Existe um provérbio africano que diz: “Espero que quando a morte te encontrar, te encontre vivo.” E foi assim que a entrevista terminou.
Agora, imagine a intensidade que foi conversar, por quase 60 minutos, com a celebridade que articulou essa frase.
Jameela Jamil, atriz, ativista e apresentadora de podcast, foi uma das grandes atrações do Web Summit Lisboa 2025, um dos maiores e mais importantes eventos de tecnologia e inovação do mundo, onde ideias e negócios se encontram para inventar o futuro.
Jameela ficou famosa no Brasil como a personagem Tahani, na série “The Good Place“, da Netflix, uma comédia deliciosa que fala sobre ética e moralidade de um jeito acessível e inesperado.
Mas o mais inesperado mesmo foi descobrir que os planos da Jameela nunca incluíram ser atriz. Seu sonho de infância era ser médica. Aos quase 17 anos, ela foi atropelada por um carro, o que a tirou da escola e a deixou numa cama por dois anos. Quando finalmente se recuperou, tudo o que ela queria era sair pelo mundo.
Foi quando aceitou um emprego ensinando inglês a estrangeiros, com a promessa de se mudar para o Brasil. Sim, Jameela era obcecada pelo Brasil. Mas, enquanto dava aulas, foi descoberta por um produtor e convidada a apresentar um programa de televisão.
Na hora, falei uma frase que uso sem moderação: “A gente planeja tudo direitinho, e Deus vai lá e muda nossos planos.” Que bom.
Aproveitei que o assunto eram os desvios da vida para perguntar sobre o podcast “Wrong Turns” (“Escolhas Erradas”), onde não há lições de moral, nem finais edificantes, apenas histórias constrangedoras e embaraçosas dela e dos amigos.
Talvez você esteja se perguntando: para que se expor desse jeito?
Jameela descreve essas micro-humilhações como uma permissão para abrir aquele baú trancado a sete chaves e revisitar momentos nada gloriosos que formaram o nosso caráter.
Numa época em que só se fala em inteligência artificial, quão disruptivo é ser totalmente humano? O que seria de nós sem as nossas falhas?
Num dos episódios do podcast, Jameela conta que um escritor muito famoso a confundiu com a atriz indiana Priyanka Chopra numa premiação em Hollywood. E ela, fiel ao próprio deboche, em vez de corrigir o engano, manteve a conversa com sotaque indiano, fingindo ser a Priyanka.
Foi então que perguntei:
— Você considera não ter vergonha um superpoder?
Ela respondeu: “O meu superpoder é me recusar a desaparecer quando erro. É a minha incapacidade de aceitar que exista uma responsabilidade extra de ser perfeita, principalmente por ser mulher. Sei que os erros são, neurologicamente, a melhor maneira de aprender, por isso, cometer erros é a única forma real de crescer.”

Jameela continuou dizendo que transforma erro, tristeza, raiva e frustração em ação: “Não gosto de me sentir impotente, então busco maneiras de me sentir poderosa. E isso normalmente vem de compartilhar a dor com outras pessoas, para que elas também liberem as suas dores, e assim possamos elaborar um plano juntas.”
“Holy forking shirtballs” (easter egg para os fãs de “The Good Place”).
Não sei você, mas para mim fez todo o sentido essa “vibe” de abraçar a imperfeição. Nem acredito que a virginiana aqui escreveu isso. A maturidade é uma bênção mesmo.
Veja só, não estou dizendo que é fácil aceitar as nossas falhas, mas estamos prestes a começar um novo ano. Então, quem sabe praticar o ensinamento da Jameela possa nos libertar um pouco?
Ela, que fala abertamente sobre saúde mental, trouxe uma provocação essencial: redefinir o sucesso. “E se rejeitássemos a ideia de que sucesso é riqueza e fama? Conheço muita gente rica e famosa, especialmente em Hollywood, que é miserável.”
Então onde está o sucesso? Perguntei. “Na felicidade. Homens apoiando mulheres. Mulheres aprendendo sobre temas que levam à independência financeira, como cripto, geopolítica ou IA. Homens e mulheres se apoiando, ganhando seu dinheiro e celebrando as vitórias uns dos outros. E, claro, rir é uma forma poderosa de encontrar a felicidade. Rir libera endorfina, dopamina e serotonina, o trio invencível para reduzir o estresse e fortalecer o sistema imunológico.”
Eu, que já vi a morte de frente, de costas e de cima, só pude concordar com cada palavra dita no elegante sotaque inglês da Jameela. Afinal, a pior forma de morrer não é a morte física — mas a morte em vida. Quando você para de experimentar, de aprender, de arriscar e de se transformar.
“Estar contente, ser grato pela sua vida e realmente se divertir, essa é a única métrica que importa quando você morrer.”
Jameela Jamil
Que venha 2026 com muitas micro-humilhações e, claro, felicidade.
P.S.: Na semana passada, dei um treinamento para o time de marketing da PepsiCo e pratiquei o que a Jameela chama de “shameless process” (zero vergonha). Compartilhei um momento nada glorioso da minha carreira, afinal, deixei as minhas vitórias e qualidades para o LinkedIn, onde tudo é sempre impecável.
*Luciana Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.
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