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Banco Central Prepara Medidas Ao Avanço das Dívidas de Famílias e Empresas

A autoridade monetária quer que bancos reconheçam riscos mais cedo, acumulem capital gradualmente e ampliem a sustentabilidade da oferta de crédito

6 min

O Banco Central (BC) começou a preparar uma resposta para um problema que considera cada vez mais relevante para a estabilidade financeira: o peso crescente das dívidas de famílias e empresas em um ambiente de juros elevados. Diante da forte participação de modalidades mais caras no endividamento dos consumidores e da deterioração de parte dos indicadores corporativos, a autoridade monetária quer reforçar a capacidade do sistema financeiro de absorver eventuais perdas e tornar a oferta de crédito mais sustentável.

A estratégia foi detalhada na ata da 66ª reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), divulgada nesta quarta-feira (2). O BC informou que prepara ações para promover o reconhecimento tempestivo dos riscos pelas instituições financeiras, o acúmulo gradual de capital e “condições mais sustentáveis de oferta de crédito aos tomadores”.

O foco, portanto, vai além do efeito da Selic de 14% sobre a contratação de novos empréstimos. A preocupação recai também sobre o estoque de dívida já acumulado por famílias e empresas e sobre o que pode ocorrer com sua capacidade de pagamento se os custos financeiros permanecerem elevados por mais tempo.

Nas famílias, o principal sinal de alerta está na combinação entre o nível de endividamento e a composição da dívida. O endividamento segue em patamar historicamente alto, enquanto o comprometimento da renda com empréstimos e financiamentos atingiu o maior nível da série histórica, segundo o Comef. Para o BC, esse quadro é agravado pela participação relevante de linhas mais onerosas entre as dívidas dos consumidores.

É justamente essa composição que ajuda a explicar a resposta em preparação. Quanto maior a presença de modalidades caras, maior o custo para carregar a dívida e menor a margem das famílias para absorver uma perda de renda ou outra deterioração de sua situação financeira. Ao mesmo tempo, cresce a exposição das instituições financeiras a eventuais perdas.

Autoridades do BC já haviam apontado o crédito rotativo do cartão e os empréstimos pessoais sem garantia como áreas que merecem atenção. Na ata, o Comitê afirmou que o cenário exige “cautela e diligência adicionais no mercado de crédito”.

“O endividamento das famílias permanece em patamar historicamente alto, e o comprometimento de renda atingiu o maior nível da série histórica”, afirmou o Comitê. “Esse quadro segue sendo influenciado pela participação relevante de modalidades de crédito mais onerosas na composição da dívida das famílias.”

A preocupação do Banco Central é agir antes que a deterioração da capacidade de pagamento se transforme em um problema mais amplo para o sistema financeiro. A maior parte das instituições continua resiliente, mas a concentração de dívidas em linhas de custo elevado reduz a margem de segurança tanto dos tomadores quanto dos próprios bancos.

Por isso, a resposta em estudo busca atuar inicialmente sobre a forma como o sistema financeiro administra esses riscos. O reconhecimento mais rápido das potenciais perdas tende a evitar que problemas permaneçam subestimados nos balanços, enquanto o acúmulo gradual de capital amplia a capacidade dos bancos de absorver uma eventual piora da inadimplência.

O endividamento de famílias e empresas está entre os principais pontos de atenção do BC, ao lado da crescente complexidade das estruturas de fundos de investimento, dos riscos geopolíticos e da escalada dos crimes cibernéticos.

No crédito, porém, há uma particularidade: a deterioração pode ocorrer de forma gradual. Não é necessário um salto súbito da inadimplência para aumentar a vulnerabilidade do sistema. Basta que uma parcela cada vez maior da renda das famílias seja consumida pelo pagamento de dívidas caras ou que os juros passem a absorver uma fatia crescente dos resultados das empresas.

É esse processo que o Banco Central tenta antecipar. Embora os instrumentos ainda não tenham sido detalhados, a direção da estratégia está definida: fazer com que os riscos sejam reconhecidos mais cedo, reforçar gradualmente os colchões de capital das instituições financeiras e evitar que a expansão do crédito em modalidades mais onerosas amplie a exposição do sistema sem uma proteção proporcional.

A preocupação ganha relevância diante de um aparente paradoxo da economia brasileira. O mercado de trabalho permanece aquecido e a renda avançou, mas isso não impediu que uma parcela recorde dos ganhos das famílias passasse a ser destinada ao pagamento de dívidas. A expansão do crédito nos últimos anos aumentou o volume de obrigações financeiras; os juros elevados tornaram mais caro administrá-las.

A estratégia do BC, ao menos por enquanto, não é intervir diretamente no custo do crédito. O foco é aumentar a resiliência do sistema antes que uma eventual piora da situação financeira dos tomadores produza perdas mais amplas para bancos e demais instituições.

Pressão também aparece nos balanços das empresas

O Comef identifica sinais semelhantes, embora mais heterogêneos, no setor empresarial. A maior parte das empresas continua demonstrando capacidade de absorver choques, mas alguns indicadores financeiros se deterioraram.

Diminuiu o número de companhias que registraram aumento do lucro líquido, enquanto cresceu a quantidade das que tiveram elevação das despesas financeiras. Em um ambiente de Selic a 14%, essa mudança importa porque o peso dos juros tende a aumentar à medida que dívidas vencem e precisam ser refinanciadas.

Empresas com caixa robusto ou acesso diversificado a fontes de financiamento têm maior capacidade para atravessar um período prolongado de custos elevados. Para aquelas mais dependentes do crédito bancário, porém, o aumento das despesas financeiras pode reduzir margens, limitar investimentos e, nos casos mais vulneráveis, comprometer a capacidade de honrar compromissos.

Por isso, a autarquia avalia que o risco relacionado ao crédito empresarial deve permanecer elevado. A preocupação não é a de uma deterioração generalizada da solvência das companhias, mas que juros altos por um período prolongado ampliem a vulnerabilidade de grupos específicos, pressionando seus resultados e elevando, por consequência, as perdas potenciais do sistema financeiro.

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