A maioria dos empreendimentos residenciais de marca costuma destacar as bandeiras hoteleiras, as vilas privativas e as vistas para o mar. O Esencia vai além. Essa comunidade de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 12,7 bilhões), localizada na costa sudoeste de Porto Rico, foi projetada para operar de forma independente dos sistemas públicos de energia e abastecimento de água da ilha.
O Esencia ocupa uma área de mais de 8,09 milhões de metros quadrados próxima à Baía de Boquerón. Quando estiver concluído, contará com 500 quartos e suítes de hotel, além de 1,2 mil residências particulares. O empreendimento reunirá hotéis como Mandarin Oriental, Aman e Rosewood Hotels & Resorts.
Segundo as incorporadoras Reuben Brothers e Three Rules Capital, o projeto utilizará exclusivamente eletricidade proveniente de energia solar renovável, reciclará água em toda a propriedade e produzirá excedente de energia para abastecer a rede elétrica local.
Após três anos de avaliações ambientais, recebeu aprovação para seguir adiante. A primeira fase inclui os hotéis Mandarin Oriental e Aman, os primeiros bairros residenciais, um campo de golfe, um clube de praia, o Racquet & Field Club, trilhas, um centro urbano, uma escola e instalações médicas. A Rosewood deve integrar o empreendimento logo em seguida.

Uma comunidade com energia solar como prioridade
O sistema energético do Esencia fornecerá eletricidade para hotéis, residências, restaurantes, instalações médicas, escola e demais comodidades sem depender de fontes externas.
Isso é especialmente relevante em uma ilha onde furacões e uma infraestrutura envelhecida tornaram o fornecimento confiável de energia um desafio diário desde que o Furacão Maria danificou a rede elétrica em 2017.
Em entrevista, Will Bennett, CEO e sócio-administrador da Three Rules Capital, afirma: “Qualquer pessoa que viveu o Furacão Maria entende que uma infraestrutura resiliente não é um luxo em Porto Rico. É uma necessidade.”
Segundo ele, a comunidade contará com sistemas próprios de abastecimento de água, energia renovável, armazenamento em baterias, energia de reserva e tratamento avançado de água.
A aprovação ambiental de Porto Rico prevê que o empreendimento contará com um sistema fotovoltaico capaz de atingir 68 megawatts quando estiver concluído, começando com 12,8 megawatts na primeira fase. O armazenamento em baterias permitirá que a comunidade opere por até 16 horas sem fornecimento externo de energia. Caso seja concluído conforme o planejado, será a maior instalação de energia solar destinada a um único complexo residencial e hoteleiro de luxo do Caribe.
“Estamos construindo uma comunidade autossuficiente, alimentada integralmente por energia renovável, tendo a energia solar como principal fonte”, diz Bennett. O objetivo é produzir energia excedente suficiente para abastecer a rede elétrica local quando necessário. Esse sistema de reserva será fundamental para manter em funcionamento o centro médico, as instalações de tratamento de água, a escola e os hotéis durante furacões, que frequentemente interrompem o fornecimento da rede principal de Porto Rico.

Criando um sistema independente de abastecimento de água
A equipe responsável pelo desenvolvimento afirma que a água potável será obtida por meio de aquíferos existentes no próprio terreno, enquanto a água da chuva captada e o esgoto tratado serão reutilizados na irrigação. Ainda não está claro quanto de água o empreendimento consumirá do aquífero regional quando estiver totalmente concluído, especialmente em períodos de seca. Os desenvolvedores sustentam que o sistema independente evitará aumentar a demanda sobre a rede pública de abastecimento de Porto Rico.
“Combinado aos nossos sistemas independentes de circuito fechado, que captam e reutilizam água da chuva e águas residuais tratadas, estamos estabelecendo um novo padrão para infraestrutura resiliente e local”, afirma Bennett. A água reciclada será utilizada no paisagismo e na irrigação, incluindo os dois campos de golfe do Esencia.

Mantendo a maior parte da área preservada
O escritório porto-riquenho Álvarez-Díaz & Villalón trabalhou em conjunto com a empresa global de arquitetura paisagística EDSA para desenvolver o plano diretor do empreendimento.
“O tamanho da propriedade nos deu o privilégio de sermos contidos”, afirma Bennett. “Agrupamos intencionalmente residências, hotéis e comodidades em áreas específicas, preservando mais de 75% do terreno para conservação ambiental, lazer, trilhas, campos de golfe, habitats naturais e uso comunitário.” A área restante será destinada a edifícios, vias e demais infraestruturas.
“Nossa visão para o Esencia era projetar uma comunidade e um plano diretor que respeitassem e restaurassem o terreno”, afirma Pablo Massari, principal da EDSA. “Ao manter reduzida a área construída, destinar grandes espaços à conservação e à recuperação dos ecossistemas e utilizar infraestrutura sustentável e resiliente, estamos criando um lugar onde a vida cotidiana se integra naturalmente ao meio ambiente.”
O plano ambiental prevê a restauração de mais de 33 acres (aproximadamente 133,5 mil metros quadrados) de áreas úmidas, a recuperação de dunas costeiras e ecossistemas de manguezais, além da ampliação dos habitats para aves. Todas essas áreas serão conectadas por mais de 20 milhas (aproximadamente 32,2 quilômetros) de trilhas. Essa paisagem natural também orienta a forma como a comunidade está sendo projetada. O Mandarin Oriental Puerto Rico está sendo desenvolvido pelo Studio MK27, liderado pelo arquiteto brasileiro Marcio Kogan, conhecido por criar edificações que integram ambientes internos e externos.
O Esencia aderiu ao programa Signature Sanctuary, da Audubon International, e agora busca conquistar a mais alta distinção da iniciativa, a certificação Signature Platinum, principal reconhecimento ambiental concedido pela organização a novos empreendimentos. A Audubon International é uma entidade independente da National Audubon Society.
Ingressar no programa é apenas o primeiro passo. Para obter a certificação, o Esencia precisará cumprir rigorosos padrões ambientais em todas as fases do projeto, incluindo concepção, construção e operação de longo prazo. A certificação abrangerá todo o empreendimento, e não apenas elementos específicos, como os campos de golfe ou os hotéis. Se for construído e certificado conforme o planejado, o Esencia se tornará a maior comunidade Signature Platinum do mundo em área territorial.

Hotéis de luxo e moradias permanentes
“Sempre enxergamos o Esencia primeiro como uma comunidade e depois como um resort“, afirma Bennett.
Além dos hotéis e residências, o empreendimento contará com um centro urbano com lojas, restaurantes e opções de entretenimento. A comunidade também terá uma escola privada bilíngue para alunos da educação básica ao ensino médio (K-12), um centro médico e de bem-estar com atendimento 24 horas, fazenda orgânica, pista de pouso privativa, clubes de praia, um Racquet & Field Club, centro equestre e dois campos de golfe de padrão campeonato. Um deles terá vista para o mar e foi projetado por Rees Jones.
As residências incluirão condomínios, vilas com serviços e lotes residenciais individuais, com preços entre aproximadamente US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,2 milhões) e mais de US$ 20 milhões (mais de aproximadamente R$ 102 milhões). Segundo os desenvolvedores, quase 70% do interesse inicial veio de moradores de Porto Rico. O Mandarin Oriental Residences, Puerto Rico at Esencia oferecerá 106 quartos e suítes de hotel, 83 vilas e cerca de 200 residências adicionais próximas ao centro urbano. Os detalhes dos empreendimentos da Aman e da Rosewood ainda não foram divulgados.

Questões ambientais continuam em debate
O programa de sustentabilidade do Esencia é um dos pilares da proposta, mas parte da população local ainda manifesta preocupações. Moradores e grupos ambientalistas questionam a dimensão do projeto, seus impactos sobre habitats costeiros e a vida selvagem, o consumo de água e se a população teve participação suficiente no processo de planejamento. Os desenvolvedores afirmam que responderam a essas preocupações por meio de estudos ambientais, análises governamentais e diálogo com a comunidade.
A Coalizão Defend Cabo Rojo, contrária ao empreendimento, declarou que os moradores de Cabo Rojo e especialistas deveriam ter tido a oportunidade de serem ouvidos. Em uma declaração recente à Associated Press, o grupo afirmou: “A participação cidadã não é um favor concedido por uma agência; é um princípio fundamental do devido processo legal e uma garantia indispensável quando nossos recursos naturais, a água, as comunidades e o futuro do município estão em jogo.”
“As pessoas devem fazer perguntas sobre um projeto dessa dimensão em sua comunidade”, acrescenta Bennett. Segundo ele, após ouvir as manifestações da população, a equipe revisou o plano diretor para ampliar os recuos em áreas costeiras, fortalecer a proteção de habitats, melhorar a gestão das águas pluviais e expandir o monitoramento ambiental. “O que eu peço é que as pessoas julguem o Esencia com base no que realmente foi proposto e aprovado, e não em suposições ou rumores.”

A Reuben Brothers e a Three Rules Capital estimam que o projeto criará mais de 17 mil empregos, entre diretos e indiretos, e gerará mais de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 35,7 bilhões) em atividade econômica de longo prazo. Bennett afirma que aproximadamente US$ 20 milhões (cerca de R$ 102 milhões) deverão retornar à comunidade local durante a primeira fase e quase US$ 40 milhões (cerca de R$ 204 milhões) ao longo de todo o empreendimento. Esse montante é próximo ao valor que o Esencia espera economizar por meio de uma isenção de impostos municipais. Esses números foram fornecidos pelos desenvolvedores, e os resultados efetivos dependerão do andamento das obras.
As vendas formais das residências estão previstas para começar no último trimestre de 2026. Se tudo ocorrer conforme o planejado, o Esencia espera receber seus primeiros moradores e hóspedes no fim de 2029.
“Em última análise, esperamos ser julgados não por nossas imagens de divulgação ou promessas, mas pela forma como este terreno estará daqui a algumas décadas”, conclui Bennett.
Reportagem publica originalmente em Forbes.com