sobre a trajetória das contas públicas podem elevar a percepção de risco e dificultar a convergência da inflação para a meta. No Brasil, a meta de inflação é de3% ao ano, com intervalo de tolerância de1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Atualmente, o IPCA está em4,22% no acumulado em 12 meses, acima do centro da meta.

No Focus, divulgado na segunda, a projeção para o IPCA este ano subiu de 4,99% para 5,01%, na terceira alta consecutiva, após permanecer em 5% há quatro semanas. Para 2027, a estimativa recuou de 4,31% para 4,30%.

Uma sinalização mais firme de ajuste fiscal pelo próximo governo, por outro lado, poderia contribuir para reancorar essas expectativas e abrir espaço para cortes maiores da Selic. Para Rafaela Vitoria, uma melhora das projeções de inflação para os próximos anos pode ser determinante para uma aceleração do ciclo de redução dos juros em 2027. No curto prazo, porém, o resultado das eleições não deve alterar a expectativa para a próxima decisão do Copom.

Em outras palavras, a possibilidade de mais cortes em 2027 dependerá das sinalizações do próximo governo, principalmente na área fiscal. Segundo Rafaela, o resultado do primeiro turno ainda não estava incorporado à curva de juros. A reação do mercado após a votação refletiu a surpresa com o desempenho nas urnas, diante de pesquisas que apontavam uma disputa equilibrada. Com a redução da incerteza eleitoral, o mercado reagiu positivamente ao novo cenário.

Para Cardoso, esse panorama já está sendo incorporado. “Os agentes estão fazendo suas avaliações para entender quanto deve ser incorporado aos preços e quanto ainda não deve. Ainda é cedo para uma conclusão, porque também não temos os nomes que irão compor o governo, nem as propostas concretas.”

O relatório “Brazil elections: The fiscal adjustment scenario gains strength” do UBS ressalta que o BC deve permanecer cauteloso enquanto as expectativas de inflação continuarem acima da meta de 3%. “A reprecificação deve ser gradual.”

Importa quem ganha para a Selic?

O resultado das eleições pode influenciar as expectativas para a Selic, mas não é o nome do presidente eleito, por si só, que determina a decisão do BC. De acordo com os especialistas consultados pela Forbes Brasil, o que importa para a autoridade monetária é, principalmente, a política econômica que será adotada pelo próximo governo — com atenção especial à condução das contas públicas.

Rafaela Vitoria diz que uma política fiscal mais expansionista, marcada por aumento de gastos, pode dificultar o trabalho do Banco Central de levar a inflação para a meta. Isso acontece porque um estímulo fiscal maior pode sustentar a demanda na economia e pressionar os preços, reduzindo a eficácia da política monetária. Ou seja, o BC pode precisar manter a Selic elevada por mais tempo ou até elevar os juros com maior intensidade para controlar a inflação. “Não é a persona, o político no governo, mas sim a atitude fiscal do governo. Essa, sim, pode ditar o rumo da política monetária”, afirma Vitoria.

O movimento contrário também é possível. Uma política fiscal mais austera, com maior controle das despesas e melhora da percepção sobre a trajetória das contas públicas, pode contribuir para reduzir as expectativas de inflação e, consequentemente, ampliar o espaço para cortes da Selic.

O economista-chefe do Daycoval, também afirma que a perspectiva de juros menores está ligada, principalmente, à possibilidade de uma mudança na condução da política fiscal após as eleições. Uma eventual redução dos gastos poderia melhorar a trajetória da dívida pública e, com isso, favorecer as condições financeiras e o comportamento do câmbio.

Esse movimento poderia chegar à inflação por duas frentes. De um lado, condições mais favoráveis para o real ajudariam a reduzir as pressões de preços associadas ao dólar. De outro, um governo com gastos menores estimularia menos a atividade econômica, diminuindo também as pressões sobre a inflação.

“Um real mais forte daria ao BC espaço para acelerar os cortes de juros além do ritmo atual de 25 pontos-base por reunião”, indica o relatório do UBS.

O crédito acompanha?

Segundo a pesquisa do UBS“Brazil elections: The fiscal adjustment scenario gains strength“, a perspectiva de queda dos juros tende a melhorar as expectativas para os lucros das empresas, sobretudo em setores mais dependentes do crédito e da atividade doméstica.

Entre os segmentos que podem ser beneficiados estãobancos, varejo, construção civil, utilidades públicas, educação, saúde e small caps(empresas de menor valor de mercado que, em geral, são mais sensíveis às condições financeiras do país).

A lógica é que juros menores reduzem o custo de financiamento de empresas e consumidores, estimulam investimentos e podem melhorar os resultados das companhias. No entanto, a queda da Selic não significa que o crédito ficará mais barato na mesma proporção, nem que todas as empresas serão beneficiadas ao mesmo tempo.

Isso porque a taxa efetivamente paga por quem toma um empréstimo não depende apenas da Selic. Além da taxa básica, entram nessa conta fatores como ospread cobrado pela instituição financeira, o risco do tomador, as garantias oferecidas, o prazo e a estrutura da operação.

“Existe um risco de olhar para o Focus e concluir que uma Selic menor resolverá o problema do crédito. Não necessariamente. Para quem toma dinheiro, a taxa final é formada pela taxa básica mais spread, risco, garantia, prazo e estrutura da operação”, aponta Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, especializada em crédito estruturado.

Na prática, isso significa que, mesmo que a Selic recue, empresas consideradas mais arriscadas ainda poderão enfrentar taxas superiores. Para Friggi, o cenário se torna mais favorável quando a queda vem acompanhada de uma redução doprêmio de risco(a remuneração adicional exigida pelos investidores diante das incertezas de uma operação ou da própria economia).

“Por exemplo, em construção, agronegócio, entre outros, o investimento pode reagir antes da Selic chegar ao patamar final, desde que o custo total da operação já tenha recuado o suficiente para devolver viabilidade ao projeto”, afirma Friggi.

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