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Ilusão cambial? O Que Lula Terá que Fazer para Levar o Brasil Ao 8º Lugar entre as Maiores Economias

Projeção do FMI indica salto do PIB brasileiro mas economistas alertam que sem ajuste fiscal a escalada brasileira não se traduz em crescimento real

7 min

A projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) que coloca o Brasil novamente no oitavo lugar do ranking de maiores economias do mundo encontra um obstáculo para se concretizar: o ajuste fiscal. Na semana passada o FMI estimou que o Brasil alcançará um Produto Interno Bruto (PIB) nominal de aproximadamente US$ 2,8 trilhões em 2027, superando países como Itália (US$ 2,77 trilhões) e Rússia (US$ 2,68 trilhões). Especialistas consultados pela Forbes indicam que o avanço real da economia depende de sinais concretos dados por Lula de controle das contas públicas.

Segundo Alexandre Chaia, professor de economia do Insper, o cenário ideal para o país alcançar a estimativa do FMI é a combinação de alguns fatores, que se iniciam pelo ajuste fiscal. “A partir do ajuste fiscal e do equilíbrio das contas públicas, abre espaço para o Banco Central reduzir os juros. Reduzindo os juros, abre espaço para o investimento privado. Isso gerará a capacidade produtiva de longo prazo”, detalhou.

O ganho de posições no ranking para o Brasil, a princípio, não está atrelado ao aumento da renda média ou da produtividade, fatores indispensáveis que costumam acompanhar o crescimento dos países. Para o FMI, a economia real brasileira, descontada a inflação, está em desaceleração: caindo de 2,3% em 2025 para 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027.

Rodolfo Margato, economista da XP Inc., concorda com o viés de baixa, enquanto a XP espera um crescimento até menor para o PIB. “Na nossa avaliação, o crescimento econômico do ano que vem será inferior ao do ano corrente. Isso reflete, em grande medida, a política monetária ainda contracionista. As projeções do crescimento real do PIB, estão em 1,7% para para este ano, e em torno de 1% para 2027”, analisou.

Sem a ancoragem da dívida pública, os juros continuam altos, o consumo perde força e os investimentos produtivos travam. Lula entra em 2027 com a obrigação de cortar ou otimizar gastos compulsórios se quiser que a economia destrave.

PIB, câmbio e a dívida com a produtividade

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ocupamos a posição 94 em uma escala que mede a produtividade do trabalho entre 184 países avaliados. O trabalhador brasileiro gera, em média, cerca de US$ 21,20 por hora trabalhada. Esse desempenho deixa o Brasil atrás de vizinhos da América Latina como Argentina, Uruguai e Chile.

“A produtividade no Brasil tem sido historicamente baixa nos últimos anos, inclusive também no governo Bolsonaro, no governo Temer. A Produtividade não conseguiu melhorar em nenhum dos governos recentes, então é uma questão histórica brasileira”, diz Sergio Vale, economista-chefe e sócio da MB Associados.

Hoje, o Brasil ocupa o 10° lugar no ranking de maiores economias do mundo e o PIB deve fechar 2026 em US$ 2,655 trilhões, com crescimento em torno de 2,2% segundo o mesmo relatório do FMI.

O salto do PIB nominal do Brasil não vem de eficiência, inovação ou tecnologia, mas sim do crescimento simples ou dos choques temporários do agronegócio e extrativismo. Os especialistas advertem que o resultado pode estar ligado à alta das commodities impulsionada pelos conflitos geopolíticos, especialmente a guerra dos EUA contra o Irã.

Para Fernando Saad Benati, estrategista da Avenue, a diminuição da oferta de petróleo no mundo ajudou nosso país. “Um dos pontos que ajudou muito aqui o Brasil foram as exportações de petróleo. O Brasil exporta muito petróleo e esse petróleo esteve mais caro. Só o acompanhamento do ritmo de preços tende a ser benéfico para o Brasil, porque a gente vai converter maiores receitas em dólar.”

Outro fator que impulsiona a valorização do real frente ao dólar é o alto patamar do juros, que torna atrativo os investimentos internacionais e impulsionam a entrada da moeda americana na bolsa brasileira.Segundo a B3, em 2026 o Brasil recebeu cerca de R$ 45,2 bilhões em investimentos estrangeiros até meados de outubro.

Itália e Rússia: Por que a ultrapassagem não é uma vitória completa?

A ultrapassagem sobre a Itália e a Rússia decorre mais do enfraquecimento e das travas estruturais desses dois países do que de uma arrancada da economia brasileira. Nas palavras de Margato, o avanço não esconde a apatia interna. “Mesmo com a desaceleração econômica aqui no Brasil, talvez a gente ultrapassasse sim esses outros países por questões e desafios dessas economias”, afirma.

No caso da economia italiana, que enfrenta há décadas a combinação de produtividade estagnada e envelhecimento populacional, com encolhimento da força de trabalho, a ultrapassagem em dólar não significa que o brasileiro viverá melhor que o italiano.

Para Chaia, a renda média dos países explica o descompasso. “A Itália vai perder posição, mas a população da Itália tem um nível de qualidade de vida melhor do que o da população brasileira. É melhor estar num país de PIB menor com uma renda maior do que estar num país maior com uma renda menor”.

Já no cenário russo, a ultrapassagem é fruto do desgaste provocado pelo conflito militar e pelo isolamento internacional. Sob sanções impostas pelos EUA e com dificuldades de infraestrutura, a Rússia vê seu potencial produtivo cair gradativamente.

Para Benati, a comemoração é mais pela queda dos pares do que pelo avanço brasileiro. “Para mim pareceu muito que quem comemorou, estaria comemorando muito mais uma decadência de Itália e Rússia. A segunda covardia contra a Rússia é a guerra de quase cinco anos que está lá. A gente não está comemorando um crescimento extraordinário do Brasil, ainda estamos abaixo do nível de desenvolvidos”, destaca.

Desafio posto para os próximos quatro anos de Lula

Lula precisará demonstrar um comprometimento com o ajuste das contas internas para estabilizar a trajetória de alta da dívida pública em relação ao PIB. Se não houver, uma das consequências é a perda de credibilidade do Brasil e uma economia estagnada, dependente da volatilidade do câmbio. 

O mercado financeiro vai cobrar. “Se nada for feito, nossa avaliação é que pode deteriorar a percepção internacional do Brasil. Estamos falando potencialmente de risco Brasil e de fluxo gringo”, diz Benati.

Na avaliação de Margato, o ritmo fraco de crescimento esperado para os próximos anos só será superado se a gestão fiscal transmitir segurança técnica aos investidores. “É fundamental o ajuste fiscal, é uma sinalização positiva para o PIB e para a economia”, avalia.

O controle das despesas públicas é o ponto de partida para conter o efeito dominó, diz Chaia. “É um ciclo que vai iniciar exatamente pelo ajuste das contas públicas, que tem que ser feito para poder, a partir daí, reduzir juros, atrair capital estrangeiro e investimento produtivo, que vai gerar mais renda”. A melhora na qualidade de vida do brasileiro num futuro próximo depende da capacidade do Estado em otimizar seus gastos e abrir espaço para a economia real girar.

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