Para a gestão da MRV (MRVE3), a inadimplência da carteira de crédito da Caixa nos patamares atuais não inspira cautela e, apesar do aumento em um passado recente, não configura um problema estrutural. Em simultâneo, a empresa tem feito ajustes finos para lidar melhor com o cenário.
Em teleconferência acerca dos resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26), executivos da MRV destacaram que o provisionamento não sofreu solavancos e que a empresa tem tido predileção pelo pré-chave do que o pós-chave
Dados oficiais da Caixa mostram que a inadimplência do crédito imobiliário do banco público ficou em 1,6% ao final do segundo trimestre de 2026.
Em 2025, o indicador havia terminado em 1,18%. Contudo, não há uma ascensão sucessiva, visto que ao final de março de 2025, por exemplo, a inadimplência era de 1,42%.
“O nosso provisionamento para os mesmos ratings [de crédito] tem se mantido constante ao longo do tempo. O nosso saldo de Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) dividido pelo contas a receber caiu um pouco versus número do ano passado”, observa Ricardo Paixão, Diretor Executivo de Finanças e Relações com Investidores (RI) na MRV.
“Temos conseguido fazer uma carteira reduzindo Pró-soluto pós-chave, o Pró-soluto B, que tem uma inadimplência notavelmente mais alta do que o do Pró-soluto A. Então, no momento da venda, a provisão está ficando um pouco menor. Estamos conseguindo fazer uma venda mais concentrada em recebíveis pré-chave do que pós-chave”, completa.
Além disso, o executivo adiciona que a empresa tem focado em clientes com rating de crédito melhor de uma forma geral.
Eduardo Fischer, CEO da MRV, declarou que a inadimplência da Caixa “piorou nos últimos trimestres”, mas “não é nada estrutural” — e portanto ainda não inspira cautela no segmento.
O financiamento da Caixa é relevante para a MRV à medida que a companhia opera praticamente dentro da totalidade do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), cujo financiamento vem, em grande medida, da Caixa.
O ano de 2026 mostra um orçamento recorde para o programa, conforme reportado pela Forbes.
O crescimento ante o ano anterior fica entre 20% e 25%, segundo cálculos de especialistas. No total, o valor nominal é de R$ 208,66 bilhões, sendo R$ 142,1 bilhões via FGTS. Complementam o orçamento do programa de habitação a Lei Orçamentária Anual (LOA), o Fundo Social e outros subsídios.
O que o balanço da MRV diz sobre inadimplência
No resultado do segundo trimestre de 2026, a companhia relatou que optou por por acelerar o distrato de clientes Flex (tabela direta) e FB (financiamento bancário tradicional) com perfil financeiro mais frágil e maior inadimplência.
Esse movimento representou um leve impacto negativo na evolução da margem bruta do trimestre, que ficou em 31,2%.
A companhia detalha duas carteiras de recebíveis de clientes:
Financiamento Direto (jun/26 vs mar/26 vs jun/25):
- Carteira bruta: R$ 2,71 bilhões (+1,2% no tri, +19,9% em 12 meses)
- Carteira líquida (descontada a parcela cedida): R$ 66 milhões — caiu 66,3% no tri e 83,2% em 12 meses, porque a MRV tem cedido cada vez mais essa carteira
Pró-Soluto (parcelamento direto pós-obra):
- Carteira bruta: R$ 3,61 bilhões (praticamente estável)
- Carteira líquida: R$ 2,26 bilhões (+9,3% em 12 meses)
Os repasses (transferência do financiamento do cliente para o banco) cresceram 19,1% frente ao primeiro trimestre deste ano, mas ainda rodam abaixo do ritmo de produção — há um gap de 1.119 unidades entre produção e repasse no trimestre.
A empresa trata isso como o principal gatilho para destravar geração de caixa nos próximos trimestres.
Os números do 2T26
A MRV&Co anotou prejuízo líquido de R$ 626,3 milhões no segundo trimestre de 2026 (2T26). O prejuízo líquido ajustado, excluindo a marcação a mercado de derivativos, atingiu R$ 540 milhões.
A última linha do balanço ficou aquém das expectativas dos analistas. O BTG Pactual projetava um prejuízo de R$ 274 milhões para a empresa. A XP mirava R$ 213 milhões de prejuízo.
A MRV no 2T26 mostrou um EBITDA ajustado negativo em R$ 142 milhões. A cifra mostra uma melhora de 70% ante os R$ 476 milhões do segundo trimestre de 2025.
A receita líquida foi de R$ 3 bilhões entre abril e junho, alta de 11% ante o mesmo período do ano de 2025.
Assim, o Ebitda ficou aquém das expectativas do consenso Bloomberg, que esperava R$ 467 milhões positivos. Por outro lado, a receita líquida ficou ligeiramente acima das projeções do consenso, que eram de R$ 2,92 bilhões.
A reação do mercado
As ações da MRV subiram 14% no pregão desta quinta-feira (13). Desde o início do ano, contudo, os papéis caem 37%.