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Minas É a 3ª Maior Economia do Brasil. O Que Falta para Avançar?

Minas Gerais chegou a R$ 1,157 trilhão em 2025, mas infraestrutura, dívida e baixa produtividade ainda limitam seu potencial

13 min

Minas Gerais registrou um Produto Interno Bruto (PIB) deR$ 971,98 bilhões em 2023, segundo o dado oficial do Sistema de Contas Regionais doIBGE. Com esse resultado, o estado se manteve como aterceira maior economia do Brasil, atrás apenas de São Paulo, com PIB de R$ 3,445 trilhões, e do Rio de Janeiro, com R$ 1,173 trilhão.

Estimativas mais recentes da Fundação João Pinheiro (FJP), instituição de pesquisa do governo de MG, mostram que o PIB mineiro avançou desde então. Em 2025, a economia de Minas Gerais atingiu R$ 1,157 trilhão, o maior valor nominal da série histórica estadual, com crescimento real de 1,4% no ano, segundo a instituição.

Os serviços, responsáveis por quase dois terços da economia estadual, movimentaram R$ 635,6 bilhões em Valor Adicionado Bruto (VAB) em 2025, enquanto a indústria somou R$ 278,1 bilhões. A agropecuária, por sua vez, alcançou VAB de R$ 98,2 bilhões e apresentou crescimento real de 3,2% no período, conforme os dados da FJP.

A dimensão da economia reflete uma das principais características de Minas Gerais: a diversidade. O estado reúne setores de peso, como mineração, agronegócio, indústria, energia, tecnologia e serviços. Mas, apesar dessa base econômica robusta,gargalos estruturais ainda limitam um crescimento mais acelerado.

A Forbes Brasil ouviu especialistas que acompanham a economia local para entendero que impede Minas Gerais de avançar mais e quais caminhos podem destravar seu potencial de crescimento.

Mineração segue entre os motores da economia mineira

Potência produtiva esbarra na infraestrutura

A mineração é —e sempre foi —uma vantagem competitiva do estado, principalmente pela disponibilidade de recursos minerais e pela presença de grandes companhias do setor, como Vale, Anglo American, CSN Mineração e Samarco. A atividade extrativa mineral cresceu3,1% em 2025, segundo a FJP, com destaque para a produção de minério de ferro.

OValor Bruto da Produção (VBP) agropecuária atingiu o recorde de R$ 167,8 bilhões no ano passado, crescimento de13,5%em relação ao ano anterior, de acordo com dados doMinistério da Agricultura e Pecuária (Mapa)compilados pela Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa). As lavouras responderam porR$ 112,7 bilhões, enquanto a pecuária movimentouR$ 55,1 bilhões, segundo o mesmo levantamento.

Já em 2025, a cafeicultura registrou VBP deR$ 58,7 bilhões, de acordo com os dados do Mapa compilados pela Seapa. Minas também se manteve como omaior produtor de café do Brasil, segundo o IBGE. A soja alcançou VBP deR$ 18,8 bilhõese o milho, deR$ 7,7 bilhões. Na pecuária, a produção de leite movimentouR$ 18,1 bilhõese a carne bovina, outrosR$ 18,1 bilhões, conforme os dados do VBP divulgados pela Seapa.

“Além de tudo isso, vejo uma oportunidade muito importante na região:a transição energética. O Vale do Lítio, o nióbio e o potencial de geração solar podem colocar Minas em novas cadeias globais de valor”, comenta Elisa Machado, economista-chefe da KAT Investimentos.

As atividades são ainda mais estimuladas pela posição geográfica. Localizada entre grandes mercados consumidores e regiões produtoras do país, Minas funciona como ligação entre o Centro-Oeste, o Sudeste e o Nordeste. Na prática, porém, parte desse potencial encontra obstáculos na infraestrutura necessária para conectar a produção aos mercados.

Dívida elevada limita a capacidade de investimento do Estado

Para Fábio Murad, economista da Wiser Asset, que acompanha o mercado local, a logística está entre os principais gargalos. “A primeira questão é a infraestrutura”, afirma. Transporte ferroviário, rodovias e conexão entre polos produtivos e mercados consumidores ainda representam custos elevados para empresas e produtores, afirma o economista.

Minas possui272.062,9 quilômetros de rodovias, equivalente a cerca de16% do conjunto das rodovias federais, estaduais e municipais do Brasil, o que faz do estado o dono da maior malha rodoviária do país, segundo dados doGoverno de Minas Gerais.

Desse total,9.205 quilômetros são de rodovias federais, 22.286 quilômetros correspondem a rodovias estaduais pavimentadas e 240.571,9 quilômetros são de vias municipais, a maioria não pavimentada, de acordo com o levantamento do governo estadual.

Ou seja, embora o estado disponha da maior rede rodoviária do país, a extensão territorial e a predominância de vias municipais não pavimentadas aumentam a necessidade de investimentos em conservação, pavimentação e integração da infraestrutura de transportes.

A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostrou que65,4% das rodovias avaliadas em Minas foram classificadas como regulares, ruins ou péssimas. Isso aumenta o custo de transporte e reduz a competitividade de tudo aquilo que o estado produz. “Minas é quase um“mini Brasil”: temos regiões muito desenvolvidas, como a Central, o Sul e o Triângulo, convivendo com regiões como o Norte de Minas, Jequitinhonha e Mucuri, que apresentam indicadores econômicos e sociais muito inferiores”, diz Elisa Machado, economista-chefe, da KAT Investimentos.

ParaPaulo Henrique Duarte, economista da Valor Investimentos, em Belo Horizonte, infraestrutura é um problema para a região. “Pela localização central, principalmente em relação ao Sudeste, a presença logística de Minas Gerais no Brasil deveria ser muito mais forte”, avalia Duarte.

Para melhorar a situação, o economista defende maior participação das ferrovias no transporte de cargas. “A ferrovia é uma forma mais eficiente e barata de fazer esse tipo de transporte”, diz.

Minas possui uma malha ferroviária deaproximadamente 5 mil quilômetros, que atravessa em torno de 180 municípios, segundo oPlano Estratégico Ferroviário (PEF)do Governo de Minas Gerais. De acordo com o governo estadual, a rede mineira corresponde a aproximadamente16,3% da malha ferroviária nacional, colocando Minas na primeira posição entre os estados em extensão ferroviária.

Infraestrutura ainda é um dos gargalos para o crescimento

O que impede Minas de crescer mais?

Baixa produtividade, complexidade tributária e a dificuldade histórica de transformar vantagens naturais em cadeias de maior valor agregado aparecem entre os principais gargalos, segundo os especialistas consultados pela Forbes Brasil.

O economista-chefe da Wiser Asset, Fábio Murad, aponta que o estado dispõe de uma combinação relevante de recursos: mineração, agronegócio, energia, localização estratégica e um parque industrial. O desafio, explica, é transformar esses ativos em mais inovação, empregos qualificados e empresas capazes de competir globalmente.

Café e minério de ferro mantêm peso nas vendas de Minas ao exterior

Na prática, o crescimento sustentável não depende apenas de produzir mais minério, café ou outras commodities. Passa também pela capacidade de transformar conhecimento em negócios, tecnologia em produtividade e investimentos em desenvolvimento econômico.

“Minas tem grandes empresas e setores competitivos, mas precisa ampliar a capacidade de inovação, tecnologia e agregação de valor, especialmente para que sua produção não fique concentrada apenas na venda de commodities“, diz Murad.

Outro ponto é a burocracia e o ambiente regulatório. Para atrair investimentos de longo prazo, Murad comenta que o Estado precisa oferecer previsibilidade, segurança jurídica e processos mais eficientes.

O mercado de trabalho mineiro, por outro lado, atravessa um momento de baixa desocupação. Em 2025, a taxa média de desemprego em Minas foi de 4,6%, a menor da série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012, segundo o IBGE.

Força das commodities

Além da produção de commodities minerais e agrícolas, principalmente minério de ferro e café, Minas Gerais ganhou relevância nos últimos anos na exploração de lítio, sobretudo no Norte do estado. “O local é muito rico e favorecido por vários minerais que estão em evidência no mundo inteiro”, destaca Duarte.

Em 2025, Minas Gerais exportouUS$ 45,6 bilhões, crescimento de8,6% em relação a 2024e o maior valor registrado desde o início da série histórica, em 1997, segundo oPanorama do Comércio Exterior de Minas Gerais, elaborado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG). Com o resultado, o estado terminou o ano como oterceiro maior exportador do Brasile o quinto maior importador.

As importações mineiras somaramUS$ 18,3 bilhões em 2025, alta de7,8%na comparação anual. Com isso, o fluxo comercial — soma das exportações e importações — alcançouUS$ 64 bilhões, também o maior valor da série histórica, de acordo com a Sede-MG.

Apenas café e minério de ferro responderam por 49,9% do valor exportado por Minas no primeiro semestre de 2025, segundo análise da Fundação João Pinheiro baseada em dados do Comex Stat.

Baixa produtividade ainda limita o potencial da economia mineira

“Existe uma exposição natural aos ciclos das commodities”, afirma Fábio Murad. Em outras palavras, quando os preços internacionais estão favoráveis, esses setores impulsionam exportações, arrecadação e investimentos. Porém, quando há queda nos preços ou redução da demanda global, o impacto pode ser significativo. O efeito pode ser ainda mais relevante em municípios cuja economia e arrecadação estão muito associadas à mineração.

Em vez de concentrar sua participação na extração e na exportação de matérias-primas, para Duarte, Minas poderia ampliar as etapas industriais realizadas localmente. No caso do lítio, por exemplo, isso envolveria estimular atividades relacionadas ao processamento do mineral e à produção de componentes e baterias.

“Acho que falta diversificação nessa matriz e incentivos para uma verticalização maior da cadeia dentro do Estado”, afirma Duarte. De acordo com o economista, uma participação mais ativa nas negociações com empresas do setor mineral poderia estimular investimentos industriais e permitir que uma parcela maior da cadeia produtiva permanecesse em Minas Gerais.

Fábio Murad concorda. “O caminho não é abandonar esses setores, porque eles são grandes vantagens competitivas de Minas. O caminho é agregar valor“, ressalta.

“Minas também tem patrimônio histórico, gastronomia, turismo rural, ecoturismo e destinos de grande potencial. Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina, Serra do Cipó e Serra da Canastra são exemplos. O problema é que, novamente, aparece o gargalo de infraestrutura.Não adianta ter um excelente produto turístico se o acesso é difícil, a conectividade é limitada e a infraestrutura local não acompanha”, destaca Elisa Machado.

Minas Gerais tem 853 municípios, o maior número entre todos os estados brasileiros

Situação fiscal ainda é desafio

Minas Gerais atravessou um longo período de dificuldades fiscais e,mesmo com a melhora recente das contas públicas, o elevado endividamento ainda representa um desafio para o estado.

Ao final de 2025, a relação entre aDívida Consolidada Líquida (DCL) e a Receita Corrente Líquida (RCL) estava em 167,46%, ante188,97% em 2018, segundo as Notas Explicativas do Balanço Geral do Estado de 2025, elaboradas pela Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais (SEF-MG).

O quadro fiscal também passou por uma mudança com a adesão de Minas Gerais aoPrograma de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Criado pelaLei Complementar nº 212, de janeiro de 2025, o programa federal permite a revisão das condições das dívidas dos estados e do Distrito Federal com a União, com mecanismos destinados a reduzir o custo do endividamento e criar condições para o pagamento dos débitos.

O programa também criou oFundo de Equalização Federativa (FEF), abastecido com contribuições dos estados participantes e recursos da União, que posteriormente serão distribuídos para investimentos nos próprios estados. Minas formalizou sua adesão ao Propag em 2025. A entrada no programa abriu caminho para o encerramento doRegime de Recuperação Fiscal (RRF).

Segundo a Secretaria de Estado de Fazenda, a expectativa é que o novo modelo contribua para uma trajetória de equacionamento da dívida mineira, ao mesmo tempo em que parte dos compromissos assumidos no programa seja direcionada a investimentos.

Apesar do viés mais positivo, o problema é que as limitações orçamentárias podem reduzir a capacidade de direcionar recursos para áreas que elevam a produtividade no longo prazo.

“Minas tem uma sanha arrecadatória muito grande, às vezes tentando equalizar a questão fiscal olhando muito para a arrecadação, sem fazer o dever de casa do corte de despesas“, afirma Duarte. Para o economista, encontrar um equilíbrio entre responsabilidade fiscal, capacidade de investimento e redução dos entraves burocráticos está entre os principais desafios econômicos do estado.

A economista da KAT Investimentos, ressalta que a questão fiscal não impede a economia mineira de crescer. “O setor privado continua investindo e o Estado continua atraindo projetos importantes. O problema é que, com menos espaço fiscal, o governo tem menos capacidade de investir em infraestrutura e em outros fatores que aumentam a produtividade no longo prazo.”

Em 2025, o estado registrousuperávit orçamentário de R$ 1,108 bilhão, resultado deR$ 132,7 bilhões em receitas e R$ 131,6 bilhões em despesas, segundo dados divulgados pelo Governo de Minas Gerais em janeiro de 2026. Foi oquinto ano consecutivo de resultado positivonas contas estaduais. Parte dos recursos associados ao superávit, entretanto, é vinculada a finalidades específicas e não pode ser livremente utilizada pelo Poder Executivo, de acordo com o governo estadual.

Agenda dos próximos anos

Para avançar em competitividade, Minas Gerais precisa concentrar esforços em áreas estratégicas como infraestrutura, educação, inovação e atração de investimentos, avalia Fábio Murad.

O especialista da Wiser Asset aponta investimentos em educação, tecnologia e inovação como fundamentais para elevar a produtividade da economia mineira. Segundo ele, os ambientes mais competitivos são aqueles de incorporar novas tecnologias às suas atividades. Outro ponto é a melhoria do ambiente de negócios. “É preciso ter menos burocracia, mais segurança jurídica e processos mais rápidos para quem quer empreender e investir”, diz Murad.

A atração de capital estrangeiro é outro fator nessa estratégia. “Minas precisa olhar mais para o mundo. A competição por investimentos hoje é global”, ressalta Paulo Henrique Duarte.

Minas tenta converter vantagens econômicas em crescimento sustentável

Outra frente é a qualificação do capital humano. Investimentos em educação e formação profissional, de acordo com Duarte, são fundamentais para preparar a economia para atividades de maior valor agregado. “É preciso deixar de ser apenas um estado extrativista para conseguir capturar toda a cadeia de valor, seja do minério de ferro, do lítio ou, eventualmente, das terras raras.”

Elisa Machado acrescenta que o crescimento precisa chegar às regiões que hoje estão menos desenvolvidas, principalmente Norte de Minas, Jequitinhonha e Mucuri. “Isso significa infraestrutura, qualificação profissional e condições para que o investimento privado chegue também a esses lugares. Não é uma transformação de curto prazo. É uma agenda de anos. Mas o estado já tem os ativos necessários para fazer isso.”

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