Dizem que o ano que começa é uma folha em branco. Não é.
Chegamos em janeiro com páginas escritas, rabiscadas e amassadas. Eu mesma já rasguei algumas das minhas 18.345 folhas. Mas o que estava escrito nelas não foi esquecido, não tem como. E isso não é um problema.
Uma folha completamente limpa não diz nada sobre quem somos. O sentido da vida não está em apagar o passado. Até porque não existe “undo” para o que foi vivido. O livro da vida é escrito com caneta, e até o corretivo deixa marcas.
Eu, que já estava há meses sem chorar, abri a torneira quando passei o Natal na casa da minha mãe e me deparei com uma caixa de sapatos cheia de álbuns da Kodak Express. Tente não sentir o cheiro de alfazema misturado com naftalina. Logo no primeiro álbum, vi aquela nossa foto.
Como dizer que 2026 é uma folha em branco se aquela família que, em 2006 (na última foto com todos reunidos), já não existe mais daquele jeito?
Você já reparou que quase nunca vemos as raízes de uma árvore? Sabemos que elas estão lá, mas elas não aparecem nas fotos. Ficam escondidas, silenciosas, sustentando tudo o que insiste em ficar de pé.
E o que uma árvore tem a ver com a minha família? E com a sua? Tudo.
Na última aula de cabala de 2025, estudamos a árvore não apenas como símbolo de vida, mas como um mapa da existência. Naquele momento, eu ainda não sabia o quanto precisaria desse ensinamento.
Aqui no hemisfério norte, é inverno. O frio secou os galhos. As folhas que até pouco tempo estavam lá no alto agora cobrem o chão da cidade. O vento forte testa, todos os dias, a resistência até das árvores mais imponentes. Às vezes penso que o plátano em frente à minha casa vai cair. Mas ele não cai. E eu sei que, em poucos meses, ele vai florescer de novo.
Uma árvore não vive só do que aparece. Vive do que está embaixo.
A vida também é assim. Um fluxo contínuo. O que vem de cima precisa descer. O que está embaixo pode subir. Nós ocupamos esse ponto do meio — entre o céu e a terra — com a capacidade rara de escolher como essa energia vai circular.
Vivemos num mundo adoecido, onde parece que estamos sempre devendo, sempre insuficientes. As pessoas mal conseguem dormir de tanta ansiedade. Acumulamos coisas (e nunca é suficiente), e esquecemos de cultivar o que realmente importa.
Na cabala, o fruto é o propósito. O fruto não existe para a árvore. Ele existe para o outro. Doar é o que mantém o fluxo vivo. E entender isso deixa a vida mais inteira.
É preciso confiar que as raízes sabem o caminho, mesmo quando os olhos não veem. Talvez seja hora de cobrar menos e observar mais como a sua energia anda circulando. “High Frequency” é real. É a prática de pequenos hábitos positivos repetidos todos os dias, com constância, não com intensidade, até que o corpo e a mente passem a operar melhor quase automaticamente.
Caminhe em 2026 como se a vida estivesse a seu favor. Não porque será fácil. Não será. Alguns terão mais desafios do que outros. Mas acreditar muda a forma de atravessar.
Minha mãe, Antonia, acorda cantando. Não porque tenha uma vida leve. Justamente o contrário. Ela canta para sobreviver ao caos. Canta para se conectar com o filho que já partiu, com a filha que vive em estado neurológico crítico e com o marido que, muitas vezes, já não a reconhece. Ela canta para estancar a dor no seu coração. Sempre nos disse que “quem canta, os males espanta”. E sempre esteve certa.
A gente pode recomeçar todos os dias. Não com folhas perfeitas, mas revisitando aquelas que preferíamos ter jogado no lixo. São elas que nos dão força. Acredite. Foram elas que nos trouxeram até aqui.
O que vemos acima da terra é resultado do que foi nutrido por gerações.
O lugar de onde você veio não existe mais. Mas suas raízes permanecem. E é por causa delas que você pode e vai seguir dando frutos.
Que, em 2026, tenhamos orgulho de quem somos, com todas as nossas imperfeições, mas também a coragem de crescer e evoluir, para que, juntos, possamos fazer do mundo um lugar melhor.
*Luciana Rodrigues é conselheira do board da Junior Achievement, membro do conselho da Iniciativa Empresarial pela Igualdade e do comitê estratégico de presidentes da Amcham. Também é aluna de pós-graduação em neurociências e comportamento.
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